Um dia gritaram-me isto: Eu para sentir é preciso muito!
Eu respondi assim: Eu para sentir, não é necessário nem muito...nem pouco. É só preciso sentir! Ponto final. Sem parágrafos.
Estranha Pesssoa Esta
Quietude? Descanso? Que se foda o sossego. As estradas de alcatrão. E os cães do quintal. Que se foda o fácil. O que dá jeito. E o banal. Que se fodam os casacos. O que pesa. Os ombros. Que se fodam os vestidos. As montras. As pinturas. Que se fodam os políticos. As campanhas. Patranhas. Que se fodam quem não se fode. Quem não se ri. De si. Desbocadamente. Quietude? Descanso? Quero é tempero. Sal. Picante. Coentros. Alecrim. Nos assados e afins. Quero é provar provar provar E beber água no fim De tanto piripiri que se faz sentir. Quietude? Descanso? Não sei fazer renda. E a minha mesa não tem cadeiras. Mas, que se foda!
Há quem diga que todas as questões existencialistas são respondidas pela Metafísica. Por uma certa simbiose intelectual… mas que me perdoem os filósofos, por vezes algo a puxar.. para, o digamos… arrogante. É forte a palavra? Que seja. Mas há teses que me esvaziam completamente o organismo. Não é tanto pela tese. É mais pelo organismo. É que fico cá com uma azia a certos discursos fundamentalistas. ….. Pensando melhor esta azia deve ser dos tremoços. Faltava-lhes sal.
E esta gente que anda de um lado para o outro. Que se faz falar de assento. E ás vezes até de acentos. E esta gente que vê os outros. Que se faz dizer pela boca. E nunca pela garganta. É como um teste de álcool. Se sopramos pela boca, pouco ou nada acusa. Agora se o ar vier directamente da profundeza da garganta. Acusa tudo. Tudo e mais alguma coisa que viesse. Mas eles respiram pela boca. E não se calam. E esta gente que não se cala. Que não se entende. Que não se entende. Não vêm a destreza de uma Alma. Que ‘insanamente’ tenta levar o dia. E depois vem a noite. E a madrugada. Ai a madrugada essa. Que nunca acaba. E eles passam na rua. São só sossegos. Sossegos e mais sossegos. E não se calam com o raio dos sossegos. Sabem lá o que é agonia a percorrer as veias. Cada centímetro de células. Chega ao núcleo e volta para trás. E percorre todo o organismo outra vez. Chega a entravar cada osso das mãos até estalar. Não sabem? Então calem-se. Calem-se porra! E não me façam repetir. Farta. Fartinha. Fartíssima de vos ouvir. Com coerências. Equilíbrios. Desmentidos. Aliados de preconceitos. Calem-se de uma vez. Ou então enforquem-se na vossa lucidez. Quero lá saber. Enforquem-se de uma vez. Agora não me fodam é o juízo. Porque esse já o enforquei de vez.
São onze e tal da noite. Está uma noite calma. Silenciosa. Tremendamente calada. Muda. Assim estou eu, muda. Taciturna. São onze e tal da noite. Não se vê a Lua. Não sei por ela anda. Talvez ande por aí. Por terras do Oriente. Dizem que Oriente é sinónimo de início. De Aurora. De Alvorada. De pimenta. De especiarias. Condimento. De tempero. De puro. Tempero. Algo apaladado. Não no sentido extremo da palavra. Mas sim, das sílabas. Como que o paladar de cada letra. De cada som. Cheiro. Aroma. Tomasse configuração. Como se fosse Terra. Molhada. É quase como que um pisar de relva húmida. Mas descalça. Sente-se cada gota do fólio. Como se de suor a escorrer pelo pescoço se tratasse. É um género de canela. Em estado bruto. São onze e tal da noite. Já quase meia noite. Está uma noite calma. Silenciosa. Tremendamente calada. Muda. Falta-me o gemido.
Esta ausência da tua pele. Arrasa-me com os nervos. Anseio a tua saliva. Pelas glândulas de todas as minhas entranhas. É. Existem encontros saborosos. Depois existem os outros. Completamente apetitosos. É como beber ginja. Podemos saboreá-la num copo de plástico. Ou, por outra. Num delicioso copo de chocolate. No fim até se lambe os dedos. A gana. Com a língua toda. Irreversivelmente. Eriças-me.
Depois de saborear um pensamento. O sentimento tornar-se Asma. A realidade envolvente demasiado pequena. E o desejo insaciável. Tu falas em azul claro. Eu murmuro cores daltónicas. Como aquele nascer do sol. Vermelho forte a estibordo. Neblina a bombordo. Depois de saborear um pensamento. O sentimento torna-se verdadeiramente asmático. E a fome incontrolavelmente sequiosa. Escuta. Diz o silêncio. É o dia a chegar.
Havia semanas que era ao Domingo. E outras que era ao Sábado. Eu gostava mais ao Sábado. Sempre me pareceu que o Sábado é maior que o Domingo. O Domingo faz-me sentir o fim de algo. Mas. Sim. Gostava mais ao sábado. Era no meio da calçada. No Bairro da Ajuda. Como quem sobe do lado direito. O passeio era de uma calçada mais escura. Endurecida. Gasta. Pelas décadas. Ficava na esquina a ver os eléctricos. O som dos eléctricos sempre me acalmou. E ficava ali de olhos fechados. Imaginava outros tempos. Outros olhares. Os coches a golpe de cavalo. Calçada acima. Calçada abaixo. E de vez a vez vinha aquele cheiro do Tejo do princípio da rua. E dos pinheiros lá de cima de Monsanto. Eram pinheiros mansos. Como manso era o meu sentir de esquina. Havia uma qualquer brisa histórica naquela rua de calçada escura. Trazia sons, cheiros, passos, sorrisos, lágrimas de séculos. Às vezes na esquina tocavam uma concertina. E cantavam o solidó. Um dia destes gostava de cantar o solidó. Disso. E de rimar certos verbos. Porque os adjectivos esses são como as esquinas. E nunca como os Domingos. E de vez a vez vinha aquele cheiro do Tejo. E dos pinheiros lá de cima de Monsanto. Eram pinheiros mansos. Como manso nunca mais foi o meu sentir.
[Estranha pessoa esta. Agora, quase seis da manhã. Cruzamento do Charco. Porque sempre me apeteceu escrever de madrugada nestes semáforos. Foi hoje. ]
Quando choro, a lágrima desce pelas curvas do meu peito. Como que um latejar de veias. Da minha face na tua. Como aquela vez em que as pedras tomaram um sentido. O Nosso Sentido. E até a Penha do Meio-Dia se encaixou no Bico da Vela.
Há realidades incontornáveis. E outras, há incontroláveis. Depois… Depois existem aquelas de sufoco. Que são incontroláveis e irremediavelmente incontornáveis. Ao mesmo tempo. Como que uma tempestade. Que vem tudo. É vento. Trovoada. Chuva. E que chuva. Como as marés vivas. A areia não pode as contornar, e muito menos as controlar. Vão lá, desgastam as rochas, lapidam o areal. E passado, umas madrugadas vão embora. Como as luas. Sem quarto crescente. E ficam os pescadores de mãos vazias. Porque as marés valem só por si. E as gotas da chuva que batem no mar ficam ali. Gravadas. Numa qualquer badalada do sino da aldeia. São cinco horas. Ouviste? Está nevoeiro. E eu choro.
Nunca gostei de despedidas. Acho que ninguém gosta. E esta despedida dói. E dói a valer. Aperta-me o coração todo, e deixo soltar sal pela retina. Daquele sal fino. Que sente tudo. Sinto demasiadamente a saudade. Gosto muito de vocês. E gosto com o coração todo. Porque não há outra maneira de gostar, senão com o coração todo. Aprendi muito com cada um de vocês. Essencialmente aprendi a ser mais pessoa. A ser mais sorriso. Um muito obrigado a cada um de vocês. Vocês valem muito a pena. Foi de um enorme prazer fazer parte do vosso metro quadrado. Sejam sempre fiéis a vós próprios. Lutem pelos vossos objectivos, pelos vossos sonhos, pelas vossas marés. E essencialmente, lutem por aquilo que acreditam. E nessa luta nunca se esqueçam de sorrir, e de sentir, que efectivamente, vocês valem muito a pena. Abram as asas. E voem. Mas, voem bem. E que o vosso voo seja aquilo que vocês quiserem.
Eu cá vou estando por aí, a torcer por cada um dos vossos voos.
É uma vida ... a gostar de vocês. De cada um de vocês. Meus grandes totós.
Mensurável desregramento. Entusiasma-me esta Lua. Que nem é cheia, nem é vazia. É um quase tudo. E é esse quase que me delicia. Que me confunde os sentidos. Desarranja-me os gestos. Os meneios. Fico com o instinto parado. Sem reacção. De um arrojo q.b.. Engrenamento de uma qualquer coisa a puxar para o confortável. É como um ‘cafoné’. É. É isso é. Esta lua é como um ‘cafoné’. Daqueles que nos lembramos sempre. Que ficam sempre. Que nos sentimos sempre. Nós. Como se os caracteres do meu raciocínio não se importassem com nada. E os sons de todas as paixões percebessem tudo. Sem precedentes. Nem antecedentes. Assim. Apenas. Silêncio.
Escuta-me. O meu raciocínio anda pálido. Ténue. Débil. Extremamente débil. Diria até. Franzino. Está estrafegado. Asfixiado. E.s.t.r.a.n.g.u.l.a.d.o. Pelo desejo. Imagina a Geometria de Euclides. Aquela cuja duas linhas paralelas jamais se intersectam. Agora imagina a Geometria de Lobachevskii. Aquela cuja duas linhas paralelas se encontram no infinito. Ora, pois. É assim o esmaecimento do meu raciocínio. Paralelo na razão. E. Intersecto no desejo. Percebeste? Ainda bem que não. É que a ‘desinquietude’ não se entende. Saboreia-se.
Gosto de andar de comboio. Gosto das estações antigas, dos seus cheiros, dos azulejos, do relógio provecto que muitas das vezes está inactivo. Como uma antítese entre o movimento e a espera. Estações são movimentos, linhas que se cruzam. Estações são nostalgias. São saudades. Ah saudades. Seres humanos de todos as maneiras e feitios. Estações também são silêncios, partilhas, encontros, solidão. É. Gosto mesmo das estações. E também dos apeadeiros. Daqueles que nem terra, têm. Daqueles que um casal de velhotes toma conta da cancela, e ás vezes o movimento é tão pouco que usam a cancela para estender a roupa dos seus pensamentos passados. Dos seus sonhos. Dos movimentos perpétuos de tantos e tantos passageiros que por ali passaram. E tantos eles sem parar. Tantos deles, nem sequer repararam na cancela partida pela força do estendal. Já conheci algumas pessoas verdadeiramente bonitas nos comboios. Pessoas que valem a pena. Pessoas que falam com a pessoa ao lado, que desabafam, que choram, que abraçam, sem medo, porque sabem que a pessoa sai numa qualquer próxima estação. Porque sabem que não vai haver cobranças, ressentimentos. Ontem a caminho da Régua, no banco ao lado do meu, estava uma senhora, tinha os cabelos branquinhos, vestida de azul, massajava os pés. Olho azul, pele branquinha, pensava que era Inglesa. Afinal era Belga. Meus senhores, se há viagens que valem a pena por uma brisa de vento, esta valeu com toda a certeza a pena pela lição de vida desta Senhora. Chamemos-lhe B. B. tem 80 anos, uma força de vida extraordinária. B. viaja à cerca de um mês por Portugal, e completamente sozinha. 80 anos meus amigos, 80 anos. Prosseguindo. Passou por Lisboa, Sintra, Ericeira, Mafra, Óbidos, Guimarães, Tomar, Porto, Braga .. e por aí a fora. B. conhece toda a Europa, disse-me que só faltava conhecer Portugal. E veio. E gostou. Quando questionada pela gastronomia nacional, B. lambia os beiços ao falar de um Bacalhau no Forno lá para os lados de Braga. B. falava com a alma toda, com os olhos todos, com as mãos todas. As rugas tomavam uma qualquer vida para além da dela, que não a dela. B. trabalhava numa orquestra, na orquestra de Bruxelas. Foi a carga dos trabalhos para eu entender no meu inglês de 1 tostão, que B. não foi música, mas sim, organizava os concertos, os espectáculos, os sons pelos palcos Belgas. B. adorou o nosso vinho, os nossos sabores, a nosso gentileza lusitana. B. não gostou assim tanto da organização turística do Porto, segundo ela a cidade não trata bem o turista, não está organizada para o turismo, e sentiu-se muito mal por ser desprezada. Ela nem sequer colocou a hipótese de ser idosa, ou de pensar que essa ausência de afogo fosse pelos seus cabelos brancos. Para B. meia dúzia de pessoas não fazem um povo. B. leva os Portugueses no coração. Segundo ela são gentis e de sorriso fácil. No fim do dia, B. veio junto de mim, pegou nas minhas mãos e disse-me: “ Tudo o que fizeres na vida, faz de coração, senão não vale a pena o fazeres.” Pegou na mochila, e foi-se embora. Não sei o nome de B. E B. não sabe o meu nome. Mas, sabemos a retina de uma da outra. E é isso que fica. Estações são movimentos, linhas que se cruzam. Estações são nostalgias. São saudades. Ah saudades. Seres humanos de todos as maneiras e feitios. Estações também são silêncios, partilhas, encontros, solidão. É. Gosto mesmo das estações.
Fui uma vez ao psicólogo. Era uma senhora. Tinha os seus trinta e cinco anos, ou até menos. Eu tinha vinte. Lembro-me bem desse dia, faz estes dias nove anos. Nunca gostei muito de psicólogos, sempre achei que eles tinham um discurso previamente adestrado, preparado, ensaiado. Como se uma pessoa entrasse no consultório, eles olhavam e pensavam “ É pah este tipo faz-me lembrar a tese daquele meu colega da página seis.” Sei lá, sempre me fez arrepios, pensar que para eles nós éramos mais uma página, uns coitados sei eira nem beira ‘almal’. Aquelas retóricas baratas, aquele jogo dissimulado.. eu sei que é a função deles, e hoje tenho outra perspectiva sobre tal ciência. Faz por estes dias nove anos, entrei numa pastelaria lá para os lados dos Restauradores, estava a chover, abriguei-me na tal pastelaria, e para não parecer mal, consumi qualquer coisa, um café e um pastel de nata. Sentei-me. Na mesa ao lado estavam três senhores, pelos seus cinquenta e picos anos, engravatados, fumavam um charuto e bebiam conhaque. Um deles é um dos maiores psicólogos da nossa praça. A conversa girava em torno de um dos doentes, o dito doente procurou o serviço de um desses senhores porque suspeitava que a mulher tinha um amante. O amante era um dos senhores da tal mesa. Coincidências, ou talvez não. Se eu pouco acreditava na psicologia, nesse dia, senti que eu não podia tirar conclusões precipitadas, um profissional não é o espelho de toda uma ciência. Ainda para mais, nessa semana tinha exame de psicologia educacional, e pouco ou nada tinha estudado. Segui para a faculdade, faltei ás aulas e fui à psicóloga da Universidade. Eu tinha que estudar para o exame, e tinha que sentir alguma veracidade no que lia. Entrei no gabinete, a senhora doutora perguntou-me qual era o meu número de aluno. Atenda-se, perguntou-me o número de aluno, e não o meu nome. Perguntou sobre o que eu queria falar, e eu falei. Falei, falei, falei, durante mais de uma hora. E a senhora, calada. Pelo meio até chorei. No fim ela olha para o relógio e diz, que o tempo acabou. Eu que era uma novata nestas lides psicológicas, perguntei-lhe porque é que ela nunca falou, nem olhou para mim, nem perguntou o meu nome. Ela não respondeu. Perguntei-lhe quando eu podia voltar. Aí, e olhando-me nos olhos, disse-me para não voltar. E eu saí. E não voltei. E nunca mais fui a nenhum psicólogo. Hoje quando penso nesse dia, lembro-me essencialmente da chuva, e de ter chorado. Da conversa dos tais doutores na pastelaria, da senhora que vendia rosas brancas na Rua Augusta, do cheiro do Tejo, da mochila verde com um poema escrito a tinta da china, da minha roupa negra de luto. No final dessa semana tive o tal Exame de psicologia educacional, passei. Mas, lembro-me bem o que lá escrevi. Se o tempo voltasse atrás talvez não escrevesse o mesmo. Mas, sentiria cada linha com mais entranhas. Porque chove mais, e os pastéis de nata estão com canela.
Sou então obrigada a pensar morfologicamente sobre a oralidade. Como se a caligrafia só por si
não tomasse a voz rouca dos meus dedos. Os músculos das minhas exclamações. As vírgulas do meu sangue. O ponto final dos meus ossos. Sou então obrigada a renunciar esse tipo de leis. Se é que me permites, digo-me a mim sem demoras,
que de músculos,
vírgulas
e
pontos finais
está o mundo lotado. Agora de exclamações… Estou rouca. Prefiro o sentir morfologicamente. A puxar para a anatomia descritiva. Sem coacções. Nem delongas. Farta de conjecturas. De saltos altos. É que eu, ando descalça.
segunda-feira, junho 15, 2009
Escrevo-te do telhado. Sob telhas húmidas. Beirados meio que tresloucados. Escrevo-te hoje. Porque não posso esperar para amanhã. Hoje não há Lua. Pelo menos daqui não a vejo. Está nevoeiro. Um leve nevoeiro. Ainda se vê a Serra. Cheira a Alecrim. Eucalipto. Rosmaninho. Ontem foi noite de Santo António. Não houve fogueira. Saltos. Cantorias. Ontem sussurraste delinquência. Daquela que desinquieta até ás paredes do estômago. Daquelas que definem todas as curvas dos lábios. Em que cada fio de cabelo toma aquele sentido. Do desejo. Do pescoço. Porque é no pescoço que todos os gemidos se concentram. Em que apetece arrastar as mãos. Cravar as unhas. Arrancar a garganta. Esticar a medula toda. É delinquência, isto. É criminalidade o que fazes comigo. Agora cai uma chuva miudinha. Deixei de ver a Serra. .. E um dia destes arrisco-me a ir presa. De tanto nevoeiro que se faz sentir.
Antro de desejos. Não fui feita para inacabados. Para equações mal resolvidas. Teoremas sem demonstrações. Pátio de renuncias. Idas sem voltas. Bocejos sem sonos. Gozos sem gemidos. Pretéritos passados. Vestido sem decote. Gelo. A lua está cheia. O vento é de Limão.
Cheira a Sal.
Noite. Madrugada.
Gelo. Não peques por mim. Já fui proibida de ir à missa. Perdi a sanidade na confissão. Esqueci a letra do Padre Nosso. Gelo. Peca. Peca antes pelo desejo. Dos gozos. Gemidos. Decotes. Salivas. Línguas. Peca. Mas, Peca Bem. É que no céu não conhecemos ninguém. E no inferno mora a reinação.
O meu saborear não é estético. Nem tão pouco harmonioso. Melodioso. Ás vezes consigo transbordar. Em veemência. Extrema violência. Dizem que pensar não dói. Que o que padece é o agir. Ah não que não dói. Dói a valer. Vai do tornozelo à raiz do cabelo. É como um bater de porta. Mas, daquele bater de punho. Pancadas secas. Na madeira. Estremece tudo. Vibra o organismo. Os pulmões. O pescoço. O maxilar. Ás vezes o que eu queria mesmo era ser desdentada. Perder o tal dente do juízo. E morder todas as emoções. Com ardência. Intensidade. Fogosidade. Com raiva. Como os cães cheios de saliva. Impacientes pela prisão do quintal. É. Um dia destes atrevo-me a perder o dente do juízo. E parto por aí a morder. A agonia.
sábado, maio 30, 2009
Photo by Nocas
Há uma veia, que vai desde o cérebro até à aorta. Tem um nome esquisito. Como esquisito é o sangue que corre agora. … Estou parada. Escondida. E com a Alma a Leilão. Licitaste?
Porque tantas e tantas vezes faltam-me as palavras. As sílabas. Os versos. As linhas. Porque ás vezes é tal a sofreguidão de pensamentos que o teclado não acompanha as veias, os batimentos.. o tic tac tic. Porque encontrei no 'clicar' um pedaço daquilo que fica por escrever... nas Entrelinhas.
Estou grávida. Rebentaram-me as águas da Loucura. Corto o Cordão Umbilical. Pela Demência. Estou grávida. O preservativo da alienação estava roto. Esburacado. Completamente esfarrapado. Pela intrivialidade. A palavra. Não existe. Passa a existir. Estou grávida. Apetece-me expelir. Imprevistos. Acidentais. Arrotar nervos. Ataques de nervos. Cheios de Sal. Estou grávida. Apetece-me parir. Mas, hoje não. Estou demasiadamente. Trivial. E a maternidade está fechada.
Estou dorida. Tenho a Alma dorida. Os ossos do cérebro chiam. Realidades paralelas que se ligam algures no organismo. Qualquer diagnóstico que seja feito será fraudulento. Infiel. Esta dormência não vem em livros. Em receitas. Cardápios. Corredores. Campos. Os olhos pesam. Outro cigarro. E aquelas moléculas entre a aorta e o miocárdio que não param de rodopiar. Chiam. Chiam. Estores. Às vezes era só preciso isso, estores. Estores. Fechados. Abertos. Entreabertos. De varandas. Podia até me mentalizar com a janela. Vento. Preciso de Vento. De ir à varanda. E sentir. O cheiro. O vento. A água. Folhas. Que caem. Que vêem. Perdidas. Pelo Norte. Sul. Este. Oeste. Rodopiam pela bússola toda. E tem que ser toda. Por todos os sentidos. Porque de metades não se faz os dias. A alma. As ideias. Ahhhhh as ideias. Essas são as que chiam mais. Chiam Chiam Chiam E tornam a chiar. Tenho a Alma dorida. Mais dorida que pé de atleta em caminhos de cascalho. Doem-me. Doem-me as moléculas. Dos joelhos. Quando cruzo sentimentos, com pensamentos. Essas moléculas até estalam. Nos intermitentes. Os olhos pesam. Um dia destes adormeço. O pensamento. Vento. Preciso de Vento. De ir à varanda. Rodopiar a bússola toda.
A propósito disto, e de um dos temas ter sido 'Movimentos Perpétuos' ... saiu isto, no chão da Praça da Figueira.
Momentos singulares. Ela entrou em palco. Ele timidamente esperava-a, ao canto das escadas. Pé ante pé. Cada degrau um tom. Ora agudo. Ora grave. E ele sorria com as palmas da mão E lá vinha ela. De saia rodada. Encarnada. E ele no fundo. Era o rosto do confronto. Das emoções. Dos tons esverdeados daquela incerteza. E o canto do palco ficou sozinho. Percorreu cada tábua. Ouviu-se o ranger da madeira. E ela nos degraus. Ora agudo. Ora grave. O palco só tinha uma parede. De uma tonalidade meia com tudo. Não era amarelo, nem laranja. Era de um certo tom esverdeado. Sabem aquele verde de início de Verão? A cor de que falo era assim. Não sei se chegaram a dançar juntos. Fecharam a cortina antes do final. O palco era aberto. No meio do Largo Camões. Com Pessoa na Brasileira. E o Adamastor a cheirar a Paixão. Não era Tango. Mas, bem que podia ter sido. Dançamos?
Tenho falta de ar. Uma imensa falta de AR. Vastíssima, até. Não. Não, é asma. É mesmo falta de AR. Não consigo respirar. Esbracejar. Gesticular. Acenar. É uma coisa que vem cá de dentro. Intensa. Que dói. Mas, dói a valer. Padece. Penaliza-me mais que os Pulmões. Parece que a minha Alma sai pelos Bofes. Assim, meia endrominada dos sentidos. Desalenta. Eu não tenho inteligência para passar para o papel, o quanto isso me aflige. O quanto isso me condiciona. Não consigo respirar. Meto as mãos ali. Meto o olhar acolá. Tento encaixar o cérebro em algum lado. O coração em lado nenhum. Mas, não. Não consigo o antídoto. Falta-me atmosfera. Falta-me passos. Caminhos. Sentidos. Gestos. Abraços. Sei lá o que me falta. Falta-me Sal. Falta-me Pimenta. Guisados. Cozidos. E. Fritos. Falta-me isso tudo, numa folha de Outono, embrulhada em espuma do Mar. É isso que me falta. Espuma do Mar. Com um intenso salgado. Vento agreste. Daqueles em que dás um passo para trás de espanto. Falta-me o imprevisto. O ficar sem saber o que dizer. Falta-me o arrepio. A pele. O olhar. A retina. A casca da insanidade. Aquela que nem dá tempo para pensar. È só sentir tudo. De todas os feitios. Não me venham com tretas. È que nem se atrevam a isso. Existem coisas que não tem explicação. E que chegam só por isso. E que valem só por isso. Para simplesmente. Nos faltar o AR. A voz. Os fragmentos de tudo o que fica. O que ficou. Por dizer.
- Madrinha, hoje não tenho trabalhos de casa. - Ai não??? Então porquê? - Fui a um passeio da escola, à Lourinhã. A uma exposição de Legos. - :) E gostaste? - Gostei, tinha lá a Torre Eiffel só com peças pequenas e ás cores. De todas as cores. Olha, tu é que podias lá levar a tua turma. - Mas, tótó os meus meninos já são muito grandes, eles já não iam gostar disso. - Não faz mal, metes eles bébés só por esse bocadinho. - Ai é?? E então como é que eu faço isso? - Sei lá eu, tu é que és a professora... Encolheu os ombros e saiu.
É por estas e por outras, que eu acho sinceramente que as crianças são do melhor que há :)
Ando a esticar demais as minhas emoções. E eu não sei. Mas, é que não sei mesmo! […e reparem no ponto de exclamação] O que fazer com isso. Tenho medo de não ter dúvidas. E esticar-me ao comprido nas certezas. Dos pedaços, que ficam por dizer.
É um olhar diferente. Não sei muito bem o que é. Ás vezes, parece triste. De uma tristeza profunda. Como que um Universo Sozinho. Isolado. Afastado. Remoto. Às vezes… parece ‘colo’. Como que um pedir de Seio. Um ‘eu estou aqui, chora.’. É uma retina divergente. Dilatada. Afastada do usual. Não é maré vazia. Nem é, maré cheia. Não é pólo Norte. Nem Sul. Não se pode fazer uma Tese. De ciências. Equações. Diagramas, tais. Tem uma consistência tal, que por mais que eu tente, não há palavras que descreva. Nem sei se é Desassossego. É mais uma aflição. Um gritar mudo. E os gestos assim. Meio que desalinhados. Mas, completamente enlaçados. Naquilo que é. Que foi. Que tende a ser, o que deseja. O que refila. O que quer gritar. Gemer. Deplorar. Arrulhar. Se um dia aqueles olhos falassem. Se uma noite aquela retina tivesse ânimo suficiente. Ai se um dia ela tomasse forma. De uma feição tal que até as pestanas saltavam. Não sobraria nada. Nem sequer uma bochecha para corar. Eu importo-me com o que procuras. Seja lá o que isso for. Encontras?
Não sei muito bem. Escrever. Não sei muito bem contar. Não sei muito bem. Pintar. Não sei muito bem. Cantar. Não sei muito bem. A cor da Selva. O sabor do Mar. De como se faz manteiga. De onde vem a chuva. E o medo. Não sei muito bem. Dançar. Respirar. Falar. É. Não sei mesmo nada bem falar. Transmitir. As ideias. De andar. Por ruas. Alcatroadas. Calcetadas. Emparelhadas. Não sei muito bem. As certezas. Dos toques. Dos ouvidos. Dos sussurros. Qualitativos e quantitativos. Discretos e contínuos. Daquela substância incontrolada do olhar. Não sei muito bem abdicar. Da assistência. Do bater. Do não saber. Nada bem. De coisa nenhuma. De alguma coisa. Ainda por não saber. Resumindo. E a modos que baralhando. Sou meia, a puxar para o inteiro, de algo analfabeta, disto a que chamam de Dias.
Porque não parou. Porque não se moveu. A vida dá muitas voltas. Dizem alguns. Se dá voltas. Fica no mesmo sítio. Dizem outros. Círculos. Andamos todos em círculos. Com diâmetros, raios, vizinhanças. Topologias. De retinas. Olhares. Presos. Hoje houve um que teve esse dom. Quer dizer. Não sei se foi dom. Mas, que foi qualquer coisa. Lá isso foi. Não medi o diâmetro e muito menos o raio da retina. Durou cerca de um luz fusco. Cinco, sete minutos. Sem arredondamentos. Nem por excesso, e muito menos por defeito. Foram cerca de cinco sete minutos. Minto. Foram cinco e sete. Mas, foram segundos. Vocês sabem aqueles olhares que nos despem por inteiro?
De esquelete. Espírito. Inteiro.
Alma, silhueta, contorno, perfil, ombros, sombra, fio. Ficamos assim naqueles cinco sete minutos sem eira nem beira. Pêlo. Fica só e apenas o pêlo. Com toda aquela epiderme arrepiada. Endrominada. Pela razão. Sei lá o que aquilo foi. Não sei. E é esse não saber que me fascinou. É. Foi isso. E foi bom.
Olha lá. Psst psst Da próxima vez atreve-te a tocar!
quarta-feira, abril 15, 2009
Estou em coma. Tenho os sentidos trasladados. E o pensamento amputado.
Falemos de amor. Falemos daquilo que nos faz realmente mover. Não falo daquela paixão do momento. Daquela tesão movida por uma qualquer lua cheia. Falemos de amor. Que não é, senão um fabuloso guisado de tudo isto. Paixão. Movimento. Tesão. Sabor. Condimento. Hoje falemos de amor. Com tudo a que tem direito. Falemos do amor vinte e um. Século XXI. O chamado amor movido pela Web. Escrevo de um café. Centro da vila. Vinte para as dez da noite. Moscatel na mesa. Ventil na cadeira. No balcão várias pessoas. O tema: O amor. Conversas paralelas. Algo em comum. Ambas conheceram a chamada cara-metade pela chamada auto-estrada do novo milénio: A Web. Uma percorreu cerca de 300 quilómetros. Outra atravessou o Oceano. Arriscaram tudo por uma pessoa que não conheciam. Que nunca tinham visto. Cheirado. Penetrado. Arriscaram. Viram. Penetraram. Em cada entranha. Retina. Célula. Suor. Existe quem viva uma vida inteira e nunca conheça o seu parceiro. Que nunca tenham partilhado uma palavra. Uma frase. Uma linha. Uma entrelinha. Um bocejo que seja por algo que mesmo que não seja comum, é partilhado. Falemos de amor. Falemos de estranhas. De caminhos. De ruelas. De orifícios. Falemos daquilo que nos faz saborear cada átomo como se fosse aquele. Aquele único, que transporta uma qualquer página em livro. Falemos de tesão. Daquele orgasmo que não tem limites. Com cheiros. Sabores. Tropicais. Rurais. Urbanos. Que importa que seja pela Web. Pelo café. Pelo bar. Pelo local de trabalho. Pelo telefone. Pela paragem de autocarro. Importa sim, que não hajam stops. Nem intermitentes. Preto no branco. Sem cinzentos. Chega para lá, e vem cá. Falemos de vida. Mas, falemos disso amanhã. Hoje prefiro mesmo, é saborear esta lua cheia. No centro da vila. Com uma leve brisa rural com cheiro a marfim. Daquele que é esculpido a paixão. É uma espécie de palma da mão. As linhas estão lá. Cabe a nós as percorrer da melhor maneira possível. E que essa maneira, seja aquilo que nós quisermos.
18 horas. Sexta. 20 de Março de 2009. Prova de avaliação escrita - Problemas de contexto real, envolvendo a função cúbica e a função quadrática. Uma gaivota paira. Os primeiros carros começam a preencher a marginal. Está abafado. Um calor esquisito para a época. Hoje começou a Primavera. O Mar começa aqui mesmo. Ou será que é o Tejo? Gosto de pensar que é aqui que o Mar começa. Ali mesmo onde é o Farol do Bugio - Parece um umbigo. Tal cordão umbilical com cheiro de nascimento. Silêncio. Não se ouve chorar. Mas escutasse as lágrimas. Sentidas. Endurecidas. Pelo Tempo. No tempo. Cheira a Oceano. Comedido. Indirecto. Movimentos re[c]tilineos. Pensados. Falta o feitiço daquilo que não é pensado. Daquelas ondas com fundos de verdade. Com aquele cheiro a paixões cruas. Descobertas por um simples 'agora'. Tocou. E eles sairam.
Se numa noite de inverno um viajante, é o título de um belíssimo livro de Italo Calvino. O autor descreve de uma forma sublime o prazer que há na leitura «o protagonista é o leitor, que dez vezes começa a ler um livro que, dez vezes começa a ler um livro que, devido a vicissitudes estranhas à sua vontade, não consegue acabar.» - conferência proferida por Calcino em Buenos Aires (1984). Se numa vida inteira uma estranha pessoa esta, é o titulo de um estado de espírito, cujo autor desgasta todas as suas emoções em torno de uma vontade insana de continuar assim mesmo - insana. De uma insanidade estonteante. E invalida. De uma invalidez sem produção. Com semânticas. Assobios. Iras. Precocidades. Nortadas de estupidez. Podia ter sido. Mas, não foi. Fiquemos assim. Então. Até logo.
Deixamo-nos liquidar pelo conteúdo. E esquecemo-nos que fomos nós a construir esse mesmo conteúdo. Que fomos nós e edificar cada tábua, cada prego, cada ruga.
Ferro. Arma. Suor. Sangue. Range.
Tábua.
Baú. Por vezes é preciso distanciarmo-nos, para percebermos realmente o que Queremos. O que Somos. O que Merecemos. E tu, meu querido. Não me mereces. A chave? Dei-a, a um forasteiro. Com o nome de Tempo. Da cor do Vento.
99% dos homens numa ou noutra ocasião já proferiram a seguinte frase: “ Se eu fosse mulher, seria a maior puta de Portugal.” Caros amigos, pois que sejam putas! Mas, que o sejam no sentido amplo da palavra. Que sejam ambição, sofreguidão (mas daquela verdadeiramente orgástica), desejo, paixão. Mas, sejam! A maior parte dos homens que dizem esta frase (e corrigem-me se eu estiver errada) têm um qualquer trauma ‘cultural’. É ridícula a forma como o dizem, e ainda mais ridícula é, a expressão com que o dizem. Deixemo-nos de merdas, no campo dos desejos, somos todos, mas completamente todos, aniquilados. Não há nada mais saboroso na vida, do que o desejo. E não digam que os homens têm mais desejo que as mulheres, pois isso é burlesco. Todos temos desejos. Todos queremos domar, e ser domados. Todos temos vontade de trincar o lábio até à medula. Todos apreciamos o apetitoso dançar dos preliminares. Todos sentimos o denso suco a circular nas veias. Todos sabemos o quão único é, o ínfimo cruzamento do arrepiar com o clímax. E todos, mas todos, quando vemos determinada pessoa sentimos o tal desejo avassalador de ‘lhe saltar para cima’, seja onde for, e em que circunstância for. Existem é certas pessoas que têm pudor de assumir que tal como todas as outras, sentem desejo. E depois também existem outras tantas pessoas, que só sabem aquilo que lhes foi ensinado, ou seja, só sabem o que lhes dizem, e não sentem que o que fica por dizer, pode ser sentido das mais variadas maneias, entre elas, pela sedução. Sobra o altruísmo, e frases como: “ Se eu fosse mulher, seria a maior puta de Portugal.” E dizem que as mulheres são complicadas, cheias de metáforas, e retóricas enfadonhas. E caem no erro, de confundir determinação com falta de respeito pelo próprio corpo. Barrelas. Caros amigos, nós mulheres não somos complicadas, somos sim determinadas. Nós mulheres não somos metáforas, o nosso sangue também é vermelho e salta a cada encaixe. Nós mulheres não somos retóricas enfadonhas, vocês é que são parvos o suficiente, para confundirem a determinação do desejo, como desrespeito por nós mesmas. É que se nós quisermos, por uma noite, saltar-vos para cima, somos putas. E vocês, se nos quiserem, por uma noite, saltar para cima, já são uns grandes garanhões. Ganhem juízo. E estabeleçam prioridades. È que aqui só para nós, vocês homens, falam muito, ouvem pouco e agem ainda menos. Façam um favor a vós mesmos, e façam como Adão. Saboreiem cada maça como sendo a única, é que ás vezes é no caroço, que está o mais saboroso. Chupem a fruta até ao fim, e sintam que mesmo assim, ali ainda não é bem o fim. … Há sempre vida para lá do caroço ;)
Ás vezes falta-me as palavras. Outras o silêncio. Aquele absoluto silêncio em que ouvimos tudo. As batidas do coração, o fungar do nariz, o fio de cabelo no rosto, os glóbulos a perfurarem cada veia do organismo. O ferver da pele. O borbulhar da seiva. Não é solidão, mas também não é acompanhamento. É um qualquer cinzento ali no meio. Como que um silêncio acompanhado. Ou por outra, um acompanhamento silencioso. É como o vento. Não se vê, precisa do bater dos ramos, dos pingos na janela, do ranger da terra. Não é uma coisa morna. É fria e quente. Sem progressões. Tudo ao mesmo tempo. Como um corpo nu em dia de tempestade. Em que sentimos a terra molhada por entre os dedos. Fechamos os olhos, e absorvemos cada pingo de chuva na face. Parecem lâminas nas bochechas. E as palmas das mãos viradas para o céu. Ombros descontraídos. Abrimos os olhos, e toda aquela chuva concentra-se no peito. E as batidas que eram alvoroçadas, tomam agora outro condimento. Serenidade. Aquela que procuramos quando viramos as tais palmas da mão para o céu. E os pés cheio de terra. E os cabelos molhados pela vida. Pela tempestade. Por todo aquele ‘frio-quente’ verdadeiramente saboroso. E não há mais nada. Só nós. A terra e o céu. Sem artificialismos. Sem exageros. Nem especulações. Não falo de procuras. Falo antes, de encontros. Daqueles em que ouvimos as batidas do coração, o fungar do nariz, o fio de cabelo no rosto. E os glóbulos a perfurarem cada veia do nosso organismo. …. E a Terra continua molhada. Húmida. Ensopada. Ouviram? Foi o sangue a ranger. É silêncio.
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Linha, entrelinhas, sensações dedicadas a um grande Ser Humano... Ti Besberto.
Tarteletes. Tarteletes são umas bolachas de manteiga cobertas com um suave doce de morango. É marca branca. Do Continente. Gosto de marcas brancas, mas só nas bolachas. Nas conversas, nos diálogos, nos afectos, dispenso. Seja branca, seja outra marca qualquer. Prefiro aquele doce sabor do…. Genuíno. Em que podemos dar mil e uma trincadelas, mas sabe sempre a qualquer coisa de novo. De particular. Um ‘quê’ qualquer sem características previamente concebidas. O pensar, assim como o sentir, não são de marca branca. O sentir verdadeiramente não é indelicadeza. Não é indelicadeza falar de nós próprios, expor o que sentimentos, o que pensamentos, o que tacteamos, o que cheiramos. Indelicadeza sim, é falar negativamente, do que os outros pensam, sentem e fazem. Contemporaneamente é difícil encontrar algum ‘espécie humano’ que saiba falar de si próprio, sem medos. Sem complexos, sem reticências, sem emaranhados fúteis e completamente ‘desconexados’. As pessoas encontram-se, falam-se… mas, pouco ou nada se exprimem. São horas e horas de diálogos que pouco ou nada alimentam a nossa alma, o nosso coração. É difícil conversar do íntimo, das tentações, das vontades, dos possíveis, dos impossíveis… Falasse muito, mas dialoga-se muito pouco. À medida que o tempo passa, o nosso corpo e cérebro, desenvolvem capacidades únicas de absorver o que realmente importa, e de reciclar o que faz mal, o que incomoda, o que fatiga o miocárdio. Ás vezes vem aquela sensação de cansaço, de fatiga, e também de vazio. Mas, outras tantas vem a sensação de paixão, de fogo, de agarrar o que nos faz sentir verdadeiramente bem. Não é indelicadeza este tipo de reciclagem, indelicadeza é, não ter o conhecimento de nós mesmos para sequer saber, que existe este tipo de reciclagem. Tarteletes são umas bolachas de manteiga cobertas com um suave doce de morango. É marca branca. Do Continente. Pessoas são seres humanos cobertos de pele com um suave doce de vontades. É marca genuína. Da paixão. Porque todos somos feitos de paixões. Com um suave doce de desejos.
Já passaram várias pessoas pela minha vida. Pessoas magras, gordas, cegas, carecas, com tiques, sem tiques, analfabetas, doutoradas, ricas, pobres, mendigas, com tecto, sem tecto. Pessoas que sabem ouvir, outras que sabem falar. Pessoas que sabem estar, outras que nunca estavam. Pessoas simpáticas, quentes, frias, ásperas. Pessoas que deixaram marcas, e outras que ficaram por deixar. Pessoas com olhar castanho, azul, negro, forte, fraco, intenso. Pessoas com andar cabisbaixo, decisivo, categórico. Pessoas tímidas, introvertidas, concentradas, exuberantes. Pessoas. Simplesmente, pessoas. Não me interessa o pai, a mãe, a irmã, o tio, o primo. São pessoas. Não me interessa durante quanto tempo privaram comigo, se foi muito, se foi pouco. Interessa-me sim, que foi o tempo suficiente para ficar um bocadinho delas dentro de mim. Porque nós somos isso mesmo. O que vivemos, aprendemos, sentimos, pensamos, cheiramos, vemos, andamos. E fazemos tudo isso com partilhas. Com pessoas. Mas, pessoas Pessoas. Pessoas com letra grande. Pessoas que sabem que o corpo é uma mera carcaça, pessoas que sabem o quão é importante o invisível. Pessoas que sentem, que ninguém escolhe esta ou a outra família, este ou o outro esqueleto, pessoas que definem em si a prioridade da amizade, da veracidade. Pessoas que olham directamente nos olhos, que não estão para ironias, expectativas, hipocrisias. Pessoas. Ás vezes coabitamos com determinadas pessoas, que nunca chegamos verdadeiramente a conhecer. E nós, que também somos a modos que totós, também nunca nos damos muito a conhecer. Eu tenho para mim que existem por aí pessoas verdadeiramente fascinantes, capazes de ferver em nós o que de melhor temos. Capazes de renascer em nós, …os nossos melhores talentos. Pessoas artistas, portanto! Já passaram várias pessoas pela minha vida. Muitas, até. E guardo saudades de cada uma delas, com um enorme sorriso.
Um destes dia, tocaram-me nas costas e perguntaram: - Quando é que sabemos que gostamos de uma pessoa? Ao que eu respondi: - Quando sentimos saudades.
É. Às vezes é bom sentir saudades. Porque é aí, exactamente aí, Que sabemos, quando gostamos realmente de certas pessoas. Mas, pessoas Pessoas. Daquelas verdadeiramente… Artistas! Capazes de renascer em nós, …os nossos melhores talentos.
Não cos[tumo] pensar a longo prazo. Sabem aquelas conversas de adolescentes, quando diziam umas ás outras, o meu vestido de noite vai ser de tal cor, eu quero ser médica, ter três filhos, o do meio vai chamar-se Felizberto. Mas, já nessa altura não era hábito pensar a longo prazo. Não sei, os planos sempre me fizeram confusão. Não por serem planos, mas antes por serem plural. Não que o singular seja melhor. Não, não é nada disso. A questão é que sempre achei que não ia chegar a determinada idade. Aquela idade em que basicamente os planos começam a ter uma qualquer materialização. Hoje quando olho para esses tempos. E para os planos que nunca cheguei a linear. Penso um sentir estranho. Aquele sentir de quando percorremos uma estrada sem mapas. GPS’s. Sinais. Quando pegamos no carro sem destino. Quando telefonamos para alguém, e vai parar à caixa de voice mail. É um sentir esquisito. De emissor sem receptor. Hoje quando penso nesse sentir. Pego naquele cordel que um dia fiz no recreio da terceira classe. Em que atei numa ponta da guita, um iogurte. E a outra ponta ficou por atar. É. Não costumo pensar a longo prazo. Mas, hoje quando me sinto longe de mim. Penso em certos nós que ficaram por atar, por ter medo de pensar, não a longo prazo. Mas, por contextualizar uma verdade. Que afinal, era só minha.
É. Há sentires lixados. Isto para não dizer, fodidos!
Imaginem o seguinte cenário. Mas, imaginem com força, com convicção. Não fiquem presos ás minhas palavras. Pois, são apenas isso. Palavras. …. Imaginem com voz. Mas, sem som. Ou então, não! Esperem. E S P E R E M.
[Detesto este tom]
…. Sim. È isso. Imaginem ao contrário. Em vez de uma voz, sem som. Imaginem antes, um som, mas sem voz. … Ainda não conseguiram? Ok. Eu espero. .. Sim. Isso. Isso mesmo. Aí. Entre o Am e o Fm. Não mexam mais. Ok. Agora, que têm esse som, sem voz. Imaginem o ruído. Esperem. Não é esse! Engendrem uma maneira qualquer mas, imaginem o ruído que vos faz sorrir. … Já está? Agora imaginem, o outro. O que voz faz chorar. .. E isso tudo com som. Muito som. Mas, não se esqueçam: sem voz. Não imita nenhuma voz. Nenhum sopro. Suspiro. Gemido. Nada. Como aqueles sonhos em que a almofada anda ás voltas. De um lado para o outro, e ouve-se o nosso corpo a remoer entre o cá o lá. E o som que faz sorrir, já nos fez chorar. E o chorar, rir. E toma forma. Feição. Leve feitio. E tudo sem voz. Alguém um dia bateu à porta. E o som era tanto, que não tínhamos voz para responder. E o toque foi abrandando. Fugindo. Ausentando-se. Xiu. .. E calaram-se. .. …
Cala. Cala-te. Não repitas inatamente o que não queres. Não digas.
Não bocejes.
Nem te atrevas sequer a suspirar. Cala. Cala-te de uma vez. Cala essas raízes que insistes em regar. Em escravizar a uma terra, que não é a tua. A minha. A nossa. Cala-te. Mas, cala-te bem. Não te cales só por calar. Só porque digo. Só porque exijo. Impuseste leis, decretos leis, legislações, obrigações tais. Cala-te. Adormeceste o que demais teu tinhas, o teu sorriso, a tua vida, o teu brilho. Cala-te e não me imponhas, coisas, gestos, endrominarias que nem tu mesmo sentes. Cala-te. Mas, cala-te de uma vez. Que sejas noite, dia, madrugada. Que sejas nada nesse tudo que agora construíste. Mas, cala-te. É que os meus ouvidos já não reconhecem a tua voz. E os meus sentidos não se regem por aparências. Cala-te.
Pessoas. As pessoas são formidáveis. E são-o tanto para o bem, como para o mal. Já são poucas as pessoas que conseguem viver de acordo com a sua consciência. E não falo daquela consciência simbólica. Falo mesmo de percepção intuitiva. Do agir com desprendimento total, sem aquele sentimento do parecer mal. Aparências. No fundo tudo se resume a isso. Ás aparências. Não sentem determinada afecção, porque parece mal. Não pensam determinado assunto, porque parece mal. Não são directas com determinada pessoa, porque parece mal. Não olham para determinada retina, porque parece mal. Tudo parece mal. Mas, afinal de contas parece mal o quê? A quem?
Parece mal uma pessoa ter ideias próprias?
Ahh pois parece, mas cheira-me que parece apenas, aquelas pessoas que não têm ideias. Parece mal uma pessoa falar sobre sentimentos?
Ahh pois parece, mas cheira-me que parece apenas, aquelas pessoas que não sabem dizer para si mesmo o que sentem, o que querem, o que desejam. Parece mal uma pessoa seguir pela nacional, quanto podia ir pela auto-estrada?
Ahhh pois parece, mas cheira-me que parece apenas, aquelas pessoas que nunca sentiram o verdadeiro sabor dos chamados caminhos de cabras. Parece mal uma pessoa ser fiel ao que acredita enquanto ser humano que é?
Ahhh pois parece, mas cheira-me que parece apenas, aquelas pessoas que só se sentem enquanto corpo. Parece mal uma pessoa ser pessoa? Ahhh pois parece, mas cheira-me que parece apenas, aquelas pessoas que apenas se limitam a ser gente. Parece mal eu escrever sobre certos e determinados assuntos no De pernas para o AR? Ahhh pois parece, mas cheira-me que parece apenas, aquelas pessoas simplesmente tótós, que não sabem distinguir a estranha pessoa esta apenas, estranha pessoa esta, da estranha pessoa esta ´stora. Para o grupo de pessoas que encheu a minha caixa de e-mail com mensagem do arco da velha sobre o quanto é prejudicial para a minha pessoa escrever sobre certos e determinados assuntos, para essas pessoas, só tenho uma coisa a dizer: Ide para a puta que vos pariu. Quero que esse parecer mal se foda.
A mim o que me parece realmente mal, é que com menos de 1% do capital que os Estados Unidos e Europa disponibilizaram para salvar a crise financeira mundial, chegasse para acabar com a fome em Àfrica. A mim o que me parece realmente mal, é existirem pessoas licenciadas que nunca leram um livro na puta da vida, e depois exigem que as tratemos por senhores doutores. A mim o que me parece realmente mal, é Portugal ter dinheiro para não sei quantos estádios de futebol, mas para hospitais, escolas, lares… ‘tá quieto. A mim o que me parece realmente mal, é o meu Concelho ter uma biblioteca que custou não sei quantos milhares de euros, e agora não ter dinheiro para 'a abrir'. A mim não me parece nada mal as pessoas viverem na hipocrisia uma vida inteira. Quero lá saber disso, a vida é delas. Agora não me impinjam é a hipocrisia delas na minha vida. Não é por nada, mas é que não tenho, nem idade, nem paciência, nem temperamento para aturar certas merdas.
P.S.: A revolução de 1974 teve alguns objectivos, um deles, esse mesmo: a liberdade de expressão.
P.S.2: O De pernas para o AR, não é um blog pedagógico e muito menos matemático. O De pernas para o AR, é simplesmente a estranha pessoa esta, nua e crua, sem qualquer tipo de preconceitos… E sobre este assunto, é o que eu tenho a dizer. Obrigado. Voltem sempre. E tragam um sorriso.
Hoje em dia, é mais comum acabar uma relação, do que começar uma.
Atenda-se que falo de relações com cabeça, tronco e membros (e não necessariamente por esta ordem).
As pessoas cansam-se.
E cansam-se com força.
Dos gestos, das palavras… até se cansam dos orgasmos.
É mais usual um amigo nosso chegar junto de nós e dizer: “Acabei uma relação de há 5 anos” do que dizer: “Comecei uma relação com a qual me sinto bem”.
E pergunto eu, porque raio as pessoas quantificam as relações?
Porque raio ninguém diz “Mantinha uma relação com uma pessoa que me fez sentir verdadeiramente bem, e hoje acabou.” ?
A relação até pode só ter durado meia dúzia de meses. E depois?
É menos relação do que uma que durou 5 anos?
Definitivamente, não me parece.
Espremendo certas relações, o sumo que sai, é incolor.
As pessoas não estão para se chatear.
Hoje em dia querem namorar para manter relações sexuais com uma certa regularidade.
E nisto, vem a história de há pouco, preferem a quantidade à qualidade.
E mesmo essas ditas relações sexuais com uma certa regularidade, são efémeras, é como se costuma dizer: toma lá que cá vai disto, encosta para o lado e ressona.
E depois queixam-se com um ah e tal tantos anos e agora?
Inovação. Mudança. Metamorfose.
Esquecem a borboleta, e só pensam na lagarta.
É como ir a um arranha-céus.
O elevador nunca vai até ao último andar, é sempre preciso subir uns quantos degraus para atingir o auge, o pico, a altura máxima.
Hoje em dia as pessoas não estão, é para isso…. Para subir certos degraus.
E ficam-se pelo elevador.
Ficam-se pelo quase orgasmo.
Como se isso bastasse.
Como fosse preciso relações de uma década.
Como se um orgasmo não durasse um simples tic tac.
Como se um tocar de pele no minuto certo não fosse o necessário.
E ás vezes nem é preciso ser no sítio certo, porque o simples tocar, já é certo.
Como se um enlaçar de dedos não arrepiasse.
Cumplicidade de um silêncio invernoso.
Ventania de olhares.
É.
Hoje em dia as pessoas não estão para se chatear.
Preferem um toma lá que cá vai disto, encosta para o lado e ressona, a um… arreliar de entranhas.
Nervos.
Eu cá gosto é de nervos.
Daqueles que latejam.
Toma lá que cá vai disto, encosta para o lado e ressona?