sexta-feira, março 09, 2007

Deixa-me contar-te como poderia ter sido o nosso Tango

Quem passava por ali não fazia ideia do que estava a acontecer.
Do que acontecia ali, noite após noite.
Rolava a intensidade nessas madrugadas,
não sei porque ninguém deu por isso… o facto é que ninguém deu por isso…
Ninguém deu por essa intensidade.
Por esse desejo ofegante.
As escadas eram de madeira, com degraus pequenos e sem qualquer corrimão.
Ele subiu apressadamente, já ouvia os primeiros acordes da melodia… tinha medo que ela já não estivesse ali, ou que tivesse arranjado outro par.
Entrou no salão ansioso.
Era uma sala de dança, daquelas típicas da década de 80, média luz, um balcão de ferro, grandes janelas para o exterior, no fundo alguns sofás…
Talvez porque a noite era de Inverno, talvez porque estava quarto crescente, talvez porque os dias já cansam de serem iguais a tantos outros…

....talvez por isso o salão estivesse cheio.
Mulheres de decotes enlaçados, saltos esguios, cabelos pintados, olhares disfarçados…
E já não lembrou porque foi ali.
Esqueceu-se que a música podia acabar.
Distraiu-se portanto!
Distraiu-se com o decote da Maria, admirou os saltos da Anabela, passou com as mãos pelo cabelo da Joana, piscou o olho à Vânia…
Com o cair da madrugada todas elas foram embora…
Já a música ia nas últimas notas, quando finalmente lembrou que alguém o esperava.
Foi até ao bar, pediu um martini.. observou a sala vazia.
Suspirou.
A dança tinha sido efémera.
A música oca.
Queria outra dança!
A dança.
Mas, tal como a música precisa de ouvintes.
O toque precisa de desejo.
Desejou.
Não tocou.
A música parou.
No sofá um bilhete:
Existem sons que encontras todos os dias, melodias que espreitam a cada canto como se de um hino se tratassem, e depois existem aquelas canções que ninguém as ouve, que nem sabe que existem, pensam que quando as querem ouvir que basta ligar a rádio.
Mas, essas canções existem, e por mais estranho que possa parecer… cansam-se de esperar que o ouvido se aprume.


Deixa-me contar-te como poderia ter sido a nossa dança.
O nosso tango.
O TANGO!
Sem decotes, sem pinturas, sem saltos, com sinceridade.
Pé aqui.
Pé ali.
Puxa. Arrasta a mão contra a cintura.
Esguelha os sentires.

Empatia de olhares.
Desenvolve a melodia.
Piano.
Toque no pescoço. Perfume silencioso.

Seduz o aroma.

Desliza o dedo.
Suor no pulso.
Mordida na orelha.
Avança com o toque que está no Refrão.
Enrola a perna, pé quente.
Lábios desvendados.
Silhueta permitida.
Aconchego perturbador.
Até podia contar-te o resto do Refrão.
Mas, estavas distraído com as Estrofes!

Esqueceste de Vibrar.
A dança precisa de suor.

De roçar no osso.
Até ao Tutano!
-

-

-
-
Escusas de lembrar qual a frequência desta rádio.
Da minha rádio.
É que eu… dei por ti.



quarta-feira, março 07, 2007

Isto não é um Testamento

Não vou estar com rodeios
Com artimanhas linguísticas
Com processos que se dizem oficiosos
Vou directa ao assunto

Hoje aniquilava-me
Sem qualquer tipo de piedade
Aniquilava-me
Assim, num só gesto
Sem dó
Nem sequer me permitiria a clemências
Isto não é um testamento
Mas, bem que o poderia ser
Sinceramente?
Hoje
Hoje aniquilei-me
-
-
-
-
E só agora dei por isso.
Pena tu não teres dado!
FUCK YOU TOO

Sentir ao som de Still Don't Give A Fuck By Eminem

segunda-feira, março 05, 2007

... antes de entrar no palco! Desnuda II


Aqui para nós, se um dia te disser isto:
Guardaste um ‘Apenas’ como se de tudo se tratasse.
Pensaste que afinal nada mais te poderia oferecer.
E tiveste razão.
Nada te posso oferecer.
Apenas partilhar o que de mais meu tenho.
Agora.. agora já nem isso saberás o que é!
Ficaste pelo ‘Apenas’.
E nem sentiste que bastava Apenas um minuto para num minuto tudo bastasse.
Não fiques admirado.
Porque deverias ficar, sim.
Mas, era AGORA!
Admira-te à vontade.
Mas, que essa admiração seja de atracção.
Olha, e não leves mal…
Mas, ando cansada de nunca me chegar o Apenas.
Preciso de um qualquer toque.
DESVENDO-ME!
Mas, isto….
Isto é só aqui para nós!

Emissor: O Agora
Receptor: A Passividade
Interlocutor: A Vontade

quinta-feira, março 01, 2007

Desnuda

Ouvir ao som de You Can Leave Your Hat OnBy Joe Cocker Era usual ela aparecer atrasada.
Mas, hoje apareceu mais atrasada que o costume.
Era cerca de onze horas e um quarto, a noite estava névoa, com uma temperatura nada amena, mesmo fria.. direi!
Daquele frio que rompe a garganta sem avisar, e nem todos os cachecóis fazem a sua ausência parecer afável.
E lá vinha ela apressada, com um casaco cor de marfim, olhava o relógio minuto após minuto, parecia querer encontrar algo… parecia querer algo sem aviso prévio.
E queria mesmo!
Virou na primeira ruela à esquerda, era uma travessa esguia de calçada torta, meio desengonçada…
E ela descia apressadamente e vasculhava os bolsos à procura de lume.
E cada vez que procurava e não encontrava, dava um suspiro, e esse suspiro ecoava naquela calçada como se de um terramoto se tratasse.
Finalmente chegou.
Era uma porta verde, de eucalipto com uma janela de grades, bateu três vezes… à quarta vez abriram a janela.
Ela gritou quem era, e só depois de alguma insistência rodaram a fechadura.
Imaginem um ranger de um dragão, era assim esse som… Essa sonância dessa fechadura.
Ela entrou.
Despiu o casaco cor de marfim, deixou que o seu tom de pele ofuscasse toda a plateia.
Deixou que os seus lábios erguem-se um qualquer desejo.
O desejo.
Subiu o palco.
Era um palco grande, sem degraus para o público, com luz directa para o anfiteatro.
Não recordem as galerias, não é disso que se trata.
Tudo se trata do varão.
E ela despiu-se
Assim sem preconceitos.
Sem qualquer tipo de pudor.
Despiu-se.
Demorou alguns minutos…
Foi ao som deste timbre que agora ouvem que tudo aconteceu.
Primeiro isto.
Depois aquilo.
E despiu-se.
E ficou assim.
Apenas assim.
Despida de tudo.
E vestida de nada.
O suor escorria-lhe pela face.
O queixo tremia e os ombros estavam tensos.
As sobrancelhas desvairaram em agonia, não tanto como a retina.
Essa ficou imóvel.
Ela ficara assim com ela própria.
Sem mentiras, sem renuncias, sem deixas.
E porque sem deixas ficara, sem deixas ficou.
O seu corpo parecia uma qualquer árvore, os braços abriram-se …
Os ramos abanaram ao som daquela, dessa música!
As raízes saíram do solo, o tambor estremeceu e ela, e apenas ela sentiu que o varão saiu daquele palco.
E a plateia ergueu as mãos, e foi um aplaudir de todos os lados, vindo de todas as direcções.
E ela com aquele olhar tímido, com as mãos a taparem o peito, abanou levemente a anca em direcção do queixo e apenas murmurou:
Deixem-me empolgar os sentidos, não me baralhem o desejo, nunca me desviem daquele olhar.
Um, dois, três…. Abanou novamente a anca.
Entreabriu as pernas.
E eles sem colapso, desviaram o olhar.
Ela importou-se?
Não!
Porque o palco estava lá!
E sem qualquer tipo de lástima, gritou novamente:
Deixem-me empolgar os sentidos, não me baralhem o desejo, nunca me desviem daquele olhar.

Palco:
A vida.

Ela:
Tu.

Varão:
Os teus sentires.

Roupa:
Os teus preconceitos.

Degraus:
Os teus medos.

Público:
Os teus receios.

Som:
As tuas veias!


Despe.
Respira.
Vibra.
Sente que afinal…
Vale a pena.


Abana a Anca!
O palco apenas quer ser surpreendido.
Com o quê?
Digam-me vocês!



Eu digo:
Sensualidade ‘intimidante’!

terça-feira, fevereiro 27, 2007

A propósito da bela silhueta do 'faz de conta'


Pssstttttttt
Sim, Tu!
Psssttttt Psstttttttt
Estás na Fila da Hesitação?
Qual foi a senha que tiraste?
A do Medo?
Ou a da Raiva?


Pretendes esperar muito mais tempo?

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Casca de Laranja

Existe uma multidão a pensar de olhos abertos.
Centenas de milhares de cérebros que insistem em pensar de olhos encetados, como se a retina fosse uma alavanca para a grande maratona dos neurónios.
Convenhamos que os melhores pensamentos são de olhos fechados, aqueles em que as pestanas superiores e inferiores se enlameiam num salgado doce.
Dizem que é por medo do ridículo.
Não creio que assim seja.
Sinto que tendem a pensar de olhos abertos porque é muito mais conveniente pensar apenas no que se vê.
Dá menos trabalho, e afinal de contas só se vê a laranja… para quê pensar no sumo dela?
Existe uma multidão a pensar de olhos abertos.
Centenas de milhares de cérebros que insistem em pensar de olhos encetados, como se o miocárdio perdesse pulsações por sentir demasiadas emoções.
Eu faço de conta que não me importo por pensarem em mim de olhos abertos.
Mas, no fundo…
Tenho pena de me verem apenas como uma casca de laranja!
Não que eu tenha muito sumo…
Mas, ando tão cansada de…. Sentir os outros de olhos fechados!
Existe uma multidão a pensar de olhos abertos.
Centenas de milhares de cérebros que insistem em pensar de olhos encetados, como se um simples comover afectasse a sua bela silhueta do ‘faz de conta’.


sábado, fevereiro 24, 2007

Julgamento Assumido


Hoje ouvi isto num filme:
“Não sou um Zé ninguém.
Eu tenho um Plano.”

Pois meus caros amigos, conhecidos e derivados:
EU assumo!
Eu sou uma Maria ninguém!
EU não tenho um plano.

Condenem-me se conseguirem.
Eu cá já li a minha Pena.
Escrita pela minha própria Sentença.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Lost Memory

Estou demasiadamente triste para escrever...
Para transmitir seja o que for.
Este [e o outro] blog encontrasse desocupado por tempo indeterminado.
Obrigado a todos os desassossegados que esperam por mim...
Não sei quem são, nem sei se existem... mas, obrigado.
Daqui, bem daqui de mim!

Gosto de vocês...


quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Momento Altamente e Estupidamente Parvo patrocinado pela já ressaca de publicidade do dia de S. Valentim

E pronto!
Eu não queria mas, viro-me para os estaminés do costume e tau.
Viro-me para os anúncios, e são só telemóveis a pares, relógios a pares,
talheres a pares!
Na rua é só montras do orgão cardíaco em todo o lado.
Na rádio é só sonoro a puxar para pronto já sabem.
Na Web então... esqueçam lá isso, é um batimento cardíaco que nunca mais acaba.
Mesmo que uma pessoa não queira colocar aqui no estaminé nada alusivo ao tema..
É quase que obrigada! :P
Que se pode dizer sobre esse assunto, que já não tivesse sido dito?
Pois, assim de repente não estou a ver...
O que eu estou a ver, é que cada vez mais banalizam esse, e outros sentimentos!
E bla bla bla que ai a minha cara metade é isto e assado e frito e cozido.
É pah é que não há pachorra!
E o que eu tenho com isso?
A cara metade é tua!
Eu cá já tenho a minha! Graças a Deus que acordo todos os dias com a cara inteira..
É que era uma chatice se perdesse assim metade da cara sabesse lá por onde...
Partiam-me metade dos dentes, furavam-me a orelha, davam-me um biqueiro na outra narina.
Uma pessoa sabe lá...Tanto vandalismo por aí! :P
E que esse sentimento seja isso mesmo:
Vandalismo
Incoerência
Devanio
Confusão
Perdição
Que seja expressão de qualquer coisa
Mas, que seja!
Não desfazendo nunca a imaginação.
Nem tão pouco a sensação
daquele embaraço.
Embaracem-se muito neste e nos outros dias!
Ao contrário do que dizem... Tenho para mim que as pessoas apaixonam-se por acaso.
Basta estarem distraídas!
Ás vezes existem é problemas de expressão...
Um bom dia de ACASO para todos!
Sejam distraídos... apaixonem-se!



Para quem ainda não comprou o belo do presente, aqui vai uma dica:


Este pequeno livro surgiu de um desafio que a Editora Anjo Dourado fez aos autores de blogues, para deixarem um texto que respondesse a esta pergunta: “Que é o amor?”.

P.S.:

Se por lá encontrarem umas linhas estranhas a descreverem o amor como sendo um pomar já sabem que sou eu ehehhe :P

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Assumidamente Anormal Chiça Penico

Os livros de instruções sempre me fizeram náuseas.
Como diria a outra:
"Um verdadeiro aborrecimento... uma maçada!"
E que coisa esta, de insistir em ter livros de instruções,
de me impingir instruções.
Meus amigos, se eu quisesse instruções,
eu pedia!
Agora não me obriguem a decifrar o vosso livro.
Que façam vocês as vossas páginas, capa e contracapa.
Se mo querem dar a conhecer, maravilha!
Agora, eu ler por vocês...
E não me venham com o ah e tal que isso das
instruções que é normal!
Eu cá gosto é do anormal!
Até que a morte nos separe.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Sombras II

Sombras I Aqui


Neste dia ele saiu mais cedo.
Era Inverno, daqueles Invernos secos e húmidos, suaves e gelados...
Daqueles frios que arregaçam as veias até ao tutano,
ao ponto da 'medula do ser' ficar completamente tripartida em manhãs, tardes e noites.
Corria calçada abaixo, não porque estivesse atrasado mas,
porque tinha medo que o 'Medo' aparecesse.
Ele costumava aparecer assim naquelas tardes frias.
Ainda ecoava naquelas paredes aquele último bater de asas que se queria arrojado,
coabitava naquela rua um grito nunca dado.
E ele corria
corria corria
Hoje ele queria escrever tudo.
Dantes só escrevia o que podia.
Hoje queria escrever tudo o que podia e queria!
E corria antes que o tal bater de asas se ausentasse.
E pegou no pequeno lápis, o tal que estava sempre no alpendre da mercearia.
E sem estremecer, escreveu.
Escreveu:
"Se num qualquer anoitecer me vires de chapéu de chuva, e não estiver a chover..
É porque me esqueci de mim e estou a lembrar-me de ti."
E tirou o único atacador que tinha.
Pegou no pequeno papel e no pombo de nome Medo, atou no tornozelo do 'Medo' o manuscrito.
Atou.
E soltou.





Não chovia.
E ele tinha o chapéu de chuva.

Viste?



"Que importa se viste,
devolveste o que tinha escrito."
Escreveu ele no degrau do prédio de porta entreaberta.

sábado, fevereiro 10, 2007

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Sem Muralhas , Cem Batotas versus S[C]em distracção, Com Atitude

Fizeste o Rei avançar na diagonal
Enquanto tinhas o Bispo que o poderia fazer
Fizeste o Peão avançar quatro casas
Enquanto tinhas o Cavalo que o poderia fazer
Fizeste a Rainha ficar sem muralhas
Esqueces que o Rei só pode avançar uma casa de cada vez
E que a acomodação
Tal como a distracção
É a morte do artista
-
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-
Xeque Mate

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Desabafo na primeira pessoa


Tenho saudades de mim
De conseguir estar sozinha comigo
De isso não me perturbar os sentidos
De isso não questionar o que sou
Tenho saudades de pensar
Dantes tinha saudades de sentir
E agora que sinto
Já não quero lembrar esse sentir
Nem lembrar
Nem relembrar
Nem o próprio 'nem' do delirar
Não é mágoa
É um estar perdida
É um saber onde é o caminho
A meta
O transporte
Mas, o transporte está cheio
Atulhado
Ou por outra, vazio
Mas, não sou passageira para sequer poder entrar
[Espera na passagem]
Estou lá há demasiado tempo
'
'
'
'
'
Caí

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Teria, sim


Se bem repararem
Nada tem de perturbação
Teria, sim
Mas, agimos como se púdessemos
Pedir uma qualquer indemnização
Ao Presente
Pelo Futuro que ainda não temos
E aos segundos
Quando este relógio
Nem sequer esse ponteiro tem.
Se bem repararem
Nada tem de perturbação
De artístico
Teria, sim
Se não fosse este incomodo
Esta indiferença
Este encolher
Este guardar de Tempo
Como se o Tempo coubesse no bolso
E os sentires numa qualquer maleta.
Se bem repararem
Nada tem de perturbação
De distracção
Teria, sim
Se não morasse algures
A consciência
Desse mesmo perturbar
Se bem repararem
Tudo tem de perturbação
Qualquer que seja
A ausência
De uma insana
Emoção.
Isto é... se bem repararem!

domingo, fevereiro 04, 2007

adeus

Que não saibas que estive na estação
À espera de todos os comboios
Por aquela linha
Que não saibas que te disse que estava lá
Permanentemente
Sem medir o Tempo
Que não saibas que esperei sozinha
Que não saibas isso
Nem tão pouco da intensidade dessa espera
Nem do espanto de esperar, ainda
Mesmo que esse ainda já não seja
Insanamente já não seja
Espanto
-
-
-
-
-

















Adeus

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Surdina

Não é segredo para os outros.
Não é segredo para mim.
Porque insistes em ser um segredo para ti?
- Dizia ele em surdina.
Não é segredo para mim.
Não é segredo para os outros.
Porque insistes em ser um segredo para ti?
- Respondeu ela num sussurrar.


quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Traje versus Pele , Pensar versus Sentir

O que eu penso é um traje
Um traje de tecido roto
E dizem para o tirar
Que tal fardamenta já não se usa
E que ainda para mais
Está roto
Roto
O que eu penso é um traje
Não está na moda
Na voga como falam na capital
Este traje já me deixa nua
Este estranho modo de pensar
Deixa-me assim
Desnuda
Desconcertada
E o meu pensar que deveria proteger-me
Já não protege
Este traje já deixa entrar o frio
Estranho modo este que senti de repente
Senti frio
Senti que sempre foi frio
Este traje
Frio
Os trajes que se vêm nas vitrinas
São de algodão e ceda
Dão um cómodo vestir
Assentam nos demais
Os trajes que se vêm nas vitrinas
Ahhh traje esse que não me serve
Queria eu que ele servisse
Queria eu olhar sequer a montra
Apesar de me convencerem
Não me servem
Este modo de pensar nasceu roto
Nu
Posso até o despir
O pensar
Posso
Sim
Posso
Porque este traje
Não tem cinto
Mas, e o que sinto?
O sentir
Que traje é esse?
Não é!
É pele
Pele
E sua
Sua
É pele
PELE

terça-feira, janeiro 30, 2007

Esqueci-me


Peguei numa folha.
Folha.
Folha branco.
Em branco.
Alcancei um lápis.
Precisava desenhar.
Desenhar.
Desenhar um qualquer risco.
Não era de Madrugada.
Esse desenhar.
Não consegui.
Tinha folha.
Tinha lápis.
Tinha até o traço.
Tinha o afia.
Mas,
Esqueci-me.
Esqueci-me de como se afia.
De como se afia.
Um
Segredo.
Era de Madrugada?
Não.


Era adversário!
E gritou-me:
Sai da Humanidade!

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Discurso Directo


Não queria ser mal educada com ela.
Nem sequer lhe faltar ao respeito.
E muito menos ser traiçoeira.
Por isso, e num gesto sem nenhuma subtileza,
Lhe disse:
Olha Vida, se queres Gestos, não me oprimas.
Se queres Palavras, não me ajustes.
Se queres Sentires, não me ameaces.
Se queres Olhares, não me cegues.
Se não queres nada disto, não me chames.
E se um dia mudares de ideias e quiseres isto tudo.
Não lamentes.
Porque eu estava oprimida, ajustada, ameaçada e cega!
Restou-me o olfacto para prever a tua chegada.
E passos para fugir da tua partida.
Olha Vida, se um dia lembrares de mim.
Lembra-te que um lembrar é Mente.
E se é de Mente que se trata.
Então, não queiras lembrar de mim.
Não estou em nenhuma Mente!
Estou ali.
Ali mais para aqueles lados de lá.
A fugir.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Veias desgovernadas

São suores.
Suores de frio.
Arrepio.
Daqueles que se desencontram entre a pele e a retina.
O resto é temperatura.
É uma espécie de esquisito.
De ossos mal amanhados.
De veias desgovernadas.
Ando intoxicada.




Sem risco!

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Diagonal


- Qual é a melhor direcção para a certeza?
- A direcção não sei.
- Então, o que sabes?
- Sei o caminho.
- Não é a mesma coisa?
- Talvez até seja.
- Então porque respondes assim.
- Porque do saber ao sentir, vai todo um caminho.
- E.....?
- E esse caminho eu sei... Agora a direcção.. A direcção, não sei!
- E o caminho?
Qual é?
- Sei que não é diagonal!
- Como assim?
- Se fosse horizontal, ou vertical seria banal...
- Quer dizer então, que um desses será.
- Será! Mas, seria semi-recta.
E com toda a certeza, a incerteza estará num vértice.
Aquele.
Aquele que une o deambular com o ......
Com o ... qualquer coisa.
Desde que não seja segmento.
- Não entendo.
- Ainda bem. Se entendesses seria banal. E isso seria certeza.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

O tempo não é de desenrasque

Conheces aquela história dos nativos?
Sim, aquela em que se fala de um coração nativo.
Conheces?
Não importa se conheces.
Importa se queres conhecer.
Queres?
Não me importa o resto.
Queres conhecer ou não?
Responde.
Queres?
Ora, porquê agora...
Porque o tempo não é de desenrasque.
Os ponteiros já não estão alheios.
Não são exigências de tic tac.
Estou apenas a exigir de mim o meu mim.
E a pedir-te a ti, um soletrar.
Nem que seja em silêncio.
Tic tac tic tac
Tic
Tac
Tac
Qualquer lógica que consigas nesse tic tac
Esquece-a!
Não é de lógica que se trata esta história.
Não esqueceste?
Estás alheio.
E isso pesa.
Pesa.
Pesa neste tic tac
Tic
Tac
Tac
Soletras?

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Pólos II

E ele gritou que era um qualquer desencaminhamento.
Confusão de um querer.
Intoxicadamente selvagem.
E ela veio com a conversa da Loucura.

Não venham com a conversa do imcompatível.
Dos pólos.
Do Norte e do Sul.
Ora, se há dias de Sol e Chuva, e que faz o Arco-Íris.
Porque não existir a Timidez e a Ousadia, a fazerem a Loucura?

sábado, janeiro 20, 2007

Trovoada

Não é complicação, nem tão pouco confusão.
É fidelidade.
É não querer desabitar de mim.
Não me aceito, é certo!
Mas, recuso-me a ceder a tal desabitação.
E isto não é errado.
Mas, também não é para fazer sentido.
É conflito.
É talvez e sim descoberta.
Como que uma embriaguez de absurdo.
Com ressaca de desassossego.
E não me venham com a lucidez.
Não a conheço, nem faço questão de a conhecer.
Não.
Não já disse, não quero essa apresentação.
Com toda a certeza não lhe irei estender a mão.
Seriam demasiados limites.
E o que eu quero são disparates.
Disparates de emoção.
Emoção!
Sem vocabulários.
Sensações.
Desconcertantes.
Sem constantes.
Sobressaltos.
De enfrentar!
Ousadia.
Da distracção.
Genialidade de qualquer coisa.
Curiosidade do acaso.
Acaso!
Delícia do improviso.
Improviso!
Poeira de trovoada.
Trovoada incerta.
Estava distraída.
Atenta!
Ops
Impulso.
Isto não é estranho.
É apenas o meu modo.
O meu modo.
O meu modo de.
De Ser.
Ser.
SER!

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Queda Livre

Tendem a falar de gravidade como uma faca.
Tendem.
Ah pois tendem...
São tendências!
E perguntam o quanto a faca é afiada.
E eu respondo:
Quem a amolou?
E ficam de testa franzida.
Tendências...
A lâmina somos nós que fazemos.
Que importa se os outros a acham de gravidade.
Ou aguçada.
Ou até nada cortante.
Que importa isso, se ela não cortar o que eu quero?
Se ela não for a minha medida.
O meu punho!
A minha forma.
Então qual é a gravidade do ferimento?
Olha não sei,
O que eu sei é que a minha faca
É gravidade sim.
Mas, é outra
É daquela atracção gravitacional entre a Terra ou outro qualquer corpo celeste.
É aguçada ao ponto de ser responsável (na Terra) pelo peso de um objecto próximo da superfície ou pela sua aceleração em queda livre.
Queda Livre!
E perguntam outra vez:
A faca está afiada?
E eu respondo:
Salta em queda livre e logo vês!


quarta-feira, janeiro 17, 2007

Desengonçada


Não me asfixies
E eu sei que não
E é esse saber que me asfixia
Não o teu saber
Mas, o meu surpreender
De não saber
O porquê
Desta não asfixia
Não penses que é recíproco
Ou até sensatez
Pensa antes que é loucura
Este meu conhecer
Isto não é um embarco
Apesar deste descalço
É qualquer coisa de perigo
Para além do movimento
E este modo desengonçado
É algo inerente
Assim como o orvalho
Numa noite de desalento
Como que um desabitar
Da confusão
Para quê tantas tradições
Se o que eu quero são ilusões
E não importa o labirinto
Repara no momento
Que importa se demora
Prevalece o pensamento
Vê lá se percebes
Que nada há para entender
O que existe tem sentido
Mesmo que esteja por decidir
Talvez seja subúrbio
Esta minha insensatez
Talvez nada seja
Nada mais que uma qualquer invalidez
Que importa o que seja
Nem que seja confusão
Quero lá saber o que seja
Desde que seja
Um qualquer desatar
Não penses que é loucura
Este meu conhecer
Pensa antes que é um apagar
De uma qualquer sensatez

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Revelo


Dizem por aí que todos nós usamos máscaras.
Umas mais acentuadas.
Outras menos.
Mas, dizem que todos as temos.
Permitem-me discordar.
Não vou dizer que ninguém as tem.
Isso seria ingenuidade e hipocresia.
Claro que existe quem as tenha.
O que as pessoas confundem... é o escondido com as máscaras.
As máscaras escondem algo.
Uma face. Um gesto. Um episódio. Uma realidade. Um bocejo.
O escondido é diferente.
Eu posso ter um qualquer pó escondido num qualquer canto da sala.
Está no canto. Mas, não atrás de algo.
Apenas está no canto.
E por estar no canto, está escondido.
Ou está escondido por estar no canto.
Por vezes dizem-nos:
- Mostra-te como és!
E esquecem que nós estamos a ser o que somos.
Apenas não estamos a revelar tudo em gestos ou palavras, porque estamos no canto.
E insistem que o revelar está nos gestos e palavras.
E esquecem que as pessoas podem dissimular esses mesmos gestos e palavras.
Agora nos olhos!
Nos olhos não.
Não!
E revela-se isso tudo nos olhos.
Não é num olhar.
Atenção, é nos olhos.
Porque essas tais máscaras que falam pode até ser um olhar.
Há quem consiga fazer isso. Usa-las até num olhar.
Eu cá não consigo.
Assumo, se pudesse era usar sempre óculos escuros.
Porque os olhos dizem tudo.
E por isso andam encolhidos.
Com medo de um qualquer olhar que os dispa num clicar.
Com medo de um qualquer bocejo que desprenda aquele lacrimejar há tanto por sair.
Simplesmente encolhidos.
Simplesmente encolhida porque .......
Eu respondia.. mas, estou ali no canto.
Revelo que menti ao escrever que se pudesse usaria sempre óculos escuros.
Já não quero!
Ando com os olhos desnudos.
Encolhidos é certo.
Mas, desnudos.
DESNUDOS.
Pudesse a palma da minha mão revelar essa nudez!