Segunda-feira, Março 21, 2011,2:35 AM
Ainda existem estrelas no céu
Hoje escrevi isto no facebook:
“Ser mulher e professora é considerado um gueto pela sociedade. E mais, pela sociedade que eu pensava minimamente inteligente e coerente. Os pseudo-intelectuais deviam por a intelectualidade num sítio que eu cá sei, e se pensam que eu desisto estão muito mal enganados. Ainda não viram, foi nada.”
Vou fazer uma paragem na linha com que usualmente escrevo, hoje apetece-me escrever de outro modo, de um modo digamos que a puxar para a crónica real.
E desde já aviso, que não estou nem aí para a gramática e vírgulas e afins, porque estou com o coração na boca e a escrever a todo o gás, portanto não vou estar minimamente preocupada com a parte científica da coisa. Adiante.
Tenho noção e acato todas as consequências que virão após a publicação deste texto, pois tal como outros deste género já me deram pano para mangas, que é como quem diz, represálias por parte dos colegas de profissão. Mas como eu não vivo na China nem na Coreia do Norte, posso portanto (ainda) escrever o que me vai na alma. Nunca escrevi nada que ferisse o coração de ninguém, e muito menos que pusesse em causa a integridade das pessoas. Portanto, vamos a isto.
Sou ser humano. Sou mulher. Sou professora. Sou filha. Neta. Sou irmã. E sou mãe de centenas (pelas minhas contas já muito perto dos mil) de alunos que já passaram por mim.
Desenganem-se aqueles que pensam que um professor do terceiro ciclo e do secundário, que o único trabalho que tem é entrar na sala de aula e (como costumam dizer ..) despejar matéria, essa é a parte (para quem teve uma boa formação) mais fácil.
Ser professor(a) com o coração e com a alma toda é muito mais que isso, e implica um ‘jogo de cintura’ para lá do imaginário intelectual. Implica enxugar lágrimas, acatar mudanças de humor, sentir quando os alunos estão tristes e porque o estão, se são vitimas de maus tratos, se o pai e a mãe já morreram e se estão a viver com o avó que lhes bate todos os dias porque no tempo dele as meninas não usavam mini-saia, se estão envolvidos com o consumo e tráfico de drogas, porque é que usam navalhas em vez de esferográficas, se têm fome, se estão doentes, se têm roupa de inverno, e até se a letra mudou, se está mais carregada ou mais ao de leve (sim porque já consegui chegar a graves problemas de alguns alunos devido à mudança de caligrafia)… e no meio disto tudo ensinar matemática. Equações, integrais, derivadas, funções e afins.
Tudo isto leva-se bem quando é feito do coração e para o coração. Porque foi uma opção minha, porque sempre tive bem presente os riscos que a profissão acarreta, nomeadamente a pressão social.
O que cansa, e o que cansa verdadeiramente não são os alunos, porque se eu sou professora é por eles e para eles.
Não é com toda a certeza pelo ordenado, que isto de ser professora contratada é considerada hoje em dia (por diversos jornais e identidades competentes) uma profissão de risco. De risco porque podemos ser a qualquer momento vítimas de violência física, de risco porque temos trabalho hoje a não sei quantos quilómetros de casa e amanhã já não temos, de risco porque se nos chamarem para fazer as vezes de uma gravidez ou doença temos que pegar no avião e ir e passado umas semanas ou meses, voltar sem trabalho. De risco porque nenhum banco nos dá empréstimo para comprar a porra de uma casa, porque o ordenado não chega para pagar um quarto num lado e uma casa no outro (há uns tempos pensei em comprar casa, fui a um banco pedir informações para um empréstimo e quando souberam da minha profissão, disseram logo… ‘esqueça lá isso’, e eu esqueci). Mas sinceramente? O que eu acho mesmo de risco nem é nada disto.
O que eu acho mesmo de risco é ser as duas coisas ao mesmo tempo, a saber, Mulher e Professora.
As duas coisas ao mesmo tempo é que tramam a vidinha social toda (aqui sou eu a ser irónica).
Quando uma professora já passou a barreira dos trinta e é sozinha, é inevitável a maltinha pensar que ‘andamos’ à procura, e não falo da sociedade digamos ‘civil’, falo mesmo da minha classe.
É usual ouvir inúmeras histórias de professores que traem os respectivos com colegas, então quando uma pessoa trabalha longe ainda é mais usual. As histórias têm fundamento porque realmente elas existem, mas existem numa sala de professores como existem em todas as empresas do mundo. As pessoas são o que são e agem de acordo com a consciência, ponto.
O que não é correcto é no século vinte e um catalogarem uma pessoa por histórias de outras.
Sei de muita coisa que toda a gente sabe e que ninguém fala. Ou que falam pela calada, porque é melhor e mais confortável, porque são todos uns grandes homens e mulheres, porque usam salto e outros ténis. É.
Eu uso ténis. E as minhas botas estão rotas e a precisar de uma sola nova, tenho três pares de calças que estão largas, porque emagreci à pala deste sistema de ensino que me anda a consumir. E tenho uma mochila cheia de sonhos. E um coração cheio de histórias que se for por na balança tem mais lágrimas que sorrisos.
Mas eu cá ando e não lastimo. Porque tenho saúde e saudinha da boa. Porque tenho comida na mesa e um tecto que não me chove em cima. E mais que tudo tenho cada um dos sorrisos dos meus alunos gravados em todas as artérias do meu organismo. E porque tenho trinta e um mas ainda um sorriso de criança que me dá alento para ainda acreditar que vale a pena, que tudo vale a pena enquanto o miocárdio e a aorta existirem.
O que eu lastimo profundamente é barrarem os meus sonhos e sorrisos por este rótulo de professora da barreira dos trinta. E lastimo ainda mais ter que abandonar a profissão porque simplesmente já não consigo fazer parte de tanta mentira. Era um projecto de vida. Mas já não é. É como ir à missa, quando deixamos de acreditar no padre, simplesmente não vamos à igreja e rezamos em casa, e eu deixei de acreditar neste ‘padre’.
Cansei-me do meu exército só ter um soldado.
Era verão, estava um por do sol alaranjado, foi no Baleal… eu tinha pouco mais de cinco anos e o meu avô disse-me: “Nunca desistas dos teus sonhos, e quando chegares a eles e vires que já não sorris, desiste. Porque cobardia é deixarmo-nos ir quando já não queremos ir.”
O meu avô foi e continua a ser um dos pilares da minha coluna, e hoje quando tenho dúvidas e cruzamentos, olho o céu, escolho uma estrela e falo com ele. E hoje quando olhei o céu, não havia estrelas, tive que ser eu a colocar lá uma.
Abandono o barco. E abandono porque sei nadar desde os cinco anos e não é aos trinta e um que vou deixar de nadar.
Com tudo isto perdi o rumo do texto, basicamente o que eu quero transmitir, é que lastimo profundamente e com todo o meu coração que ainda hajam pessoas cultas mas mal informadas que com simples gestos e palavras consigam derrubar sonhos… simplesmente porque colocam rótulos nos seres humanos. É que às vezes as ‘marcas brancas’ e mais baratas não são de todo as de menor qualidade.
E como diria o outro: vale a pensa pensar nisso. Ou então não pensem. E olhem só o céu. E se virem uma estrela a jogar às cartas com um palito na boca, digam que vão da minha parte, que serão bem recebidos.


[Tinha mais coisas escritas, mas achei por bem não as publicar... senão amanhã tinha toda a comunidade docente às costas e simplesmente não me apetece ter que gramar com cinismos da treta]
 
posted by Estranha pessoa esta
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