terça-feira, fevereiro 22, 2011


Andam a preparar o meu funeral.
E eu que sou de má raça,
não lhes vou dar o prazer de velarem nem o meu corpo,
quanto mais a minha alma.
Que gastem dinheiro em flores e choros insípidos
.
Porque eu não vou aparecer.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Estranha Pessoa Esta quer ir beijar um Esquimó.

Existe uma coisa que se chama Quark Contest. O conceito é ir para o Pólo Norte e durante 15 dias, escrever e fotografar e divulgar em tempo real para todo o Mundo o que se observa, vê e sente. MARAVILHA. Três amores juntos - ‘viagem’, ‘clicar’ e ‘escrever’. Mas a coisa complica quando é um concurso Mundial, e complica ainda mais quando os outros concorrentes já estão a votos há mais de dois meses, e complica ainda mais e mais quando tenho até ao dia 15 deste mês para ficar entre os 5 finalistas. Preciso de pelo menos 1000 votos em poucos dias. É pedir muito? Pois é. Mas pedir não custa, e a ousadia até me tem levado a bons sorrisos. O conceito é escrever um texto sobre a fotografia que está a concurso. Quem ficar entre os 5 finalistas, irá ao grande júri e sairá vencedor.
O texto está feito. A fotografia clicada. A ardósia dentro da mochila desejosa de ir até lá acima. Oh fáxavor de ir aqui e votar em mim -->
http://www.blogyourwaytothenorthpole.com/entries/284

E aqui podem ver quantos votos é que já tem a maltinha que está entre os 5 primeiros --> http://www.blogyourwaytothenorthpole.com/entries?search[meta_sort]=votes_count.desc

Vá lá minha gente... não custa nada e são apenas 5 segundos :) Obrigada daqui bem daqui de mim

sábado, janeiro 29, 2011

terça-feira, janeiro 25, 2011

Vadia


Alma. Não se vende.
Alma. Não se compra.
Espuma. Trocas. Uivos. Impulsos.
Orgias d’Alma.
Tenho o espírito eriçado.
As vontades alienadas.
Fome de mudança.
Fome de Mim.
Ando vadia. Levianamente vadia.
Se é demência. Que seja. E eu ralada. Dêem lá o nome que quiserem.
Mas a mim, quem me dá o nome sou eu.
E é meu. Tal como os dentes.
Só mordem os sonhos que querem.
E rasgam de todas as maneiras e feitios a humanidade.
Não sou obtusa. Nem recta.
Sou vadia. Vagabunda. Boémia.
Completamente boémia. Entorna sangue pelo chão. O copo dos impulsos está cheio.
Agarro-me a isto que digo verdade. A. Minha.
Despejadamente. Incontornavelmente. Inevitavelmente.
Ando concreta. Abstractamente deliciosa com os meus sonhos.
Não é virtude. É demência. Diferença.
Pobre mulher que vive sozinha. Rica mulher, digo eu.
Que nestes momentos orgânicos.
Entalo por completo o prazer de viver com o esforço de atravessar.
Falei alto demais. Falei baixo demais. Falei.
Que me interessa quem ouviu. Se ouviu. Falei.
Escrevi com erros. Sem erros. Escrevi.
Que me interessa se apenas leram linhas. Escrevi.
Sou. Estou. Sinto. Ago.
E quando quiserem fazer a porra da minha lápide.
Não escrevam nada. Façam-me esse favor.
Porque uma demente como eu.
Nunca irá ter uma lápide. Mas o cemitério inteiro.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Decisões


O que é que vem a propósito?
A vida.
Sem capital.
Porque num céu que se quer livre.
Existem duas coisas.
As asas. E. As. Vontades.
Entre elas. Nenhuma brecha.
Nos pulmões? O Alívio.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Rasga|TE

Não se finge o sangue.
Sangue. Sangue.
Não se finge a Alma. Que se olha.
Que persegue. Inala.
Não se vende nada disto.
Energias. São energias.
Oh Deuses.
Rasga. Mas rasga tudo.
Que não fique nada. Nenhuma gota.
Ping ping ping
Rouba-me o Tempo.
Como aquelas árvores sem toques.
Rasgai o chão.
Arrasta-me pelos cabelos canadas abaixo.
Voz. Fala da Voz.
Rouca. Rude. Tesa. Pura. Dura.
Inala-te. Me.
Queima. Me. Te.

Morre. Vá.
Morre brujeço.
Quero ter o prazer de ressuscitar-te.
Sangue. Sangue. Sangue.
Passei-te a ferro. Lava-te.
É tempo de morreres.

terça-feira, outubro 26, 2010

[Este]ndal

Quando existe o medo.
Aquele medo que dói.
Quando existe a dor.
Aquela dor que entranha.
Quando existe o ar.
Aquele ar que queima.
Quando existe tudo isto.
E mesmo assim morre-se.
E vive-se.
Tudo. Ao mesmo tempo. No mesmo segundo.
Quando a maré é cheia.
Mais cheia porque está Luar.
E vazia.
Mais vazia porque está suão.
E os poros dilatados.
Quando o cérebro parece mais que um.
E a Alma grita. Por corações de veias.
Quando acontece tudo isto.
Nos chamam de loucos.
Incongruentes. Tresloucados.
Insanamente lúcidos.
É humidade. Ilhéus estes que se instalam.
E movem cada passo.
Cada sentimento. Pensamento.
Acção.
E parece que não estamos adequados a séculos.
A casas. A ruas. A camas.
Transversais da vida.
E que vida esta que nos imana.
Assim.
Parece cachaça.
Cheias de limas a boiarem pela traqueia acima. Abaixo.
Nos lados.
Como limos. Algas. De Oceanos revoltados.
Cheios. De Sal.
E é Sal grosso.
A escorrer pelo cabelo abaixo.
Chega a estremecer a sobrancelha.
As pestanas ganham vida.
Sem contraponto.
Guião. Palavras previamente ensaiadas.
Isso. Isso era dantes.
Antes das caravelas. E do Afonso. E do Gama.
Antes dos patrimónios que se diziam nossos.
Agora? Agora é isto.
Isto que se diz meu. Que é meu.
Que é todo meu. Que sem ter nada hoje.
Esquece o ontem. Sem ter medo de amanhã.
Porque as bússolas são assim.
Como o sangue.
A escorrer pela calçada abaixo.
Forte. Grosso. Incrivelmente louco.
Este meu sangue.
Porque é meu. Porque não tenho mais nada.
Porque sente tudo. Sem ponteiros.
Preconceitos. Moradas certas.
Correios fartos.
Sem nortes. Sul. Oeste. Ahhh o Oeste.
Bate o este. Bate bate coração bate.
Como a música do Paião.
Criança.
Sangue de criança.
Olho. Observo. Mudo.
Mudo. Mudo. Mudo.
Anéis que estavam no dedo.
Passaram para a garganta.
Fios de prata. Junto ao pescoço.
Agora? Agora são as paredes vazias.
Sem fotografias.
Naprons. Xailes. Mantas.
É tudo a nu.
De pelos eriçados.
Parece que a Alma ganha forma.
E os pulmões violetas.
De ombros descobertos.
Peito em forma de renda.
Quando se sente tudo isto.
Descalça-te.
Porque vives.
Insanamente. Tresloucadamente.
Respiras.
Um dia saí de casa.
Fazia-me chorar a penha do meio dia.
E o Pico da Vela.
E o sino. Ohhh o sino da igreja.
Aquele ting ting tong a soar pelo coração acima.
Ás vezes.
Ás vezes é assim. O amor.
Como a missa. Cheio de homilias.
Hóstias mal cozidas.
Ás vezes é assim. A vida.
De corridas. De fugidas.
Porque tantas vezes é assim.
Sozinhos. Que nos amamos.
Que temos tempo.
Para nos acendermos.
E fumarmo-nos até à beata.
Como vulcões.
E os peitos em forma de renda. Ganham picos.
E as unhas dantes roídas. Ganham força.
E rasgam. Rasgam. Rasgam pele acima.
Até chegar não sei onde.
Ting ting ting.
Tong.
TONG.
Quando existe o medo.
Aquele medo que dói.
Quando existe a dor.
Aquela dor que entranha.
Quando existe o ar.
Aquele ar que queima.
Quando existe tudo existe.
E mesmo assim morre-se.
E vive-se.
Tudo. Ao mesmo tempo. No mesmo segundo.
É porque o padre está no altar.
Toca o sino toca.
E a senhora na varanda.
E tu a olhar as estrelas.
E eu aqui. Só aqui.
Insanamente aqui.
Onde o mar acaba. E a lua nasce.
Lavei a roupa.
E os lençóis dançam no estendal.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Homens sem tomates


Às vezes existem viúvas-alegres, desmazeladas de ancas caídas e sobrolhos insípidos.
Às vezes há casais enfadonhos, risos contidos de mãos soltas.
Às vezes de pijamas caídos, mamilos esquecidos.
Destinos escolhidos.
Pior ainda. Do medo de estarem sozinhos.
Às vezes.
Tantas vezes é assim.
Fazem-se funerais sem corpos. Buracos sem terra. Jazigos sem portas.
E ainda o padre está no baptizado, e já se ouvem choros de velórios.
Vão-se embora com medo das lágrimas, dos soluços, do risco da retina.
Vão-se embora ainda com borbulhas por nascer. Barba por crescer. Patilhas por cortar.
Existem homens assim.
Que nascem do ventre da mãe, e que nunca chegam a ganhar os tomates do pai.
Às vezes existem mulheres católicas. Que se ajoelham por gente. Que nunca chegam a seres humanos.
Um dia destes vim de um funeral assim.
De um falso artesão da vida.
A cadeira era dura. O banco de madeira. E o meu desassossego de vento.
Fechei a porta da igreja. Correntes de ar da vida.
Porque de mortes fundamentalistas está a Barca de Gil Vicente cheia.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Purgas


Quero que se fodam os apeadeiros.
E as demais consequências industriais.
Quero que se fodam as estações.
E tudo o que vier de bilhete na mão.
Quero que se foda o paralelo.
E o perpendicular.
E o amarelo e o vermelho.
Quero que se fodam muito bem fodidas as ripas de Pitágoras.
E os teoremas de Fermat.
Quero que se fodam os limites, as metas, os provérbios
e as delongas provincianas.
E as mágoas essas que ficam no fundo dos tachos
e ainda os fornos estão a quente.
Quero que se foda as circunstâncias do passado
e os afazeres do futuro.
E aquela gente normal, de risos normais, de vestimentas normais,
de pingas normais, de passos inacabados, de lágrimas doces.
Quero que se foda o doce.
Nunca vi prazer nenhum ser doce, porra!
A vida é salgada. É pimenta. É alecrim, rosmaninho piripiri.
Que se foda os supostos. Os iguais. As demandas.
Que se foda o tudo no nada.
Porque eu cá quero é o nado no tudo.
Foda-se!
Arre para a conservação do outro,
e da outra e do vizinho que não veio jantar.
Prezados seres estes que mandam foder o normal.
É mar. É oceano.
Atlântico. Índico.
Que se foda o Pacífico.
As Américas e as Europas paranormais.
Que se foda os saltos altos. O asfalto. Os andares de rés do chão.
Ah que merda esta que está no meu quintal.
Que se foda a poda que não foi feita.
A erva que cresceu. A terra que não se amanhou.
Acendo-me.
Sou ridícula.
Que se foda se me fodo.
Ao menos… fodi-me.
Porra.
Que se foda!
Foda-se.

terça-feira, agosto 03, 2010

oh homem...


As sensações que dizeis que não tomam a sério,
São aquelas que de mais sérias nós temos.
De silêncios entre vídeos de salivas não tragadas.
Andas a boiar. Andas.
Colocaste o passado do teu lado esquerdo
Assiduamente dizes bom dia.
Convence-te que são de boas noites que todos queremos
Às vezes o coração entra em decadência moral
De juízos de valores estandardizados
As sensações não se regem de faces pálidas
De peixes amórficos. De garrafas entulhadas numa qualquer varanda.
Os sentimentos, esses são como os gargalos.
De beiços em bico. Sedentos. De gargantas.
Chamas-me vadia. Não me importo.
Porque se vadia é engolir tudo até ao fim, e lamber os lábios até ao puro filamento.

Então sim, sou vadia.
O meu copo está pousado na janela. Não pedi gelo.
Traz o lume. Ou se preferires, a ponta do cigarro.

quinta-feira, julho 29, 2010

xiuuuu



Não fosse a interrogação abraçar a exclamação,
e viria o pronome pessoal beijar
o que se diz verbo no presente no indicativo.
Pretéritos perfeitos, não existem.
E os imperfeitos ficam em bicos de pés... sentimentos.
Dizem-se. Assim. Calados.

terça-feira, julho 27, 2010

Primeiro Volume


Antigamente não se ouvia tanto, talvez seja uma maldade dos tempos modernos.
Esta parva mania da razão sussurrar ao coração um… “Já soube…”
É que se fosse ao contrário, se de repente o emissor fosse o receptor,

talvez não houvesse esta néscia e quixotesca teima de ouvirmos um…
Eu avisei-te…”
[…]
Há realmente muita merda que me irrita nestes tempos modernos,

mas o topo da pirâmide é sem dúvida isto de catalogarem as coisas do coração com últimos volumes, logo atrás da enciclopédia do raciocínio.
Fosse assim, não teria havido a caverna. E Platão não teria sombras.
As realidades não são horizontais. Nem verticais.

As verdades são o que são.
E valem por si só.
O que entendo eu disto? Nada.
Por isso é que não tenho enciclopédias.

domingo, julho 25, 2010

Fundi|do


Se o meu cérebro ficasse vazio por um segundo.
Oh que segundo esse que me falta.
Abusava deste desejo. Violentava-o contra uma parede.
Até ao último gemido.
Uma vez. E duas. E três. E seis e nove. E, as vezes que fossem necessárias.
Para me espreguiçar ao comprido sobre a satisfação. É prazer.
Sobre os desejos sei duas coisas.
Ou comem-se ou deixam-se arrefecer.
Prefiro a primeira.
É que sopa fria não é a mais apetecida.
Então se for de caldo verde.
É esgotar até ao fim.
Até rapar o prato. E fazer aquele rrr rrr rrr com a colher.
E no fim, aquele recostar de cadeira.
Confiança. Presença. Partilha.
Arde.
Arde a deambulação. Passeio sem calçada.
Chão sem soalho.
Arde. Arde. Arde.
Arre.
Que arde.
Porra. E a colher a rapar até ao fim.
E rapa. Rapa. Rapa.
E esta Lua que sabe bem.
Na pele. Como unhas a cravar aqui.
A espinha toda.
Do princípio ao fim.
A colher vai cega. Por aquele prato adentro.
Eu e a noite.
Desgraça. Que desgraça esta que me esmaga.
E me acende.
Nada. A colher vai cega.
Lá vai o desejo por ali acima como quem esgrima os sentidos.
Rapa o tacho, malandro. Rapa.
Estúpidos os sentidos.
Parvas as razões.
E se a imoralidade não morasse aqui.
Eu dizia-te o que era um caldo verde.
Arre.
Que arde.
Não sou postiça.
- O desejo! O desejo! O desejo!
Fundi-te.

quarta-feira, julho 21, 2010

Matança.



Dormi com ele.
Acordei comigo.
Fui carne, alma, veias.
Dei-lhe o meu sustento.
[Des]Oxigénio.
Dou-me a mim.
Agora. Sem medos.
Dormi com ele.
Acordei comigo.
Depois de uma grande foda.
Um cigarro.
Depois de uma grande matança.
Um cálice de vinho.
Depois disso. A cinza. O restolho.
A ceifa de restos.
Desconformes.
Mais um bafo.
Cavou. Escavou. Colheu.
Dormi contigo.
Acordei comigo.
Debruço-me nesta linguística.
Às vezes é um tal de reumatismo na Alma.
Outras filosofias de estrada.
Camas sem lençóis.
Corpos doces, quando se querem salgados.
Revoltos. De punhos. Dá-lhe.
Dá-lhe. Dá-lhe em cima da mesa. Porra.
Espasmos que nunca duram o suficiente.
Retina amachucada.
Lixo.
Desagregamentos. Lá onde os bichos se proíbem.
Dorme contigo.
Dorme contigo.
Que hoje acordei a enforcar-te.

sábado, julho 17, 2010

quarta-feira, julho 14, 2010

O Amor é importante, porra!

As gentes acordam.
Pensam que não vão morrer nunca.
E nem a dormir, sonham.
As pessoas acordam.
Limpam as ramelas.
Sentem que muito provavelmente vão morrer.
E quando estão distraídos, sonham.
Os seres humanos acordam.
Espreguiçam-se até estalar os ossos.
Sabem que se calhar até é hoje que morrem.
Esboçam um sorriso.
E amam.

terça-feira, julho 13, 2010

TPC

Às vezes esqueço-me que as pessoas lêem este estamine, e ainda bem que assim o é.
E às vezes esqueço-me que a maltinha é a modos que pudica, e que leva a mal certas coisas que por aqui se escreve.
Ora estava eu no outro dia a estacionar o belo do automóvel, senão quando uma senhora que eu não faço a puta de ideia quem seja, bate no vidro do referido veículo e diz: “Devias ter vergonha a escrever sobre aquilo que as mulheres fazem no privado num lugar que toda a gente lê.”
E eu feita ursa, com cara de labrega, sem entender um c…. da conversa, balbuciei um boa tarde.. então como vai a família.
E a senhora para ali a ralhar, e no meio de tanto ralhanço catecista, lá entendi que falava do texto ‘Mestria’. Que é como quem diz, da masturbação.
E isto foi no parque de estacionamento.
Também já aconteceu na fila do supermercado.
Mas, adiante.
Passado uns dias. Fui beber um cafezinho com um amigo (Filó se estás a ler isto, perdoa-lhe que o teu marido não sabe o que diz) e nem ‘boa tarde’, nem ‘como estás’ …
Foi logo isto:



Ao que eu respondi:



O que isto quer dizer?
Ide procurar foda-se.

Dantes na mercearia da esquina fala-se do vestido que a não sei das quantas levava à missa. Da amante do não sei dos quantos. Etc etc e tal.
Agora comenta-se a masturbação da Estranha.
Tá bem. Que seja. E eu ralada. Para as senhoras que não têm mais nada que fazer à puta da vida. Ide comer óstias a ver se eu me ralo.
Obrigado. Voltem sempre. E tragam um orgasmo.
Porra.

T.P.C. - para as codrilheiras da zona oeste:
Conjugar o verbo prazer no presente do indicativo.

segunda-feira, julho 05, 2010

Re: Reversíveis


Inúteis são as saudades. E nunca as faltas.
Inúteis são aquelas brechas de correntes de ar.
E nunca os corpos de puzzles. Asfixiados. Suados.
Como torradas envoltas em manteiga.
Sedentas de fogo. Queimados. Trançados pelo gozo.
Impaciente prazer.
Até à dor. Do nervo. Até ao fundo da dor.
Do vento. Do tempo. Das palavras destroçadas.
Distâncias abastardadas.
Esmoendo todos os tendões, sem precisar de um único toque.
Fluindo por ali acima. Até ao fundo.
Como um vírus que corrupta tudo o que se diz moral.
E eu que gosto tanto do anormal. Do pecado.
Malignidade exaustiva. Dura.
Nua. Completamente Crua.
É Arte contemporânea esta, que te digo. Esta que me sacia.
Que quero o fundo. De toda a dor.
De todo o sal de prazer extasiado pela Alma.
Que às vezes é do tamanho de dois dedos, e outras do tamanho do diâmetro da Terra.
Pulo esta convulsão. São lábios. Também os quero.
Há acasos assim.
Como que vontades. Molhadas.

sexta-feira, julho 02, 2010

Mestr|ia


A subtileza duma sensação é a modos como que uma ontologia.
Cientificamente falando, a subtileza da manipulação do organismo desafia as leis da gravidade da absorção das entranhas mais comedidas.
Falo de masturbação, pois então.
Estimula-se o desejo.
Desafia-se a vontade.
Manda-se o racional ir dar uma grande volta.
E fica ali o galileu a medir o transe do prazer.
A delicadeza dos gestos, do suor. O movimento dos ossos.
Do pescoço aos dedos dos pés.
Há coisas fantásticas. Não há?

quinta-feira, julho 01, 2010

i|limite


Então era assim.
Primeiro pegava em ti e sugava-te todo o sangue.
Depois esticava cada artéria tua até ao ilimite.
E depois. Mas só depois.
Asfixiava-te as membranas.
Como que um lembrete.
De.
Afinamento de peles.
A puxar para a Alma.
E no fim bebia um tinto e fumava um cigarro.
E tu espojado no soalho.
Sem fósforos.

domingo, junho 20, 2010

Fotogramas


De lés a lés aparecem aquelas expressões completamente desfasadas. De tudo.
De tudo o que estamos aclimatados.
Como aquelas tempestades tropicais que aparecem sei lá de onde, e levam tudo à frente. Não são ventos. Porque os ventos sabem bem o que é.
Não é errado. E também não é certo.
E é essa assentada que se diz idiota,
que transforma a linguagem insípida em algo avassalador.
Intimista, como fotogramas de contornos afectuosos.
Contornos. Esses de paragens obrigatórias.
Com todas as estações e apeadeiros a que temos direito.
E ás vezes, e tantas vezes, pararmos a meio da linha e num registo sensual emanciparmos os desejos por todas as linhas que antes paralelas se transformam agora oblíquas.
Orgãos perpendiculares, e o comboio a passar.
Clássica é a linguagem, verdadeira a retina. A minha. A tua. A nossa.
Como matrizes.
E num registo puramente incontornável faz-se a Arte.
A minha. A Tua. A Nossa. De paragens obrigatórias.
Que de tantas concepções psicofísicas tornam vastos os horizontes.
Não somos conhecidos. Nem desconhecidos. Porém… artistas.
Desfasados.
Nós.

quinta-feira, junho 10, 2010

Aguar|dentes



No tempo em que se jogava ao pião e ao ringue não existia defeitos na cocaína.
A heroína tinha a cor das utopias. Suspensas como a fixidez que se sente aquando o vómito do silicone das hesitações.
O quadro na parede tinha uma qualquer estrada, e toda aquela inalação de odores proibidos fazia com que a tela pairasse por entre a pele.
Depois vieram os poetas, e com eles as metáforas típicas de quem alimenta as vontades com lubrificantes iniquamente congelados.
E as aguardentes. Essas malditas tentações que nos abrem a retina até ao ínfimo desejo.
Os dedos tremem. E com eles fica a descoberto negociatas de antes e depois, desmazelamentos de intenções.
Cheira-me a café.
Colocaste o açúcar?

terça-feira, junho 08, 2010

Comé Fodes?


Hoje, não interessa as horas, porque isto foi coisa de minutos.
Alguém virou-se e disse:
Faz amor comigo.
Ao que eu respondi.
A minha geração já não diz isso.
Diz:
Comé fodes?
E eu que estava na digestão.
Não fodi.
..
E antes que eu me vire para o lado, e sinta que me foderam a puta da vidinha
com retóricas em vez de acções, digo-vos:
Fodo sim senhor, antes que a vida me foda a mim.

O pernas para o ar está de volta, com um pino em ângulo recto.
F.O.D.A.-S.E.

quarta-feira, maio 12, 2010

[É nos silêncios que se fazem os gritos] -- [Pequeno intervalo n(d)a ausência]




Pulei do alto de uma Serra, na tentativa de organizar a espinha.
Ficaram-me os ossos.
E este frenesim maldito, desprezado, amaldiçoado de agonias pegadas ao sangue.
Sem âmago. Pari-me.
De pernas abertas. Completamente esparramadas, não houve pudores, vergonhas.
Nem sequer apaguei a luz, ou fechei a porta.
Pari-me logo ali. Onde deu vontade, onde quis, onde me apeteceu.
Foi de real gana. Completamente aberta.
Quando dei por mim já cá estava deste lado. Do impróprio.
A guinchar alma por todo o lado.
As paredes de odores esquisitos. Urbanos. Demasiadamente arquitectónicas. Certinhas.
De bom gosto, dizem muitos. De mau gosto, digo eu. Que o desarrumado da alma é personalidade, já de sentimentos é corrupção.
Aperto o cinto. Dói-me os tornozelos.
Deve ser lama esta circunstância humana.
Este lodo. Escorrego. Maltrato-me.
Afinal nada foi ás claras. E eu que nunca arrumo a alma, esqueci-me de apagar a luz.
De maquilhar os sentimentos. De fechar as pernas.
E de parir-me.
Devia apenas ter-me prostituído.
E aprender contigo. A vender a alma ao Diabo.
Arrumo os ossos.
Esfrego as coxas. Amanho a aorta.
Cruzo as pernas.
E num pouco de argila, alguém escreveu: Puta que te pariu.

domingo, fevereiro 14, 2010

Nu[m]a Rua

Ás vezes mais que necessário, é imperativo mudar de ares.
De palavras. De roupagem.
Estarei por entre ruas e ruelas a fazer dos portugueses
os autores do meu próximo blog.
Amanhã nas bancas [isto se os Portugueses estiverem na Rua]

http://numarua.blogspot.com/

domingo, janeiro 24, 2010

Moribunda


Se eu pudesse um dia chorar todas as mágoas que eu sinto.
E habitar em mim, um qualquer universo ainda por descobrir.
Ai se eu pudesse num dia, mover a madrugada em ternura.
E aí espantar, qualquer vestígio de medos e melancolias.
E escutar baixinho, mas mesmo muito baixinho, o teu ressonar.
E aquele bater de dentes que tu dizes que existe,
entre o dormir e o adormecer.
Destacaria qualquer passo.
Qualquer olhar. Gesto. Semblante. Quadro.
Tela. Pincel. Sensualidade.
E arrancava tudo.
Sem hesitações. Dúvidas.
E o mais agradável de tudo isto.
Era eu sentir-me moribunda.
De mim mesma.
Ao sentir uma qualquer esmola tua.
Como se de um tesouro se tratasse.
Se eu pudesse um dia chorar, todas as indiferenças que sinto.
Criaria o Atlântico.
E detinha todas as palavras do dicionário lusófono, como minhas.
Mas, sou pobre. Inculta. E incapaz de suster em mim.
A ausência do teu espanto.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Agulhas


Um destes dias, quer dizer… para ser sincera … foi hoje.
Eram umas seis e qualquer coisa da tarde.
[Eu sei que as cidadãs envolvidas são leitoras aqui do estamine, caso fiquem ofendidas com tais palavras, só têm dois trabalhos: ficarem ofendidas e deixarem de ficar]… continuando..
Hoje ao entardecer e para desanuviar a porra do trabalho, peguei num colar que estava perdido numa das gavetas da sala de professores, coloquei o dito colar a andei por ali de colar ao peito.
Nada de anormal. Não fosse eu menina que não usa colares, nem saltos de alto e afins.
Claro está, que as minhas ilustres colegas insistem na ideia, que um cérebro de uma mulher está na roupagem, adereços, perfumes e outras coisas tais. Pela sua ordem de ideias, aqui a ‘je’ é uma besta quadrada, com um cérebro de galinha. Pois sapatilhas, calças de ganga, mochilas e cabelo penteado com os dedos, nunca deram cérebro a ninguém.
Ora as ditas senhoras ficaram em êxtase, verem-me ali de colar foi altamente orgástico, finalmente eu era inteligente – usava um adereço dignamente feminino, a porra de um colar. Urra.
Ao fundo da sala ouvia-se: “Estranha pessoa esta, tu chegas lá… amanhã já vens de salto alto, e aí sim!”
Espectacular. Sensacional. Formidável. Estupendo.
Três anos naquela escola, a trabalhar que nem uma mula, e afinal de contas o meu reconhecimento profissional foi vinculado por um colar.
[Agora que me ponho a pensar no colar, é do restaurante chinês que fica do outro lado da rua. Ao almoço, pela altura do Natal, ofereciam um colar. Amarelo, enorme, cheio de brilhantes. Os crepes são bons, o vinho da casa é manhoso, e o empregado de mesa não sabe fazer trocos. Tirando isso, até se passa lá um bom bocado.]
Passado uma meia hora do desfile e orgasmo cerebral em que estava o meu cérebro, resolvi ler em voz alta um poema de um dos alunos (concurso de poemas que está a decorrer )… numa das estrofes lia-se qualquer coisa como: “ E nós embebidos em prazer, pousamos as línguas e bebemos as salivas…”
Do fundo da sala, ouvi: “ai que nojo, prazer… salivas… “.
Espectacular. Muito bom. Soberbo. Uma mulher para ser mulher, tem de usar colares que parecem adereços da árvore de natal, utilizar sapatos de agulha que fodem os pés todos (e ainda por cima tenho uma unha encravada, para ser franca são duas), tomar banho em perfumes mete nojo da loja de conveniência da esquina, estar de meia em meia hora a pentear-se, lambuzar a cara toda com tintas que não lembram nem ao menino Jesus.

MAS, SALIVA? PRAZER? Ahhhhhhh isso não!
Isso lá é coisa de mulheres?
Amanhã tenho que ir ás compras. É que com tanta informação que recebi hoje acerca da minha condição feminina, não vá eu olhar para o espelho e ter alguma dúvida sobre a minha sexualidade.

(Era para acabar este textozinho com um ‘Puta que as pariu’, mas acho melhor não o fazer… pois, não é próprio de uma senhora…)

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Cócegas

Viver todos os dias sem ti fatiga-me.
Mói-me. Enerva-me as entranhas.
Fico com os pulmões a modo que pequeninos.
Custa-me o oxigénio.
E este ar roto em cima dos meus ombros.
Quando passeares por aquelas ruas de gelos perdidos,

de cheiros doces e gestos salgados.
Lembra-te de mim. De cócegas na Alma.
Roubaste-me tudo. As artérias. Os gemidos. Os gestos. Meneios.
Acenos.
Expressões tresloucadas, aquelas que me roubaste.
E depois. Depois vem isto. Este espreguiçar de saudades.
De sufoco. De asfixia.
Proibiste-me.
E eu que não sou de leis.
Perdi-me.
Quando novamente num qualquer entusiasmo deres por mim.
Não digas nada. Prende-me.
Sem épocas. Tempos. Prazos.
Medos. Receios.
Sossega-me.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Mais com Menos

[Partilho convosco um e-mail que enviei ontem.
Caso obtenha alguma resposta, esta será divulgada aqui no Pernas eeheeh]

Exmo. Sr. Director Geral dos Hipermercados Modelo


Poderia iniciar esta carta com um pedido de desculpas em relação à ousadia de lhe escrever sobre o tema abaixo exposto.
É. Realmente poderia começar este meu texto por aí. Mas, sinto que não o deva fazer, porque isso revelaria que estaria a ser cínica e um pouco prepotente.
Passemos então ao que me leva a redigir estas linhas.
Hoje vi e ouvi um anúncio publicitário dos Hipermercados Modelo… entre outras frases, dizia qualquer coisa como (não cito, pois não me recordo exactamente das palavras)
“ Vá ao Modelo… (…) é matemático. Mais com menos dá sempre menos. Ir ao Modelo é matemático”.
E repetia esta frase duas ou três vezes.
Ora eu fiquei a modos que irritada, pois uma das minhas batalhas diárias é exactamente tentar que os meus ‘amores’ (discentes) sintam e percebam que efectivamente essa frase é um erro.
Vejamos, considere os seguintes exemplos: -5+10= 5 (dá mais) , 10-20= -10 (dá menos).
Na adição e subtracção sinais diferentes, diminui-se e dá-se o sinal do maior valor absoluto. Ou seja, tanto pode dar ‘mais’ como pode dar ‘menos’.
Na multiplicação e na divisão… aí sim, mais com menos dá efectivamente menos, mas no contexto do anúncio a aritmética é relacionada com a adição e subtracção, logo o anúncio induz a população a erro.
Eu sei que você tem mais que fazer, e que simplesmente este meu e-mail vai ser alvo da chamada ‘chacota’. Mas, diga lá que por vezes a ousadia não tem uma certa piada?
E tal como dizia um certo filósofo que não me recordo agora o nome… “(…)um pensamento sem crítica, não passa de mera subordinação.” …
E eu cá não gosto nada disso… de subordinações.
Espero que tenha um resto de uma boa semana, e que a crise económica não afecte o seu estabelecimento comercial… pois por vezes, ‘mais’ com ‘menos’ pode ser ‘mais’, e espero que seja esse o caso.

Atenciosamente,
Estranha pessoa esta

sábado, dezembro 19, 2009

Clemência[s]


Doentes.
São [ás vezes] assim os sonhos.
Doentes.
Completamente indispostos de nós mesmos.
Nos sonhos tudo é lícito.
Tolerado.
Consentido.
Nas utopias não, mas nos sonhos sim.
Porque os sonhos são assim.
Inteiramente. Doentes.
Afectados por febres avassaladoras.
Dores. Rígidas. Imponentes da Alma.
Pegam em cada fibra, músculo das entranhas.
Colam-se ás células sem piedade.
O cérebro pede clemência.
O coração antibiótico.
E eles. Os sonhos. Ficam assim.
Colados à Alma. Acorrentados.
De penas perpétuas.
Doente. Ando. Doente.
De tanto sonhar.
[ás vezes]. Cabalmente.
Sem rigores.
Doente.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Agente Funerário lamenta morte de Estranha Pessoa Esta


Um dia destes, li isto:
"A arte de viver consiste em conseguir que até os agentes funerários lamentem a tua morte."
Não lamento informar que é mesmo isso que pretendo fazer.
Para todas as pessoas que pretendem comprar-me flores, eu ainda não morri.
Para todas as pessoas que gastam energias a tentar sufocar-me com tábuas sem pregos, eu ainda não morri.
Para todas as pessoas que afirmam diariamente que é loucura o que faço, eu ainda não morri.
Para todas as pessoas que insistem e insistem em tentar que o meu coração tenha um sentido que não o meu, eu ainda não morri.
Vivam a porra da vossa vida, e deixem-me respirar a minha.
Porque eu ainda não morri.
E para todos os agentes funerários o que tenho a dizer, é simples, quero ser cremada.
Por isso ide-vos meter na puta da vossa vida, e deixem-me ser o xulo da minha.
Obrigado.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Guerra [Ci]vil



Há dias na puta da vida
Em que nós pensamos raios parta ao chulo
E depois há outros dias em que sentimos
Raios parta aos clientes
E ainda outros em que simplesmente emergimos
Um foda-se.
Grunhido.
Como esta desvairada desta lua que teima em estar sobre o meu telhado.
E estas telhas incertas sem nada falarem.
E o bilhete em cima da mesa.
E é redonda.
A mesa.
E.
A Lua cheia.
Foda-se.
Manifestem-se.
Nem que seja à civil.
Há guerra.
Os soldados estão em marcha.
E os decretos prontos a assinarem.
Ó telhas incertas vis que me sustentam o pulmão.
Compreendem que tenho dois.
E a minha mesa é quadrada.
Grunho!
....
Ouviram?

segunda-feira, novembro 30, 2009

Embrião


Quando falamos dos nossos medos.
Entenda-se: A, outras pessoas.
Estas têm a brava, quase, ofensiva mania.
De compararem os nossos medos a memórias fracas.
E um tanto ou quanto, constrangidas.
Quando falamos dos nossos medos.
Entenda-se: A, outras pessoas.
O que nós não queremos ouvir, são cachimónias. Sagacidades.
Penetrações de castelos intelectuais.
É que a bem da verdade. Já nos chegam os nossos.
E se falamos é porque a angustia já é tão grande,
Que se torna asmática. Irracional. Quase. Insensata.
As recordações.
Quando falamos dos nossos medos.
A nossa Alma toda a forma [quase] física de um embrião enrolado no útero.
Em que os joelhos tocam o queixo.
E os pés ficam assim sem meias, frágeis a qualquer vidro no chão.
Quando falamos dos nossos medos.
Entenda-se, a nós mesmos.
O que nós queremos é parir.
Parir-nos a nós mesmos.
Arre.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Pescoço


Era verão. Era noite. E estava frio.
Falava o medo por entre a engrenagem do motor.
Ela estava no banco de trás.
Como o medo.
Ele na frente. Como o silêncio.
Entre o medo e o silêncio. Coabita o atrevimento.
Reflexos de gestos. Palavras. Entrelinhas. Respirares. Agonias.
Entre o receio. E. O Sossego.
Vive o arrojo. Arregaçado. Sem escrúpulos.
De impulsos inconscientes.
Entre o medo. E. O Silêncio.
Vivo eu ás vezes. Esticada. Em protesto. Agoniada.
Dependente de vómitos. Agonizantes do desejo.
Absurdo?
Absurdo é o amor sem loucura. Disse ele.
Enquanto ela esticada. Amedrontada sob a cama.
Sentia aquele gesto de dedos no pescoço.
E num respirar. Fundo. Descaíram os ombros.
E ficaram assim. Sem piedade.
Apressa-te, dizem os dias.
Excomungados pela saudade.
E já é inverno. É madrugada. E está calor.
Inconscientemente. Levo a mão aos lábios.
E atrevo-me. No banco de trás.

domingo, novembro 22, 2009

Clave de Sol


Fosse o bater catastrófico da minha aorta
compassada pela melodia algo semibreve do meu cérebro,
e eu diria que o que eu sinto são rugidos.
Como aqueles, quando os seios ficam arrepiados.
E as veias ritmadas.
És maestro. Diz o miolo ao miocárdio.
Com a nota de afinação em Sol Maior.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Doce da Casa

Existem detalhes incontornavelmente insaciáveis.
[...]
Como aquele detalhe final
da folha de alface
a cair em passos lentos
com todas as gotas sobre o chão.
[...]
E tu a molhares os lábios.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Trigonometria



Não fosse a tangente
ser o quociente
entre o comprimento do lado oposto
e o comprimento do lado adjacente,
e eu dir-te-ia
como anda a minha hipotenusa.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Metade de Vida



Existem duas espécies de esperas.
Mas apenas.
E apenas uma.
Espera de espécie.
..
Há quem lhe chame de carácter.

sexta-feira, outubro 23, 2009

{ }


E quando se morre, devagar. Devagarinho.

A Existência.

E se vive.

Depressa. Depressinha.

O Desejo.

Isso é o quê?

terça-feira, outubro 20, 2009

Arreganhada


Dizem que é o prevenido.
De mãos atadas pelo hábito.
Pelos costumes frios, cautelosos, completamente desgraçados de maquilhagens.
Maquilhagens idiotas. Néscias.
Arreganhadas pelo adulterado. Desleal.
‘Velhaquices’. É o que é.
Desmazelo contínuo da sensibilidade.
Afectividade, desleixada propositadamente.
E continua assim, sociedade viril.
Sem minerais, granitos, pedras.
Nem um grânulo de amostra.
São só tábuas. Rasas. Frenéticas de risos fechados.
Mostrem os dentes, PORRA!

domingo, outubro 11, 2009

Por Ali Adentro. A. Valsar.


Gosto das cores.
Dos amarelos. Dos encarnados.
Gosto dos tons.
Do céu. De noite. De dia.
Gosto da magia de um por do sol de Outono.
Daqueles com uma leve brisa, que nem é quente e nem é frio.
E ficasse assim. Encostados a uma árvore.
A sentir toda aquela melodia. Sinfonia.
Todos aqueles pormenores verdadeiramente comoventes.
Gosto de tocar nas árvores. De sentir cada veia.
Cada ramo. Cada gota de orvalho.
E deslizar a minha mão pela Natureza a fora.
E depois. Depois perder os sentidos por ali adentro.
E depois vem a folha. A descer por ali a fora.
E dança ao som do ‘pregão’ do vendedor de castanhas.
Que é rural e urbano.
E tudo ao mesmo tempo.
E aquela árvore no fim da rua.
Com dois ramos abertos.
Como um maestro. Da enorme orquestra.
É saxofone amarelo. É clarinete castanho. É trompete vermelha.
E lá vem ela a dançar. Melodiosamente. A valsar.
E chega ao chão já no Tango.
Suspensa no ar.
Como um espelho de alma. Despida. Nua.
Resgatada. Crua. Por tudo aquilo.
É o Outono a cantar. Elegante. Único. Sublime.
Estranhos pormenores.
Que nos atraem. Que nos premiam. Seduzem. Por ali abaixo.
Por inteiro.
Neste Outono.
Cheira a terra molhada.
Vai sonhando Amor. Que eu também vou.

domingo, outubro 04, 2009

Perfeito Encaixe

E quando acordares. Lembra-te de Van Gogh.
E de certas anomalias.
Como sendo sentidas estranhamente sem banalidades.
E quando adormeceres. Escuta-te por entre os meus dedos.
E lembra-te de Vivaldi. E de todas as Estações.
Porque a Lua pode ser Arte. Uma Pedra o Mundo.
E certos sentires, passos de dança, por entre pedaços de madeira.

terça-feira, setembro 29, 2009

Joel



Hoje sentados num banco. No ‘recreio’.
Chamemos-lhe Joel.
Sentou-se. E brincava com as pedras de cascalho. Sempre com os olhos no chão.
- Estás triste Joel?
[Largo silêncio]
- Stora… a vida é muito curta.
- Não digas isso, então tu tens ainda tantos dias para viver...
- Sim eu sei, tenho quinze anos. Faço dezasseis em Outubro. Dia vinte e cinco. E este ano ‘calha’ a um domingo.
- Então e tu, com essa idade, porquê é que dizes com essa tristeza que a vida é curta?
- Porque as pessoas não são verdadeiras para com o seu interior, nem para os outros.
[Silêncio]
- Sim, tens razão… mas não te podes deixar ir abaixo, Durante toda a tua vida, vais sempre encontrar pessoas que não são verdadeiras. Mas isso ajuda-nos a crescer e a construirmo-nos enquanto seres humanos. Não podes é deixar de sonhar por causa disso. Nem deixares nunca de ser verdadeiro para contigo e para com os outros.
- Mas Stora, eu não quero aturar com essas pessoas toda a vida……
- Nem eu Joel. Nem eu. E muitas vezes também fico muito triste com isso. Mas tento sempre sonhar e sorrir. Olha Joel, tu tens sonhos? Qual é o teu maior sonho?
- O maior dos maiores de todos os maiores?
- Sim! O maior de todos! Qual é o teu?
- O meu maior sonho de todos os sonhos não tem nada a ver com dinheiro. O meu sonho é ser guarda-florestal.
- Para estares em comunhão com a Natureza, e sentires tudo o que é verdadeiro?
- Sim! Para sentir os passarinhos, e o verde, e a vida. Porque a vida sem coisas verdadeiras é uma vida muito curta.
- Tens razão Joel, muito curta mesmo. Por isso é que os sonhos são grandes, imensos e azuis e verdes. Como os teus. Para que vidas como a minha, façam sentido, por existirem pessoas como tu.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Silêncio



Esborrata-me os sentidos do prazer.
Contenta-me o espírito.
Inala saliva. Pudor. Timidez.
Imagina-te sentado.
Entre pernas. No colo.
Revela-te.
Revela-me.
Aloja todos os pedaços, retalhos, apontamentos.
Que ficaram por dizer.
Di-los agora.
Sussurra-os. Grita. Murmura.
Ao meu ouvido.
Olho no olho.
Pele com pele.
Agarra-me.
No silêncio. Sem distâncias.
Escreve na minha pele a saudade.
Dita nos lábios o desejo.
Sem pressas.
Que seja madrugada. Mesmo sendo de manhã.
De pedras, janelas, paredes, cantos esquecidos.
Loucura, dizem as palavras?
Silêncio.
.
E.
.
Olho para ti.
.
.
Revela-me
.

terça-feira, setembro 22, 2009

'When in the course of human events...'



Experimentamos certezas.
Cavamos as incertezas.
E salivamos.
Salivamos pela garra.
De fantasias. Alucinadas.
Gememos de ânsia.
E os dedos que se abarquem em suor.
Prova de cada gota.
Uma por uma.
A escorrer pelo pescoço abaixo.
Alimento desenfreado.
Atrevido.
Desejo libertino este,
Que se instalou entre a pele e os ossos.
E os estalos cada vez maiores.
Emancipam-se os desejos.
Anarquia total de gemidos.
E já vai pele, agarrada ás unhas.
E os dedos encharcados de retalhos de alma.
Universos. Que já não são paralelos.
Perpendiculares suculentas.
De ti. De mim. De nós.
Extraviam-se os medos.
Os passados. Daqueles dias.
É madrugada. Chove nos lençóis.
Até amanhã.

sexta-feira, setembro 18, 2009

Endoida-se


É preciso endoidecer para amanhar os sentidos.
A sociedade assim o exige.
Não concede outra forma de esborratar os impossíveis.
As irregularidades. Dizem.
Designs de odores que não se querem livres.
E para isso oculta-se tudo. Até as vontades.
E passam-se assim os dias.
Abafados. Humilhados.
Porque dizem confortavelmente sentados no sofá da razão, que a vida se quer cinzenta.
Sem rasgos de loucuras, de vermelhos. A escorrer pelas paredes abaixo.
Indecentes espasmos de prazer, que só a demência sabe ter.
Desatam-se os neurónios dos seus afazeres previamente fabricados.
Desfragmentam-se utopias. E aí. Endoida-se de vez.
E mandamos todos os engravatados se enforcarem no seu próprio nó.
Exige-se o impossível. Porque o possível não é demente.
Não é louco. Não é cego. Não saboreia. Não tem sal.
Prefiro a loucura.
….. a não amanhar os meus sentidos.

Desvias?

terça-feira, setembro 15, 2009

Botão


Há paredes que não devem ser pintadas.
Fica o tijolo e o cimento.
Tudo em bruto.
Como a Alma que ficou lá atrás.
E o medo a colocar a perna sobre o receio.
Aconchegando-lhe um quê. Aquele quê. Sem porquês.
Não existem estradas ridículas.
Existem sim desvios que eram prescindíveis.
Mas necessários.
Como mentol dentro de chocolate.
E doce de pêra na ponta da língua.

domingo, setembro 13, 2009

Prazeres Saudáveis



Existem pontos.
E depois existem os i’s.
E depois há as madrugadas.
Aquelas.
Em que metemos os pontos nos i’s.
E ficamos assim.
Sôfregos.
Insaciáveis.
Completamente desejosos de mais grafias.
Ortografias.
De uma folha em branco.
Sem linhas. Apenas por desenhar.
Tantos pontos. E ainda mais i’s.
Os desejos podem ser saudáveis.
É. Podem.
Mas são de um carácter profundamente insatisfeito.

Rebentou-me o cérebro.
.
Tu dizes que não existem pecados.
Eu sussurro que .... Nem semáforos para os prazeres.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Almofada[s]


É distracção.
Recriminação absurda da racionalização.
Malandros os desejos.
Palermas os instintos.
Ferve-se a perturbação.
Dos antebraços.
Pasmados.
Hóspedes dos anseios.
Fosse compreender a tua senilidade.
Aquela que se diz de saudade desequilibrada, aflitiva, desgraçada cheia de graça.
E isto a que chamam de medos, seriam restos.
De tudo o que se tem ainda por sentir.
Diz a almofada para o lençol.

segunda-feira, setembro 07, 2009

15 graus


Lá em cima onde eu só moro ás vezes, cheira a alecrim.
Quando se sobe a quinze graus tem um eucalipto.
Suspenso no ar. Com um ar tão frágil.
Como frágeis são os sonhos.
Fantasias. Quimeras.
Sempre me lembro daquele eucalipto.
Acho que cresceu comigo.
E com os meus sonhos.
E tempestades.
E ele sempre ali.
Suspenso.
Como que interrompido pelo tempo.
Pelas horas. Entardeceres.
Pelos azuis daquele céu de terra molhada.
Ás vezes parece que está a chorar.
Pelo horizonte. E lá ao longe o Oceano.
Como que um agarrar de cintura.
Na floresta.
E eu fico ali a olhá-lo.
Como se cada folha fosse um pensamento.
E os ramos, veias de um tronco que de tão franzino se torna forte.
Porque sonhar é dos fortes.
Porque podemos perder um pensamento.
Mas um sonho… esse não se pode perder.
Agarra-se à terra. Com as raízes ali entranhadas.
Que de tão penetradas chega a doer.
Infiltradas.
E ele ali suspenso.
Ás vezes calado.
E quando à tarde, mas mesmo à tardinha, sopra o vento.
Ele murmura palavras.
Porque as palavras são assim. Palavras.
E as palavras são tão importantes como as pedras.
Têm vida. Sangue. Sentimento.
Como aquele eucalipto.
Lá em cima. Onde tantas vezes eu habito.
Suspenso no ar.
E se olharmos com atenção… ás vezes o ramo direito toca o horizonte.
Porque sonhar é dos fortes.
Como fortes são as árvores. A terra está molhada.
E se sentirmos à tardinha, ainda vemos os beijos.
Ali. Bem ali. Onde a Serra nem acaba nem começa.
Apenas ali. Suspensos.

sábado, setembro 05, 2009

Alfarrabistas


Há pessoas que deveriam vir com prefácios.
Em vez de índices desenganados.
E completamente dissuadidos.
Há pessoas que nem sequer deveriam ser livro.
Porque existem livros que influenciam toda uma biblioteca.
E bibliotecas que nem sequer deveriam ser bibliotecas.
Felizes dos analfabetos.
Que se soubessem destas bibliotecas vomitariam sílabas sem letras.
E vocábulos sem ajuntamentos.
Soubesse eu o que é uma dieta de pensamentos e fosse analfabeta.
E não sentiria isto a que chamam de desalento.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Baunilha... [porque há certas lágrimas assim]


Há voltas que a vida dá.
Que parecem meia volta.
De metade de uma esfera sem diâmetro.
E valem por uma volta inteira,
Que de meia vida nada têm.
E parece que arrancam o coração do peito,
E o sangue a escorrer para o soalho de cascalho,
Perdido de veias,
Entre a multidão.
...
E ele respondeu:
"Isso dos 30.... aos 30 perdi eu tudo,
tive de começar a minha vida de novo,
e aqui ando, ainda a recuperar.
Só tenho livros, umas velas, umas plantas.....e tu."

terça-feira, setembro 01, 2009

Alma Adentro


Se a minha Alma fosse por aí adentro.
Desalmadamente por aí adentro.
Sem paragens de mercúrios.
Sem sentidos de pensamentos.
Ai se ela fosse por aí adentro.
Sem traços de passados.
E medos de futuros.
E pousasse assim.
Devagar no soalho da tua mão.
De palmas em concha.
Com cheiros de amoras.
Ai se ela fosse. Assim. Por aí adentro.
Frágil com alicerces de veias.
Desalmadamente por aí adentro.
Fugaz. Vermelha. Viva.
Aos saltos por aí adentro.
Absorvida pelo desejo.
De te encontrar entre os meus dedos.
E assim. Só assim.
Sossegar a pele.
Ai se ela fosse.
Desalmadamente tua.

Por aí adentro.

segunda-feira, agosto 31, 2009

God is in the details


Há gestos meticulosos.
Que de tão minuciosos parecem obsessivos.
Como que um registar de momento.
Único.
Mas que de tão bonito, trememos a mão.
E o clicar sai assim, tremido.
Vacilado. Oscilado.
Como se o nosso tremer não fosse certo.
Como se o momento não fosse bonito.
Como se o próprio registo não ficasse exposto.
Fecho a cara e sinto.
Atenta.
De olhos fechados.
Porque há gestos que só são sentidos de olhos fechados.
Porque abertos parecem outra coisa.
Que talvez seja por não ser território.
De chegadas. Partidas. Caminhos.
Medos.
E. Credos.
Sobretudo credos.
Sem coros, harpas, flautas.
Violas e guitarras.
E lá fora o deserto.
Árido. Seco. Estéril.
De olhos abertos.
Repararam?
Tentem fechar os olhos.
Assim. Devagar.
Agora. Tremam.

Ando com frio.
E entre as pestanas.
O. Medo.

quinta-feira, agosto 27, 2009

ahhhhhhhh foda-se


Quietude?
Descanso?
Que se foda o sossego.
As estradas de alcatrão.
E os cães do quintal.
Que se foda o fácil.
O que dá jeito.
E o banal.
Que se fodam os casacos.
O que pesa.
Os ombros.
Que se fodam os vestidos.
As montras.
As pinturas.
Que se fodam os políticos.
As campanhas.
Patranhas.
Que se fodam quem não se fode.
Quem não se ri.
De si.
Desbocadamente.
Quietude?
Descanso?
Quero é tempero.
Sal.
Picante. Coentros. Alecrim.
Nos assados e afins.
Quero é provar provar provar
E beber água no fim
De tanto piripiri que se faz sentir.
Quietude?
Descanso?
Não sei fazer renda.
E a minha mesa não tem cadeiras.
Mas, que se foda!