sexta-feira, setembro 14, 2012

Yasmim



E levemente… sem que ninguém desse por isso… Yasmim tirou o lenço para a minha câmara.

Yasmim, tinha um lenço na cabeça, vestido até ao chão. Estava sentado sob um tear, de seda.
A Yasmim é nova, muito nova. Mas já com um filho e marido. O pai e o marido o deixaram-na estudar, trabalha naquela fábrica de tapetes há tempo suficiente para se ter esquecido de como era a sua vida, antes disso
 

Na Turquia, como em quase todos os povos muçulmanos, as mulheres são vistas assim. Como tapetes. Servem para tudo, mas essencialmente servem para limpar os pés dos seus maridos, dos seus irmãos, dos seus pais. A Yasmim tinha um olhar doce, resignado pelo seu destino. Disse-me para me sentar ali com ela, e enquanto ela fazia o tapete e falava sobre tudo o que nunca poderia ter, eu pensava de como nós somos tão egoístas. Tão egoístas ao ponto de nos lastimarmo-nos com tretas. A Yasmim não sabe por exemplo o que é isto que eu estou a fazer, sentada nesta esplanada à beira do mar, em pleno Setembro sem ninguém, só com um gin tónico, uma câmara fotográfica e este bloco de notas. A Yasmim não sabe, porque lá na aldeia do interior da Turquia não se vê o mar, as mulheres não podem beber e nem sequer entrar num café. Porque na porta alguém escreveu em papel pardo “Proibida a entrada a mulheres.” E o café tem janelas grandes, e são eles lá dentro a beber, a fumar e as mulheres em casa a servirem de tapetes.

 A Yasmim aprendeu às escondidas do marido e do irmão, a falar Inglês. E quando eu lhe conto ‘coisas’ do mundo ocidental , a Yasmim dá uma gargalhada.
Foi numa dessas gargalhadas que a nossa conversa teve que acabar, a Yasmim riu tão alto que veio a sua cunhada, ralhou-me por lhe estar a contar coisas do Ocidente. E para não arranjar problemas à Yiasmim tive que abandonar o tear de seda.

 Permitem-me que lhes conte uma dessas gargalhadas. Yasmim perguntou-me a idade, os seus olhos fizeram um olhar de espanto, perguntou-me como é que o meu marido e filhos me deixavam andar num país estrangeiro sozinha. Expliquei-lhe que não tinha marido nem filhos. Deixou o tear, pousou a sua mão no meu ombro, e disse-me ‘Olha Estranha, é muito triste eu dizer-te isto, mas tu aqui na Turquia nunca vais arranjar marido.’ Ao que lhe respondi, ‘Deixa lá Yiasmim, não é só na Turquia, em Portugal também não arranjo, já estou habituada.’
Gargalhamos as duas. Foi das melhores gargalhadas além fronteiras que eu partilhei. E foi tão bonita e genuína que ainda hoje a recordo com um sorriso.

Lembro-me muitas vezes da Yasmim, um dia gostava de recebe-la aqui no Ocidente, com a mesma alegria que fui recebida lá no Oriente. De partilhar este oceano e esta esplanada. Eu sei que a Yasmim tem liberdade interior. Mas também sei que chora todos os dias… é que os tapetes da yasmim cheiram a sal. E ela nunca viu o mar.




quarta-feira, maio 16, 2012

Sacrifícios. O caralho.

Sejamos concretos e concisos. Sem lamúrias de vãos de escadas, que farta dessa m*rda toda ando eu. E tu. E nós. E o resto da malta que ainda tem a p*rra de amor próprio, e inteligência suficiente para, mais que dizer, afirmar que... não quer, que não gosta, que rejeita qualquer tipo de inveracidade.
 A sociedade anda atolada dela. Da doutora inveracidade. Ela é no estado. Ela é nas famílias. Ela é na identidade empregadora. Ela é nas relações. Em cada esquina que viras. Tau. F*deu-se. Ela está lá, a olhar para ti... prontinha a consumir-te mesmo ali. Contra a parede. E nem sequer tens tempo para tirar as cuecas.
Porque a senhora dona sociedade em que vivemos nem nos dá segundos para isso.
E não venham com ilusãozinhas da treta. Que ah e tal pardais ao ninho, temos que ir de acordo com as ideias da manada, senão somos rejeitados.
Cornos mansos. É o que eu chamo a isso. Uma cambada de cornos mansos. Que são encornados, sabem que são encornados e ainda por cima dão palmadinhas nas costas do que encornou.
 Meus amigos, não lamento. Pois tal como eu disse inicialmente, não me venham com lamúrias.
Não me venham com medo da individualidade, da verdade, da personalidade.
Não me venham com medo do que é belo, do que é bom, do que faz bem. E o que faz bem, é viver. E viver implica respirar sem manadas, sem hipocrisia, sem 'pareceres bem'... eu quero que o 'parecer bem' se f*da.
Quero que as gentes das gravatas se enforquem no seu próprio nó. Mas longe de mim. Que não tenho tempo, nem pachorra para nós.
Que queiram viver em manada. Por mim tudo bem. Tudo óptimo. Tudo cinco estrelas.
Mas. Eu. Tenho a opção de dizer não quero, não gosto, e rejeito qualquer tipo de inveracidade.
Uma pessoa faz sacrifícios no que toca a muita coisa.
 Mas sacrifícios da treta... Só porque sim, porque a manada exige, porque parece bem, e porque é mais fácil.
Não, muito obrigada.
Como diz um amigo meu, o que importa é desnatar, tirar a nata, deixá-la de lado, porque engolir certas merdas dá dores intestinais. Daquelas que sentimos a goela lixada durante horas.
E decididamente, ter a goela lixada durante horas... não dá mesmo com nada. Estiveram focados? Ora, ainda bem. Obrigadinha.

segunda-feira, maio 07, 2012

Turistas

Há quem seja viajante. E há quem seja turista. Um viajante vive. Um turista existe. A vida é o presente. O agora. Um turista passa pela vida como quem passa por hotéis de cinco estrelas. Um viajante quer a vida descalça. Sentir a terra molhada. Os cheiros. O carisma de um céu estrelado. Há quem seja viajante. E há quem seja turista. Um viajante usa os dois pulmões. O turista deixa-os em casa, com ...medo da constipação. A vida quer-se constipada, a fungar do nariz. É sinal de atrevimento.

De risco. De noites ao relento. Num qualquer banco de jardim desse mundo fora. Há quem seja viajante. Há quem seja turista. Há quem não viva com medo de sentir. E há quem sinta tudo. Tem noção do medo. E mesmo assim continua a sentir. Arreganhados. Até ao tutano. É. Quero que os turistas da vida se f*dam.

domingo, abril 29, 2012

Na vida é imperativo duas coisas, ser e estar. E que estas sejam perpendiculares quando tem que ser. E paralelas quando a realidade assim o exige. Depois disso todos os dias são pulmões. Porque conseguimos estar. E mais que isso. Ser.

segunda-feira, abril 16, 2012

Manel

Hoje. Na Rua da Alfândega. Ali para os lados de Alfama. O Manel. Chamemos-lhe assim. Transportava uma mala com rosas. Ofereceu-me uma rosa.
Não aceitei, porque eram de plástico. E eu ainda não morri.
Aceitei antes o sorriso. Sentou-se ao meu lado no banco de jardim.
O Manel é sem abrigo.
Daqueles com uma longa barba, com as mãos sujas de sangue. E o casaco até ao chão.

Hoje na capital estava sol. Daquele sol meio tímido mas que vai até à epiderme.
Aquela funda. Porque a vida quer-se assim.
Funda. Nua. E. Crua.
O Manel tem uns sessenta e qualquer coisa anos.

Falava com precisão, utilizava um vocabulário cirúrgico.
Esteve a trabalhar na Alemanha. A filha que é engenheira usou todos os seus euros em obras mal resolvidas. E o Manel que trabalha com o coração, ficou com o miocárdio em ruínas.
A meio do diálogo, colocou a mão no peito e disse...


"Sabes Filipa, o problema de Portugal é a ausência de diálogo. Isto que estamos aqui a fazer, eu raramento o posso fazer. As pessoas já não conversam. E não é porque sou sem abrigo. Simplesmente as pessoas já não conversam. Andam de um lado para o outro, encontram centenas de pessoas no seu caminho... e não param para converar.
As pessoas são mal amadas. Não é a crise que afecta este Portugal. É o amor.
EU estou na rua. Todos os dias. Todas as noites. E observo. Estes casais de agora. já não passeiam. Já não riem juntos. Nem dançam. Nem cantam. Nem partilham a refeição. Nem jogam às cartas. O amor da minha vida morreu aos 44 anos. De cancro no útero. Desde aí perdi o rumo, porque perdi o amor.
E agora quando vejo estes casais, penso que perdi tudo muito cedo, mas arrisquei. Agora já ninguém arrisca. Porque arriscar o coração não é para todos."


... Levantou-se. Sacudiu o casaco. Deixou o saco com as rosas. Talvez como urna, para aqueles tais casais que já não arriscam. Nem dançam. Nem jogam às cartas.

Obrigada Manel. Foi uma agradável conversa. Daquelas que ficam.

terça-feira, março 13, 2012

Tomates

O que faz falta ao ser humano é.... expressar-se.
Gritar. Barafustar. Bater com o punho na mesa.
Sem medos. Opressões.
Ainda existe quem confunda. Carácter... com falta dele.
Há quem tenha o punho. E há quem tenha a mesa.
E depois existem [perdoem-me a expressão, ou então não perdoem, quero lá saber] aquelas pessoas com tomates.
De convicções. De batidas secas. Até rachar a mesa. Até partir o punho.
De mortos-vivos nunca se fez história.

sexta-feira, novembro 18, 2011

i|marginal

Quando uma estrada vai pela pelo mar adentro. Dizem que é marginal.
É paralela. Como o coração e a razão.
Não se tocam. Dizem eles.
Erram. Digo eu.
Um organismo é um organismo.
Pele. Franja. Braço. Dedo. Mão.
Joelho. E é às vezes no joelho, que o coração toma a razão.
Toma atenção.
Do tremer.
Ou de tremer. Como preferirem.
Às vezes o ser humano não tem a sapiência de saber que as articulações do joelho titubeiam no cruzamento.
Naquele. Naquele mesmo cruzamento onde a marginal cruza o mar.
Onde o alcatrão toma cada grão de areia como dele.
Ou o contrário, também é válido.
O que não é saudável, para a alma, quem a tenha. É o recíproco.
A areia tomar o alcatrão. Aí, não é o joelho que treme.
É o calcanhar. O queixo. O lábio inferior.
Porque o superior é mais rijo.
Como o cérebro que se diz adulto.
Que de tão adulto que parece, treme.
Como uma criança. Nervosa. Nos primeiros dias de escola.
Á chuva. Aquele tilintar no trigo à beira. Do nada.
Naquela recta, de luar à orla mar.
Naquela delinquente alma que toca o pavimento.
Porque os dias não podem ser iguais.
Porque as noites engolem toda e qualquer saliva.
Daquela que vai pelo queixo abaixo. Rugosa. Impetuosa.
Até o alcatrão dar cabo daquilo tudo. Do princípio ao fim.
Mas ao contrário é que tem mesmo graça.
Do fim até ao princípio. Aquele princípio tão nosso.
Tão nu. Tão íntimo. Que faz chorar.
Aquele choro, grosso. Salgado. Que ao passar deixa crateras.
Fundas. Ao erijo epiderme.
Com cada membro.
Membrana, se quiserem. Mas se não quiserem, não faz mal.
Que me importa a mim.
Nada.
Que a pele é minha. A marginal é esta.
É paralela se eu quiser. E eu não quero.
A perpendicularidade tem muito mais charme.
Treme? Ainda bem.
É sinal que vivem. Que sabem distinguir coisa nenhuma.
Quem é que disse?
Eu não fui.
Que passei no código sem saber as regras de trânsito.
Prefiro o roçar da areia, a mazelas ‘alcatronais’.
Deixem-me. E agarrem-me.
Por mim. Nunca para mim.
Que de ‘cirenaísmos’ nunca se fizeram erotismos.
Evaporem-se, como cargas de pilhas. Húmidas do inverno.
Está rigoroso.
Mantas de retalhos. Laranjas. Da cor do mato.
Não chove. Não dorme. Não troveja.
Morreu.
Sorrio. Porque há óbitos assim.
Bons. Mesmo bons. Que de tão libertadores, ganem.
Até partir. Maldito caixão.
Foi na procissão, de barco.
É época de regozijo. Na ‘i|marginal’. Os semáforos abertos.
As linhas descontínuas.
O porta-bagagem vazio. De passados.
É presente.
O mau que se foda.
Sim que se foda.
Podia dizer que se lixe. Mas não me apetece.
É mesmo que se foda.
Fode-te e morre.
Porque é ao renascer que se chora. Que se gane.
Que tudo o que é lúcido toma aquela leve nitidez do que é anormal.
E o que é anormal é tão bom. Quase orgástico.
Já venho.








domingo, outubro 23, 2011

Metro Photo Challenge

Maltinha aqui a estranha gostava mesmo muito de ver um dos seus clicares na página do Jornal Metro. Oh faxavor cliquem no link e votem :) Muito obrigada. Abraço de carpediem


http://metrophotochallenge.com/pt2011/galleries/user/137255

quarta-feira, setembro 28, 2011

Paralelismos

Às vezes parece uma República.
Outras a Monarquia.
E outras tantas a 'Alegoria da caverna'.
Locomoções da alma, sem urnas.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Eslavos

Afinar o miocárdio.
Ladeiras. Daquelas que tanto dá subir, como descer. A embalagem por ali acima, por ali a baixo é a mesma. São ladeiras. Como lareiras. Quentes. De ramos secos. E às vezes verdes, demora mais. A queima, o estalar. O ruído. Daquele... afinamento da alma.
Às vezes apetece-me pegar numa corda e afogar a alma. Sim, porra. Afogar a alma numa corda. E enforcar a aorta no oceano. Porque uma coisa é uma coisa quando de dia, e outra coisa é bem diferente quando de madrugada.
As mãos. As mãos ditam tudo. Como chaves na ranhura que se diz fechadura. São assim, as mãos. Linhas, palmas, pele... tau. O encaixe. São afogamentos e enforcamentos pelas veias acima do pescoço.
Começa naqueles ossos 'semi-agudos' dos ombros. Aqueles de vincos decisivos. Veementemente corruídos pelos 'restos'. Como se fossem restos de nada, que de ter tudo... pega na gargante e vomita.
Sabem O Irene? É parecido. Mas ao contrário.
Se eu soubesse ao certo a idade da minha loucura. Ou os metros quadrados da minha insanidade. Mas não tenho a alma compacta. Inutilizada pelas horas. Minutos de trazer por casa.
Porque casa nunca tive. E é na rua que respiro.
Enlouqueci... não me lembro muito bem onde. Mas.. Enlouqueci.
Alerta. Alerta que ela é doida. De nortadas intensas. De semanas graves. Luas cheias, que de tão novas se fazem velhas.
Rápido. Que de nervos se fazem destinos, e o destino é de regime. Esquerda. Direita. Pouco me importa. Sou terrorista de mim mesma. Ligo e desligo a máquina, tic tac tic e a aorta em coma. Na cama esticada. Esperneia à vontade, alma vil.
Livro-me. Porque às vezes sou judia. Dos outros. Passos hebraicos.
E muçulmana de mim mesma.
Entretanto agarrei o cascalho. Ficou breve o concerto, tilintar dos tais ossos do pescoço.
As retinas não são poses.
Não são, não senhora. São mestrinas daquilo que não é confuso.
Xiu. Calem-se. Porra.
Quero silêncio.

segunda-feira, junho 27, 2011

Há velas que não passam de meros co[u]tos.

E quando o morto está vivo.
E o vivo está morto.
O funeral foi assim. O vivo estava morto.
E ninguém chorou. E veio a banda filarmónica.
E a terra. E o pico. E há quem chame de bico.
Ah a vela. A vela.
Foram sustenidos e bemóis. E o mestre de batuta.
E aquela pedra, do quarto poste a contar da esquerda.
Debaixo da pedra.
Que cá coisas de direita sempre dentro mau resultado.
A escrita sai muito perfeita, e coisas perfeitas parem coisas tortas.
E de tortas já temos os nós.
Que se fazem nos pulsos. Em formas de pulseiras.
Disse ele que era o botão das calças. Verde da cor do mato.
Serrano, trigo, vento, amarelo… de tão seco.
Que pariu ventos do sul. Mente.
Mente sua besta. Mente.
Há-de alguém ouvir as tuas lamúrias. Os teus excrementos.
E as penhas que não choram, gritam, refugiam-se.
Da bandeira de cor de sangue. Coloca gelo e pudor.
Sempre foste bom nisso. Lembraste? No pudor?
Já eu. Gosto das salinas, a escorrerem sal por todos os lados. Cantos.
Tectos. Chão. E naqueles filamentos que ninguém nota.
Estou eu lá, a gritar de prazer.
Ah milho. São como pipocas a saltitar.
Sabes lá tu o que isso é. Que de coisas cruas nunca quiseste saber.
E de nuas nem vê-las.
Miopias da tua pele.
Não sou oftalmologista. E o único Tenente que conheço é o meu, este meu.
Meu miocárdio de terra batida sem asfalto.
Que de alcatrão está a assembleia feita, e eu não funciono de votos.
E aquelas reuniões tardias. De mães loiras, de netos desvanecidos.
Ah funeral de trinta e quantos graus.
Prazer orgástico, obrigada. Pele minha.
E tu, lá em cima na bandeira que, não é tua.
No canto que nunca foi teu.
Com uma barba muçulmana. Calça-te.
Que o meu chão. Nunca foram os teus passos.
Adeus.

Gostaste do teu funeral?
Foi bom. Não foi? Não, que não foi!

quinta-feira, junho 23, 2011

Há pessoas parvas. E depois há o meu senhorio.

As escadas eram de madeira, cheiravam a mofo e a vizinha de baixo era prostituta. Nada de anormal, não fosse a jovem do quarto ao lado do meu ser viciada naquelas batatas fritas, cujo nome não me recordo. Aqueles de pacote cilíndrico. E guardava todos os pacotes em cima do guarda fato, e o guarda fato tinha as mais recentes criações da Fátima Lopes. Nada de anormal, não fosse a sua preferência para vestir bem, do que para comer bem, que isto dos euros não chega para tudo, não senhora.

Numa outra casa, também no bairro da Ajuda, o anterior inquilino e dono da casa, tinha ganho o Euromilhões. Fez uma casa na quinta da Marinha e alugou aquele apartamento à frente do Pingo Doce só porque precisava de pagar o motorista. Muito bem, dantes nem carro tinha, agora o senhor precisa de motorista. São os euros meus amigos, são os euros.
Nessa casa, no quarto em frente ao meu, dormia uma moça que não sabia cozinhar, mas coincidência das coincidências também era viciada em batatas fritas, mas mesmo batatas. E a moça quando lá se lembrava do vício, tal era o maneio da coisa que toda a cozinha ficava suada de óleo, em todos os cantos, no tecto, nas paredes era óleo que dava para encher o depósito da limusina do nosso senhorio.

Houve outra vez, numa outra casa que era um sótão dividido em dois, a senhora do sótão ao lado coleccionava bonecos de porcelana. Tinha uma figura parecida com aquela bruxa da branca de neve, sinceramente a mulher fazia-me confusão. O tal sótão já era pequeno, mas dividido em dois era mais que pequeno, era minúsculo. Quando ia lá alguém jantar, era em pé. Era mais chique. Buffet, portanto. Tudo normal, não fosse um dia a tal senhora ter enchido por completo a parte dela com bonecos, e um belo dia chego ao meu estamine e tenho a cozinha cheia daquelas miniaturas de porcelana. Era dentro das panelas, em cima da frigideira, até dentro do aquário. O xico, o peixe mais velho, bateu com os cornos num dos bonecos e andava a boiar no grande oceano.

Também em Lisboa, ali para os lados do palácio do Senhor Presidente, a casa era fantástica, um último andar com vista para a Igreja da Memória, tinha casa de banho privativa, quando chovia muito a malta tinha que mudar o rumo da cama, para não gramar com um chuveiro matinal antes do previsto.

Ou na ilha, em que o senhorio pensava que a juventude de trinta anos não precisa de um duche quentinho no Inverno húmido Açoreano. Esquentadores para quê? Os euros são caros, e a malta pode muito bem pegar em panelas e aquecer as suas doses de duche diário.

Tudo normal. Tudo muito normal. No outro dia contei oito, mas depois lembrei-me de mais duas. São ao todo dez. Dez casas por onde já passei. E outros tantos senhorios.

Contemporaneamente a grande moda de sacar uns dinheiros à geração dita à rasca é o aluguer de quartos. E não falo de aluguer de quartos de estudantes. Falo da maltinha de trinta, ou como eu gosto de chamar - Da maltinha verde. Verde de recibos, portanto. A modos que os senhorios viram em nós, malta que tem trinta anos, sem família, e com trabalhos de curta duração um bom negócio de chulice.
Não passam recibos, são bestas quadradas, e falam para nós por cima dos óculos. Naqueles preparos de ‘vê lá se amochas que aqui a precária és tu’.

Em frente aos meus aposentos dorme um Espanhol, e no outro quarto uma moça que só ouvi falar uma vez. Adiante.
O Espanhol vende tectos falsos. Numa destas madrugadas era um ver que te avias de barulho, pensava eu que o bacano estava a experimentar os ditos tectos falsos na sala. Sim, eu sei que é uma coisa parva de se pensar, mas foi o que eu pensei. O gajo tem a mania das dietas, e com a falta de açúcar, o cérebro podia ter-lhe dado para aí.

De manhã não havia sala. Haver até havia. Mas ao contrário. O senhorio que é uma pessoa tão simpática e bem formada, achou que a sala era demasiadamente grande para nós os três. Vai daí entrou à ‘má fila’ em casa e… dividiu a sala em dois. Sendo que numa das partes, não cabe mais que uma cama. E não é que a cama também já lá estava? Porreiro pah, uma pessoa acorda de manhã e tem mais um quarto em casa. Divido da sala com um armário. E isto tudo numa madrugada.

E ainda dizem que neste país tudo funciona a reboque. ‘tá bem tá.

Há pessoas parvas. E depois… bem depois… existem os senhorios.

P.S.: Maltinha dos trinta barra verde se me estão a ler, fé na vida companheiros.


segunda-feira, maio 23, 2011

In|rituais

Se uma convulsão durasse três segundos.
Qualquer uma que seja.
Espasmo. Êxtase. Arroubo.
Haveria uma qualquer função. Talvez quadrática.
Que expresse tal distância.
E aí faríamos uma subtracção, seguindo de uma divisão.
E ficaria o encantamento convertido a um qualquer metro por segundo.
Mas não dura.
Dura mais. E mais. E mais.
Parece que todos os ossos do esqueleto perfuram a pele. Salta as unhas.
Unhas, não! Casco. Sim, casco. Porque os ‘pseudo-sentimentos’ são tantos, que são cascos.
Agarrados ao chão. À terra. À areia. Solo.
Apetece partir tudo. Estorvos afligidos. Engelhados.
Sem tempo para papéis de parede.
É um absurdo. Um total absurdo esta raiva que sinto bem aqui. Na ponta da Alma.
Como se a Alma tivesse ponta. A minha tem. E é dessa ponta que falo.
Às vezes o que me apetece mesmo é arrancar essa ponta à dentada.

Com os dentes lá detrás.
E roer. Roer. ROER. Até à exaustão.
E ficar com a Alma escancarada, sentada. A rir. Da ponta mordida.
Agressiva esta minha vontade. Como rochas estancadas do Espichel.
Querem-me omissa. Respondo à dentada.
Querem-me calma. Não posso. E não lamento. Tenho ganas a subir por mim acima.
Querem-me alheia. Observo.
Querem-me de ríspidas normas dietistas. Como. Devoro. Arroto. Se for preciso.
À escala de Sol. Gramam com a Clave de Fá.
Dói-me tudo. Sem nunca ter querido nada.
Calem-se. Mas calem-se agora. É que de bestas quadradas, já me basta esta.
Esta ponta aqui bem no fundo da Alma.
Arroto.
E não. Não ando doida. Mas lúcida.
E é isso que me lixa.
Isso. E os rituais.

domingo, abril 24, 2011




Hoje saí de casa e perguntei por ti a toda a gente.


Mas ninguém sabe de ti.




Morreste?

sexta-feira, março 04, 2011

Vai para a puta que te pariu


Tenho o coração a dilacerar.
Não. A dilacerar, não!
A Sangrar. A pungir.
Tanto.
Que dava para alimentar o hospital de uma qualquer metrópole mundial.
Mas eu?
EU.
Quero mais.
Muito mais.
No passado? Ahhh no passado foram infâncias de hipatites.
Estou portanto, proibida. De dar este sangue.
Assim. De mão beijada.
Gosto de colunas direitas. Sem carregar a mochila dos outros.
É que para ‘passados’. Basta o meu.
E esse… bem, esse faz por estes dias um ano que o deitei ao Mar.
Não sou médica, nem enfermeira e muito menos psicóloga.
Desses quero distância.
Tenho uma patologia. A diferença. O desassossego.
O amar livremente o que eu quero.
E amar bem. E por inteiro.
Porque quando se sangra. Sangra-se assim.
De gotas inteiras. E sei lá eu se é O+ ou O-.
Sei que é vermelho. Lato. Espesso. Puro. Duro.
Dói, não dói?
Carrega tu agora a corcunda.
Que está na minha hora de voar.
Descalçar-me. Parir-me. [Des]nudar-me.


P.S.: E já agora, e aproveitando o embalamento da coisa… Vai para a puta que te pariu.

terça-feira, fevereiro 22, 2011


Andam a preparar o meu funeral.
E eu que sou de má raça,
não lhes vou dar o prazer de velarem nem o meu corpo,
quanto mais a minha alma.
Que gastem dinheiro em flores e choros insípidos
.
Porque eu não vou aparecer.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Estranha Pessoa Esta quer ir beijar um Esquimó.

Existe uma coisa que se chama Quark Contest. O conceito é ir para o Pólo Norte e durante 15 dias, escrever e fotografar e divulgar em tempo real para todo o Mundo o que se observa, vê e sente. MARAVILHA. Três amores juntos - ‘viagem’, ‘clicar’ e ‘escrever’. Mas a coisa complica quando é um concurso Mundial, e complica ainda mais quando os outros concorrentes já estão a votos há mais de dois meses, e complica ainda mais e mais quando tenho até ao dia 15 deste mês para ficar entre os 5 finalistas. Preciso de pelo menos 1000 votos em poucos dias. É pedir muito? Pois é. Mas pedir não custa, e a ousadia até me tem levado a bons sorrisos. O conceito é escrever um texto sobre a fotografia que está a concurso. Quem ficar entre os 5 finalistas, irá ao grande júri e sairá vencedor.
O texto está feito. A fotografia clicada. A ardósia dentro da mochila desejosa de ir até lá acima. Oh fáxavor de ir aqui e votar em mim -->
http://www.blogyourwaytothenorthpole.com/entries/284

E aqui podem ver quantos votos é que já tem a maltinha que está entre os 5 primeiros --> http://www.blogyourwaytothenorthpole.com/entries?search[meta_sort]=votes_count.desc

Vá lá minha gente... não custa nada e são apenas 5 segundos :) Obrigada daqui bem daqui de mim

sábado, janeiro 29, 2011

terça-feira, janeiro 25, 2011

Vadia


Alma. Não se vende.
Alma. Não se compra.
Espuma. Trocas. Uivos. Impulsos.
Orgias d’Alma.
Tenho o espírito eriçado.
As vontades alienadas.
Fome de mudança.
Fome de Mim.
Ando vadia. Levianamente vadia.
Se é demência. Que seja. E eu ralada. Dêem lá o nome que quiserem.
Mas a mim, quem me dá o nome sou eu.
E é meu. Tal como os dentes.
Só mordem os sonhos que querem.
E rasgam de todas as maneiras e feitios a humanidade.
Não sou obtusa. Nem recta.
Sou vadia. Vagabunda. Boémia.
Completamente boémia. Entorna sangue pelo chão. O copo dos impulsos está cheio.
Agarro-me a isto que digo verdade. A. Minha.
Despejadamente. Incontornavelmente. Inevitavelmente.
Ando concreta. Abstractamente deliciosa com os meus sonhos.
Não é virtude. É demência. Diferença.
Pobre mulher que vive sozinha. Rica mulher, digo eu.
Que nestes momentos orgânicos.
Entalo por completo o prazer de viver com o esforço de atravessar.
Falei alto demais. Falei baixo demais. Falei.
Que me interessa quem ouviu. Se ouviu. Falei.
Escrevi com erros. Sem erros. Escrevi.
Que me interessa se apenas leram linhas. Escrevi.
Sou. Estou. Sinto. Ago.
E quando quiserem fazer a porra da minha lápide.
Não escrevam nada. Façam-me esse favor.
Porque uma demente como eu.
Nunca irá ter uma lápide. Mas o cemitério inteiro.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Decisões


O que é que vem a propósito?
A vida.
Sem capital.
Porque num céu que se quer livre.
Existem duas coisas.
As asas. E. As. Vontades.
Entre elas. Nenhuma brecha.
Nos pulmões? O Alívio.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Rasga|TE

Não se finge o sangue.
Sangue. Sangue.
Não se finge a Alma. Que se olha.
Que persegue. Inala.
Não se vende nada disto.
Energias. São energias.
Oh Deuses.
Rasga. Mas rasga tudo.
Que não fique nada. Nenhuma gota.
Ping ping ping
Rouba-me o Tempo.
Como aquelas árvores sem toques.
Rasgai o chão.
Arrasta-me pelos cabelos canadas abaixo.
Voz. Fala da Voz.
Rouca. Rude. Tesa. Pura. Dura.
Inala-te. Me.
Queima. Me. Te.

Morre. Vá.
Morre brujeço.
Quero ter o prazer de ressuscitar-te.
Sangue. Sangue. Sangue.
Passei-te a ferro. Lava-te.
É tempo de morreres.

terça-feira, outubro 26, 2010

[Este]ndal

Quando existe o medo.
Aquele medo que dói.
Quando existe a dor.
Aquela dor que entranha.
Quando existe o ar.
Aquele ar que queima.
Quando existe tudo isto.
E mesmo assim morre-se.
E vive-se.
Tudo. Ao mesmo tempo. No mesmo segundo.
Quando a maré é cheia.
Mais cheia porque está Luar.
E vazia.
Mais vazia porque está suão.
E os poros dilatados.
Quando o cérebro parece mais que um.
E a Alma grita. Por corações de veias.
Quando acontece tudo isto.
Nos chamam de loucos.
Incongruentes. Tresloucados.
Insanamente lúcidos.
É humidade. Ilhéus estes que se instalam.
E movem cada passo.
Cada sentimento. Pensamento.
Acção.
E parece que não estamos adequados a séculos.
A casas. A ruas. A camas.
Transversais da vida.
E que vida esta que nos imana.
Assim.
Parece cachaça.
Cheias de limas a boiarem pela traqueia acima. Abaixo.
Nos lados.
Como limos. Algas. De Oceanos revoltados.
Cheios. De Sal.
E é Sal grosso.
A escorrer pelo cabelo abaixo.
Chega a estremecer a sobrancelha.
As pestanas ganham vida.
Sem contraponto.
Guião. Palavras previamente ensaiadas.
Isso. Isso era dantes.
Antes das caravelas. E do Afonso. E do Gama.
Antes dos patrimónios que se diziam nossos.
Agora? Agora é isto.
Isto que se diz meu. Que é meu.
Que é todo meu. Que sem ter nada hoje.
Esquece o ontem. Sem ter medo de amanhã.
Porque as bússolas são assim.
Como o sangue.
A escorrer pela calçada abaixo.
Forte. Grosso. Incrivelmente louco.
Este meu sangue.
Porque é meu. Porque não tenho mais nada.
Porque sente tudo. Sem ponteiros.
Preconceitos. Moradas certas.
Correios fartos.
Sem nortes. Sul. Oeste. Ahhh o Oeste.
Bate o este. Bate bate coração bate.
Como a música do Paião.
Criança.
Sangue de criança.
Olho. Observo. Mudo.
Mudo. Mudo. Mudo.
Anéis que estavam no dedo.
Passaram para a garganta.
Fios de prata. Junto ao pescoço.
Agora? Agora são as paredes vazias.
Sem fotografias.
Naprons. Xailes. Mantas.
É tudo a nu.
De pelos eriçados.
Parece que a Alma ganha forma.
E os pulmões violetas.
De ombros descobertos.
Peito em forma de renda.
Quando se sente tudo isto.
Descalça-te.
Porque vives.
Insanamente. Tresloucadamente.
Respiras.
Um dia saí de casa.
Fazia-me chorar a penha do meio dia.
E o Pico da Vela.
E o sino. Ohhh o sino da igreja.
Aquele ting ting tong a soar pelo coração acima.
Ás vezes.
Ás vezes é assim. O amor.
Como a missa. Cheio de homilias.
Hóstias mal cozidas.
Ás vezes é assim. A vida.
De corridas. De fugidas.
Porque tantas vezes é assim.
Sozinhos. Que nos amamos.
Que temos tempo.
Para nos acendermos.
E fumarmo-nos até à beata.
Como vulcões.
E os peitos em forma de renda. Ganham picos.
E as unhas dantes roídas. Ganham força.
E rasgam. Rasgam. Rasgam pele acima.
Até chegar não sei onde.
Ting ting ting.
Tong.
TONG.
Quando existe o medo.
Aquele medo que dói.
Quando existe a dor.
Aquela dor que entranha.
Quando existe o ar.
Aquele ar que queima.
Quando existe tudo existe.
E mesmo assim morre-se.
E vive-se.
Tudo. Ao mesmo tempo. No mesmo segundo.
É porque o padre está no altar.
Toca o sino toca.
E a senhora na varanda.
E tu a olhar as estrelas.
E eu aqui. Só aqui.
Insanamente aqui.
Onde o mar acaba. E a lua nasce.
Lavei a roupa.
E os lençóis dançam no estendal.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Homens sem tomates


Às vezes existem viúvas-alegres, desmazeladas de ancas caídas e sobrolhos insípidos.
Às vezes há casais enfadonhos, risos contidos de mãos soltas.
Às vezes de pijamas caídos, mamilos esquecidos.
Destinos escolhidos.
Pior ainda. Do medo de estarem sozinhos.
Às vezes.
Tantas vezes é assim.
Fazem-se funerais sem corpos. Buracos sem terra. Jazigos sem portas.
E ainda o padre está no baptizado, e já se ouvem choros de velórios.
Vão-se embora com medo das lágrimas, dos soluços, do risco da retina.
Vão-se embora ainda com borbulhas por nascer. Barba por crescer. Patilhas por cortar.
Existem homens assim.
Que nascem do ventre da mãe, e que nunca chegam a ganhar os tomates do pai.
Às vezes existem mulheres católicas. Que se ajoelham por gente. Que nunca chegam a seres humanos.
Um dia destes vim de um funeral assim.
De um falso artesão da vida.
A cadeira era dura. O banco de madeira. E o meu desassossego de vento.
Fechei a porta da igreja. Correntes de ar da vida.
Porque de mortes fundamentalistas está a Barca de Gil Vicente cheia.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Purgas


Quero que se fodam os apeadeiros.
E as demais consequências industriais.
Quero que se fodam as estações.
E tudo o que vier de bilhete na mão.
Quero que se foda o paralelo.
E o perpendicular.
E o amarelo e o vermelho.
Quero que se fodam muito bem fodidas as ripas de Pitágoras.
E os teoremas de Fermat.
Quero que se fodam os limites, as metas, os provérbios
e as delongas provincianas.
E as mágoas essas que ficam no fundo dos tachos
e ainda os fornos estão a quente.
Quero que se foda as circunstâncias do passado
e os afazeres do futuro.
E aquela gente normal, de risos normais, de vestimentas normais,
de pingas normais, de passos inacabados, de lágrimas doces.
Quero que se foda o doce.
Nunca vi prazer nenhum ser doce, porra!
A vida é salgada. É pimenta. É alecrim, rosmaninho piripiri.
Que se foda os supostos. Os iguais. As demandas.
Que se foda o tudo no nada.
Porque eu cá quero é o nado no tudo.
Foda-se!
Arre para a conservação do outro,
e da outra e do vizinho que não veio jantar.
Prezados seres estes que mandam foder o normal.
É mar. É oceano.
Atlântico. Índico.
Que se foda o Pacífico.
As Américas e as Europas paranormais.
Que se foda os saltos altos. O asfalto. Os andares de rés do chão.
Ah que merda esta que está no meu quintal.
Que se foda a poda que não foi feita.
A erva que cresceu. A terra que não se amanhou.
Acendo-me.
Sou ridícula.
Que se foda se me fodo.
Ao menos… fodi-me.
Porra.
Que se foda!
Foda-se.

terça-feira, agosto 03, 2010

oh homem...


As sensações que dizeis que não tomam a sério,
São aquelas que de mais sérias nós temos.
De silêncios entre vídeos de salivas não tragadas.
Andas a boiar. Andas.
Colocaste o passado do teu lado esquerdo
Assiduamente dizes bom dia.
Convence-te que são de boas noites que todos queremos
Às vezes o coração entra em decadência moral
De juízos de valores estandardizados
As sensações não se regem de faces pálidas
De peixes amórficos. De garrafas entulhadas numa qualquer varanda.
Os sentimentos, esses são como os gargalos.
De beiços em bico. Sedentos. De gargantas.
Chamas-me vadia. Não me importo.
Porque se vadia é engolir tudo até ao fim, e lamber os lábios até ao puro filamento.

Então sim, sou vadia.
O meu copo está pousado na janela. Não pedi gelo.
Traz o lume. Ou se preferires, a ponta do cigarro.

quinta-feira, julho 29, 2010

xiuuuu



Não fosse a interrogação abraçar a exclamação,
e viria o pronome pessoal beijar
o que se diz verbo no presente no indicativo.
Pretéritos perfeitos, não existem.
E os imperfeitos ficam em bicos de pés... sentimentos.
Dizem-se. Assim. Calados.

terça-feira, julho 27, 2010

Primeiro Volume


Antigamente não se ouvia tanto, talvez seja uma maldade dos tempos modernos.
Esta parva mania da razão sussurrar ao coração um… “Já soube…”
É que se fosse ao contrário, se de repente o emissor fosse o receptor,

talvez não houvesse esta néscia e quixotesca teima de ouvirmos um…
Eu avisei-te…”
[…]
Há realmente muita merda que me irrita nestes tempos modernos,

mas o topo da pirâmide é sem dúvida isto de catalogarem as coisas do coração com últimos volumes, logo atrás da enciclopédia do raciocínio.
Fosse assim, não teria havido a caverna. E Platão não teria sombras.
As realidades não são horizontais. Nem verticais.

As verdades são o que são.
E valem por si só.
O que entendo eu disto? Nada.
Por isso é que não tenho enciclopédias.

domingo, julho 25, 2010

Fundi|do


Se o meu cérebro ficasse vazio por um segundo.
Oh que segundo esse que me falta.
Abusava deste desejo. Violentava-o contra uma parede.
Até ao último gemido.
Uma vez. E duas. E três. E seis e nove. E, as vezes que fossem necessárias.
Para me espreguiçar ao comprido sobre a satisfação. É prazer.
Sobre os desejos sei duas coisas.
Ou comem-se ou deixam-se arrefecer.
Prefiro a primeira.
É que sopa fria não é a mais apetecida.
Então se for de caldo verde.
É esgotar até ao fim.
Até rapar o prato. E fazer aquele rrr rrr rrr com a colher.
E no fim, aquele recostar de cadeira.
Confiança. Presença. Partilha.
Arde.
Arde a deambulação. Passeio sem calçada.
Chão sem soalho.
Arde. Arde. Arde.
Arre.
Que arde.
Porra. E a colher a rapar até ao fim.
E rapa. Rapa. Rapa.
E esta Lua que sabe bem.
Na pele. Como unhas a cravar aqui.
A espinha toda.
Do princípio ao fim.
A colher vai cega. Por aquele prato adentro.
Eu e a noite.
Desgraça. Que desgraça esta que me esmaga.
E me acende.
Nada. A colher vai cega.
Lá vai o desejo por ali acima como quem esgrima os sentidos.
Rapa o tacho, malandro. Rapa.
Estúpidos os sentidos.
Parvas as razões.
E se a imoralidade não morasse aqui.
Eu dizia-te o que era um caldo verde.
Arre.
Que arde.
Não sou postiça.
- O desejo! O desejo! O desejo!
Fundi-te.

quarta-feira, julho 21, 2010

Matança.



Dormi com ele.
Acordei comigo.
Fui carne, alma, veias.
Dei-lhe o meu sustento.
[Des]Oxigénio.
Dou-me a mim.
Agora. Sem medos.
Dormi com ele.
Acordei comigo.
Depois de uma grande foda.
Um cigarro.
Depois de uma grande matança.
Um cálice de vinho.
Depois disso. A cinza. O restolho.
A ceifa de restos.
Desconformes.
Mais um bafo.
Cavou. Escavou. Colheu.
Dormi contigo.
Acordei comigo.
Debruço-me nesta linguística.
Às vezes é um tal de reumatismo na Alma.
Outras filosofias de estrada.
Camas sem lençóis.
Corpos doces, quando se querem salgados.
Revoltos. De punhos. Dá-lhe.
Dá-lhe. Dá-lhe em cima da mesa. Porra.
Espasmos que nunca duram o suficiente.
Retina amachucada.
Lixo.
Desagregamentos. Lá onde os bichos se proíbem.
Dorme contigo.
Dorme contigo.
Que hoje acordei a enforcar-te.

sábado, julho 17, 2010

quarta-feira, julho 14, 2010

O Amor é importante, porra!

As gentes acordam.
Pensam que não vão morrer nunca.
E nem a dormir, sonham.
As pessoas acordam.
Limpam as ramelas.
Sentem que muito provavelmente vão morrer.
E quando estão distraídos, sonham.
Os seres humanos acordam.
Espreguiçam-se até estalar os ossos.
Sabem que se calhar até é hoje que morrem.
Esboçam um sorriso.
E amam.

terça-feira, julho 13, 2010

TPC

Às vezes esqueço-me que as pessoas lêem este estamine, e ainda bem que assim o é.
E às vezes esqueço-me que a maltinha é a modos que pudica, e que leva a mal certas coisas que por aqui se escreve.
Ora estava eu no outro dia a estacionar o belo do automóvel, senão quando uma senhora que eu não faço a puta de ideia quem seja, bate no vidro do referido veículo e diz: “Devias ter vergonha a escrever sobre aquilo que as mulheres fazem no privado num lugar que toda a gente lê.”
E eu feita ursa, com cara de labrega, sem entender um c…. da conversa, balbuciei um boa tarde.. então como vai a família.
E a senhora para ali a ralhar, e no meio de tanto ralhanço catecista, lá entendi que falava do texto ‘Mestria’. Que é como quem diz, da masturbação.
E isto foi no parque de estacionamento.
Também já aconteceu na fila do supermercado.
Mas, adiante.
Passado uns dias. Fui beber um cafezinho com um amigo (Filó se estás a ler isto, perdoa-lhe que o teu marido não sabe o que diz) e nem ‘boa tarde’, nem ‘como estás’ …
Foi logo isto:



Ao que eu respondi:



O que isto quer dizer?
Ide procurar foda-se.

Dantes na mercearia da esquina fala-se do vestido que a não sei das quantas levava à missa. Da amante do não sei dos quantos. Etc etc e tal.
Agora comenta-se a masturbação da Estranha.
Tá bem. Que seja. E eu ralada. Para as senhoras que não têm mais nada que fazer à puta da vida. Ide comer óstias a ver se eu me ralo.
Obrigado. Voltem sempre. E tragam um orgasmo.
Porra.

T.P.C. - para as codrilheiras da zona oeste:
Conjugar o verbo prazer no presente do indicativo.

segunda-feira, julho 05, 2010

Re: Reversíveis


Inúteis são as saudades. E nunca as faltas.
Inúteis são aquelas brechas de correntes de ar.
E nunca os corpos de puzzles. Asfixiados. Suados.
Como torradas envoltas em manteiga.
Sedentas de fogo. Queimados. Trançados pelo gozo.
Impaciente prazer.
Até à dor. Do nervo. Até ao fundo da dor.
Do vento. Do tempo. Das palavras destroçadas.
Distâncias abastardadas.
Esmoendo todos os tendões, sem precisar de um único toque.
Fluindo por ali acima. Até ao fundo.
Como um vírus que corrupta tudo o que se diz moral.
E eu que gosto tanto do anormal. Do pecado.
Malignidade exaustiva. Dura.
Nua. Completamente Crua.
É Arte contemporânea esta, que te digo. Esta que me sacia.
Que quero o fundo. De toda a dor.
De todo o sal de prazer extasiado pela Alma.
Que às vezes é do tamanho de dois dedos, e outras do tamanho do diâmetro da Terra.
Pulo esta convulsão. São lábios. Também os quero.
Há acasos assim.
Como que vontades. Molhadas.

sexta-feira, julho 02, 2010

Mestr|ia


A subtileza duma sensação é a modos como que uma ontologia.
Cientificamente falando, a subtileza da manipulação do organismo desafia as leis da gravidade da absorção das entranhas mais comedidas.
Falo de masturbação, pois então.
Estimula-se o desejo.
Desafia-se a vontade.
Manda-se o racional ir dar uma grande volta.
E fica ali o galileu a medir o transe do prazer.
A delicadeza dos gestos, do suor. O movimento dos ossos.
Do pescoço aos dedos dos pés.
Há coisas fantásticas. Não há?

quinta-feira, julho 01, 2010

i|limite


Então era assim.
Primeiro pegava em ti e sugava-te todo o sangue.
Depois esticava cada artéria tua até ao ilimite.
E depois. Mas só depois.
Asfixiava-te as membranas.
Como que um lembrete.
De.
Afinamento de peles.
A puxar para a Alma.
E no fim bebia um tinto e fumava um cigarro.
E tu espojado no soalho.
Sem fósforos.

domingo, junho 20, 2010

Fotogramas


De lés a lés aparecem aquelas expressões completamente desfasadas. De tudo.
De tudo o que estamos aclimatados.
Como aquelas tempestades tropicais que aparecem sei lá de onde, e levam tudo à frente. Não são ventos. Porque os ventos sabem bem o que é.
Não é errado. E também não é certo.
E é essa assentada que se diz idiota,
que transforma a linguagem insípida em algo avassalador.
Intimista, como fotogramas de contornos afectuosos.
Contornos. Esses de paragens obrigatórias.
Com todas as estações e apeadeiros a que temos direito.
E ás vezes, e tantas vezes, pararmos a meio da linha e num registo sensual emanciparmos os desejos por todas as linhas que antes paralelas se transformam agora oblíquas.
Orgãos perpendiculares, e o comboio a passar.
Clássica é a linguagem, verdadeira a retina. A minha. A tua. A nossa.
Como matrizes.
E num registo puramente incontornável faz-se a Arte.
A minha. A Tua. A Nossa. De paragens obrigatórias.
Que de tantas concepções psicofísicas tornam vastos os horizontes.
Não somos conhecidos. Nem desconhecidos. Porém… artistas.
Desfasados.
Nós.

quinta-feira, junho 10, 2010

Aguar|dentes



No tempo em que se jogava ao pião e ao ringue não existia defeitos na cocaína.
A heroína tinha a cor das utopias. Suspensas como a fixidez que se sente aquando o vómito do silicone das hesitações.
O quadro na parede tinha uma qualquer estrada, e toda aquela inalação de odores proibidos fazia com que a tela pairasse por entre a pele.
Depois vieram os poetas, e com eles as metáforas típicas de quem alimenta as vontades com lubrificantes iniquamente congelados.
E as aguardentes. Essas malditas tentações que nos abrem a retina até ao ínfimo desejo.
Os dedos tremem. E com eles fica a descoberto negociatas de antes e depois, desmazelamentos de intenções.
Cheira-me a café.
Colocaste o açúcar?

terça-feira, junho 08, 2010

Comé Fodes?


Hoje, não interessa as horas, porque isto foi coisa de minutos.
Alguém virou-se e disse:
Faz amor comigo.
Ao que eu respondi.
A minha geração já não diz isso.
Diz:
Comé fodes?
E eu que estava na digestão.
Não fodi.
..
E antes que eu me vire para o lado, e sinta que me foderam a puta da vidinha
com retóricas em vez de acções, digo-vos:
Fodo sim senhor, antes que a vida me foda a mim.

O pernas para o ar está de volta, com um pino em ângulo recto.
F.O.D.A.-S.E.

quarta-feira, maio 12, 2010

[É nos silêncios que se fazem os gritos] -- [Pequeno intervalo n(d)a ausência]




Pulei do alto de uma Serra, na tentativa de organizar a espinha.
Ficaram-me os ossos.
E este frenesim maldito, desprezado, amaldiçoado de agonias pegadas ao sangue.
Sem âmago. Pari-me.
De pernas abertas. Completamente esparramadas, não houve pudores, vergonhas.
Nem sequer apaguei a luz, ou fechei a porta.
Pari-me logo ali. Onde deu vontade, onde quis, onde me apeteceu.
Foi de real gana. Completamente aberta.
Quando dei por mim já cá estava deste lado. Do impróprio.
A guinchar alma por todo o lado.
As paredes de odores esquisitos. Urbanos. Demasiadamente arquitectónicas. Certinhas.
De bom gosto, dizem muitos. De mau gosto, digo eu. Que o desarrumado da alma é personalidade, já de sentimentos é corrupção.
Aperto o cinto. Dói-me os tornozelos.
Deve ser lama esta circunstância humana.
Este lodo. Escorrego. Maltrato-me.
Afinal nada foi ás claras. E eu que nunca arrumo a alma, esqueci-me de apagar a luz.
De maquilhar os sentimentos. De fechar as pernas.
E de parir-me.
Devia apenas ter-me prostituído.
E aprender contigo. A vender a alma ao Diabo.
Arrumo os ossos.
Esfrego as coxas. Amanho a aorta.
Cruzo as pernas.
E num pouco de argila, alguém escreveu: Puta que te pariu.

domingo, fevereiro 14, 2010

Nu[m]a Rua

Ás vezes mais que necessário, é imperativo mudar de ares.
De palavras. De roupagem.
Estarei por entre ruas e ruelas a fazer dos portugueses
os autores do meu próximo blog.
Amanhã nas bancas [isto se os Portugueses estiverem na Rua]

http://numarua.blogspot.com/

domingo, janeiro 24, 2010

Moribunda


Se eu pudesse um dia chorar todas as mágoas que eu sinto.
E habitar em mim, um qualquer universo ainda por descobrir.
Ai se eu pudesse num dia, mover a madrugada em ternura.
E aí espantar, qualquer vestígio de medos e melancolias.
E escutar baixinho, mas mesmo muito baixinho, o teu ressonar.
E aquele bater de dentes que tu dizes que existe,
entre o dormir e o adormecer.
Destacaria qualquer passo.
Qualquer olhar. Gesto. Semblante. Quadro.
Tela. Pincel. Sensualidade.
E arrancava tudo.
Sem hesitações. Dúvidas.
E o mais agradável de tudo isto.
Era eu sentir-me moribunda.
De mim mesma.
Ao sentir uma qualquer esmola tua.
Como se de um tesouro se tratasse.
Se eu pudesse um dia chorar, todas as indiferenças que sinto.
Criaria o Atlântico.
E detinha todas as palavras do dicionário lusófono, como minhas.
Mas, sou pobre. Inculta. E incapaz de suster em mim.
A ausência do teu espanto.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Agulhas


Um destes dias, quer dizer… para ser sincera … foi hoje.
Eram umas seis e qualquer coisa da tarde.
[Eu sei que as cidadãs envolvidas são leitoras aqui do estamine, caso fiquem ofendidas com tais palavras, só têm dois trabalhos: ficarem ofendidas e deixarem de ficar]… continuando..
Hoje ao entardecer e para desanuviar a porra do trabalho, peguei num colar que estava perdido numa das gavetas da sala de professores, coloquei o dito colar a andei por ali de colar ao peito.
Nada de anormal. Não fosse eu menina que não usa colares, nem saltos de alto e afins.
Claro está, que as minhas ilustres colegas insistem na ideia, que um cérebro de uma mulher está na roupagem, adereços, perfumes e outras coisas tais. Pela sua ordem de ideias, aqui a ‘je’ é uma besta quadrada, com um cérebro de galinha. Pois sapatilhas, calças de ganga, mochilas e cabelo penteado com os dedos, nunca deram cérebro a ninguém.
Ora as ditas senhoras ficaram em êxtase, verem-me ali de colar foi altamente orgástico, finalmente eu era inteligente – usava um adereço dignamente feminino, a porra de um colar. Urra.
Ao fundo da sala ouvia-se: “Estranha pessoa esta, tu chegas lá… amanhã já vens de salto alto, e aí sim!”
Espectacular. Sensacional. Formidável. Estupendo.
Três anos naquela escola, a trabalhar que nem uma mula, e afinal de contas o meu reconhecimento profissional foi vinculado por um colar.
[Agora que me ponho a pensar no colar, é do restaurante chinês que fica do outro lado da rua. Ao almoço, pela altura do Natal, ofereciam um colar. Amarelo, enorme, cheio de brilhantes. Os crepes são bons, o vinho da casa é manhoso, e o empregado de mesa não sabe fazer trocos. Tirando isso, até se passa lá um bom bocado.]
Passado uma meia hora do desfile e orgasmo cerebral em que estava o meu cérebro, resolvi ler em voz alta um poema de um dos alunos (concurso de poemas que está a decorrer )… numa das estrofes lia-se qualquer coisa como: “ E nós embebidos em prazer, pousamos as línguas e bebemos as salivas…”
Do fundo da sala, ouvi: “ai que nojo, prazer… salivas… “.
Espectacular. Muito bom. Soberbo. Uma mulher para ser mulher, tem de usar colares que parecem adereços da árvore de natal, utilizar sapatos de agulha que fodem os pés todos (e ainda por cima tenho uma unha encravada, para ser franca são duas), tomar banho em perfumes mete nojo da loja de conveniência da esquina, estar de meia em meia hora a pentear-se, lambuzar a cara toda com tintas que não lembram nem ao menino Jesus.

MAS, SALIVA? PRAZER? Ahhhhhhh isso não!
Isso lá é coisa de mulheres?
Amanhã tenho que ir ás compras. É que com tanta informação que recebi hoje acerca da minha condição feminina, não vá eu olhar para o espelho e ter alguma dúvida sobre a minha sexualidade.

(Era para acabar este textozinho com um ‘Puta que as pariu’, mas acho melhor não o fazer… pois, não é próprio de uma senhora…)

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Cócegas

Viver todos os dias sem ti fatiga-me.
Mói-me. Enerva-me as entranhas.
Fico com os pulmões a modo que pequeninos.
Custa-me o oxigénio.
E este ar roto em cima dos meus ombros.
Quando passeares por aquelas ruas de gelos perdidos,

de cheiros doces e gestos salgados.
Lembra-te de mim. De cócegas na Alma.
Roubaste-me tudo. As artérias. Os gemidos. Os gestos. Meneios.
Acenos.
Expressões tresloucadas, aquelas que me roubaste.
E depois. Depois vem isto. Este espreguiçar de saudades.
De sufoco. De asfixia.
Proibiste-me.
E eu que não sou de leis.
Perdi-me.
Quando novamente num qualquer entusiasmo deres por mim.
Não digas nada. Prende-me.
Sem épocas. Tempos. Prazos.
Medos. Receios.
Sossega-me.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Mais com Menos

[Partilho convosco um e-mail que enviei ontem.
Caso obtenha alguma resposta, esta será divulgada aqui no Pernas eeheeh]

Exmo. Sr. Director Geral dos Hipermercados Modelo


Poderia iniciar esta carta com um pedido de desculpas em relação à ousadia de lhe escrever sobre o tema abaixo exposto.
É. Realmente poderia começar este meu texto por aí. Mas, sinto que não o deva fazer, porque isso revelaria que estaria a ser cínica e um pouco prepotente.
Passemos então ao que me leva a redigir estas linhas.
Hoje vi e ouvi um anúncio publicitário dos Hipermercados Modelo… entre outras frases, dizia qualquer coisa como (não cito, pois não me recordo exactamente das palavras)
“ Vá ao Modelo… (…) é matemático. Mais com menos dá sempre menos. Ir ao Modelo é matemático”.
E repetia esta frase duas ou três vezes.
Ora eu fiquei a modos que irritada, pois uma das minhas batalhas diárias é exactamente tentar que os meus ‘amores’ (discentes) sintam e percebam que efectivamente essa frase é um erro.
Vejamos, considere os seguintes exemplos: -5+10= 5 (dá mais) , 10-20= -10 (dá menos).
Na adição e subtracção sinais diferentes, diminui-se e dá-se o sinal do maior valor absoluto. Ou seja, tanto pode dar ‘mais’ como pode dar ‘menos’.
Na multiplicação e na divisão… aí sim, mais com menos dá efectivamente menos, mas no contexto do anúncio a aritmética é relacionada com a adição e subtracção, logo o anúncio induz a população a erro.
Eu sei que você tem mais que fazer, e que simplesmente este meu e-mail vai ser alvo da chamada ‘chacota’. Mas, diga lá que por vezes a ousadia não tem uma certa piada?
E tal como dizia um certo filósofo que não me recordo agora o nome… “(…)um pensamento sem crítica, não passa de mera subordinação.” …
E eu cá não gosto nada disso… de subordinações.
Espero que tenha um resto de uma boa semana, e que a crise económica não afecte o seu estabelecimento comercial… pois por vezes, ‘mais’ com ‘menos’ pode ser ‘mais’, e espero que seja esse o caso.

Atenciosamente,
Estranha pessoa esta

sábado, dezembro 19, 2009

Clemência[s]


Doentes.
São [ás vezes] assim os sonhos.
Doentes.
Completamente indispostos de nós mesmos.
Nos sonhos tudo é lícito.
Tolerado.
Consentido.
Nas utopias não, mas nos sonhos sim.
Porque os sonhos são assim.
Inteiramente. Doentes.
Afectados por febres avassaladoras.
Dores. Rígidas. Imponentes da Alma.
Pegam em cada fibra, músculo das entranhas.
Colam-se ás células sem piedade.
O cérebro pede clemência.
O coração antibiótico.
E eles. Os sonhos. Ficam assim.
Colados à Alma. Acorrentados.
De penas perpétuas.
Doente. Ando. Doente.
De tanto sonhar.
[ás vezes]. Cabalmente.
Sem rigores.
Doente.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Agente Funerário lamenta morte de Estranha Pessoa Esta


Um dia destes, li isto:
"A arte de viver consiste em conseguir que até os agentes funerários lamentem a tua morte."
Não lamento informar que é mesmo isso que pretendo fazer.
Para todas as pessoas que pretendem comprar-me flores, eu ainda não morri.
Para todas as pessoas que gastam energias a tentar sufocar-me com tábuas sem pregos, eu ainda não morri.
Para todas as pessoas que afirmam diariamente que é loucura o que faço, eu ainda não morri.
Para todas as pessoas que insistem e insistem em tentar que o meu coração tenha um sentido que não o meu, eu ainda não morri.
Vivam a porra da vossa vida, e deixem-me respirar a minha.
Porque eu ainda não morri.
E para todos os agentes funerários o que tenho a dizer, é simples, quero ser cremada.
Por isso ide-vos meter na puta da vossa vida, e deixem-me ser o xulo da minha.
Obrigado.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Guerra [Ci]vil



Há dias na puta da vida
Em que nós pensamos raios parta ao chulo
E depois há outros dias em que sentimos
Raios parta aos clientes
E ainda outros em que simplesmente emergimos
Um foda-se.
Grunhido.
Como esta desvairada desta lua que teima em estar sobre o meu telhado.
E estas telhas incertas sem nada falarem.
E o bilhete em cima da mesa.
E é redonda.
A mesa.
E.
A Lua cheia.
Foda-se.
Manifestem-se.
Nem que seja à civil.
Há guerra.
Os soldados estão em marcha.
E os decretos prontos a assinarem.
Ó telhas incertas vis que me sustentam o pulmão.
Compreendem que tenho dois.
E a minha mesa é quadrada.
Grunho!
....
Ouviram?

segunda-feira, novembro 30, 2009

Embrião


Quando falamos dos nossos medos.
Entenda-se: A, outras pessoas.
Estas têm a brava, quase, ofensiva mania.
De compararem os nossos medos a memórias fracas.
E um tanto ou quanto, constrangidas.
Quando falamos dos nossos medos.
Entenda-se: A, outras pessoas.
O que nós não queremos ouvir, são cachimónias. Sagacidades.
Penetrações de castelos intelectuais.
É que a bem da verdade. Já nos chegam os nossos.
E se falamos é porque a angustia já é tão grande,
Que se torna asmática. Irracional. Quase. Insensata.
As recordações.
Quando falamos dos nossos medos.
A nossa Alma toda a forma [quase] física de um embrião enrolado no útero.
Em que os joelhos tocam o queixo.
E os pés ficam assim sem meias, frágeis a qualquer vidro no chão.
Quando falamos dos nossos medos.
Entenda-se, a nós mesmos.
O que nós queremos é parir.
Parir-nos a nós mesmos.
Arre.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Pescoço


Era verão. Era noite. E estava frio.
Falava o medo por entre a engrenagem do motor.
Ela estava no banco de trás.
Como o medo.
Ele na frente. Como o silêncio.
Entre o medo e o silêncio. Coabita o atrevimento.
Reflexos de gestos. Palavras. Entrelinhas. Respirares. Agonias.
Entre o receio. E. O Sossego.
Vive o arrojo. Arregaçado. Sem escrúpulos.
De impulsos inconscientes.
Entre o medo. E. O Silêncio.
Vivo eu ás vezes. Esticada. Em protesto. Agoniada.
Dependente de vómitos. Agonizantes do desejo.
Absurdo?
Absurdo é o amor sem loucura. Disse ele.
Enquanto ela esticada. Amedrontada sob a cama.
Sentia aquele gesto de dedos no pescoço.
E num respirar. Fundo. Descaíram os ombros.
E ficaram assim. Sem piedade.
Apressa-te, dizem os dias.
Excomungados pela saudade.
E já é inverno. É madrugada. E está calor.
Inconscientemente. Levo a mão aos lábios.
E atrevo-me. No banco de trás.

domingo, novembro 22, 2009

Clave de Sol


Fosse o bater catastrófico da minha aorta
compassada pela melodia algo semibreve do meu cérebro,
e eu diria que o que eu sinto são rugidos.
Como aqueles, quando os seios ficam arrepiados.
E as veias ritmadas.
És maestro. Diz o miolo ao miocárdio.
Com a nota de afinação em Sol Maior.