Foi em fins de Outubro.Vai quase para uma década.
Sim, vai para dez anos. Agora que penso nisso a sério. São dez anos.
Dez Outonos. Dez Primaveras. Uns quantos Verões. E sem dúvida alguma, dez Invernos.
Dez Invernos.
Lembro bem dos Invernos.
Eu gostava dos invernos nessa rua.
A calçada molhada.
A praça de rua.
O grito dos ciganos: Ó freguesa são só quinhentos marréis.
O resto de legumes no chão.
O frenesim matinal.
Os fins de tarde na tasca do senhor Chico.
Lembro bem dos tremoços.
Eram salgados.
Como a vida.
E a casa de ferragens do outro lado.
Deste lado era o terceiro andar.
A varanda era de ferro.
Ferro caído. Como o chão que tantas vezes pisamos.
Lembro bem do teu olhar.
Era claro. Grande.
As pestanas grossas.
É. Sem dúvida alguma que lembro bem desses Invernos.
No outro dia passei lá.
Nessa Rua.
A casa de ferragens já não existe.
Deve ter fechado com a tua morte.
Já passei lá tantas vezes e nunca olhava para esse lado da rua.
No outro dia parei.
Olhei.
E a casa de ferragens já não existe.
Lembro bem dela.
Do teu olhar atrás do balcão.
De me dizeres, solta o cabelo.
Tenho saudades tuas.
Vai para oito invernos que partiste.
Oito invernos.
Mas, os dois que sobraram ficam aqui.
Bem aqui.
Lembro bem dos Invernos.
Eu gostava dos invernos nessa rua.
A calçada molhada.
A praça de rua.
O nosso trampolim na paragem do eléctrico.
Os tremoços?
Os tremoços continuam salgados.
Como a vida!
O cabelo?
Nunca mais o prendi!
















































