segunda-feira, junho 22, 2009

Canela

Fui uma vez ao psicólogo.
Era uma senhora. Tinha os seus trinta e cinco anos, ou até menos.
Eu tinha vinte. Lembro-me bem desse dia, faz estes dias nove anos.
Nunca gostei muito de psicólogos, sempre achei que eles tinham um discurso previamente adestrado, preparado, ensaiado.
Como se uma pessoa entrasse no consultório, eles olhavam e pensavam “ É pah este tipo faz-me lembrar a tese daquele meu colega da página seis.”
Sei lá, sempre me fez arrepios, pensar que para eles nós éramos mais uma página, uns coitados sei eira nem beira ‘almal’.
Aquelas retóricas baratas, aquele jogo dissimulado.. eu sei que é a função deles, e hoje tenho outra perspectiva sobre tal ciência.
Faz por estes dias nove anos, entrei numa pastelaria lá para os lados dos Restauradores, estava a chover, abriguei-me na tal pastelaria, e para não parecer mal, consumi qualquer coisa, um café e um pastel de nata. Sentei-me.
Na mesa ao lado estavam três senhores, pelos seus cinquenta e picos anos, engravatados, fumavam um charuto e bebiam conhaque. Um deles é um dos maiores psicólogos da nossa praça.
A conversa girava em torno de um dos doentes, o dito doente procurou o serviço de um desses senhores porque suspeitava que a mulher tinha um amante.
O amante era um dos senhores da tal mesa. Coincidências, ou talvez não.
Se eu pouco acreditava na psicologia, nesse dia, senti que eu não podia tirar conclusões precipitadas, um profissional não é o espelho de toda uma ciência.
Ainda para mais, nessa semana tinha exame de psicologia educacional, e pouco ou nada tinha estudado.
Segui para a faculdade, faltei ás aulas e fui à psicóloga da Universidade.
Eu tinha que estudar para o exame, e tinha que sentir alguma veracidade no que lia.
Entrei no gabinete, a senhora doutora perguntou-me qual era o meu número de aluno. Atenda-se, perguntou-me o número de aluno, e não o meu nome.
Perguntou sobre o que eu queria falar, e eu falei.
Falei, falei, falei, durante mais de uma hora. E a senhora, calada.
Pelo meio até chorei.
No fim ela olha para o relógio e diz, que o tempo acabou.
Eu que era uma novata nestas lides psicológicas, perguntei-lhe porque é que ela nunca falou, nem olhou para mim, nem perguntou o meu nome.
Ela não respondeu.
Perguntei-lhe quando eu podia voltar.
Aí, e olhando-me nos olhos, disse-me para não voltar.
E eu saí. E não voltei.
E nunca mais fui a nenhum psicólogo.
Hoje quando penso nesse dia, lembro-me essencialmente da chuva, e de ter chorado. Da conversa dos tais doutores na pastelaria, da senhora que vendia rosas brancas na Rua Augusta, do cheiro do Tejo, da mochila verde com um poema escrito a tinta da china, da minha roupa negra de luto.
No final dessa semana tive o tal Exame de psicologia educacional, passei. Mas, lembro-me bem o que lá escrevi. Se o tempo voltasse atrás talvez não escrevesse o mesmo. Mas, sentiria cada linha com mais entranhas. Porque chove mais, e os pastéis de nata estão com canela.

9 comentários:

RC disse...

Voltei.

MeiaLua disse...

Há coisas assim... que nos ficam na memória e que recordamos quando sentimos ou cheiramos algo...
como a canela dos pastéis de nata... ;o)

Mαğΐα disse...

Apetece-me dizer:

"Eu é mais é bolos"

Matilde disse...

Numa tremenda coincidência. Vai-se a ver e foste apanhada numa outra tremenda coincidência. Coisas da psicologia...


Vai um café para empurrar o pastel de nata e ajudar a tirar as cascas da massa folhada dos dentes?

Abraço do Canto.

lampâda mervelha disse...

Eu também já fui convidado a não voltar... mas aos escuteiros.



Ler-te e saborear café, boa experiência!

Mαğΐα disse...

Estranhex, como estás empre a dizer que não te dou nada, toma lá um pontapé na ...................... .............................. ........................... ............................... canela


:P

susana disse...

UMMM adoro pasteis de nata...

Beijo de um anjo

as velas ardem ate ao fim disse...

com um irmão psicologo não seio o que te diga.

mas também ja andei em psicologos e psiquiatas e naõ me senti mais apoioada...precisava de olhar para dentro de mim.

sei que o fiz mal mas fiz.continuo uma merda.

um abraço

Marina disse...

Odeio psicologos.
Adoro pasteis de nata. Com ou sem canela. Geralmente sem, que a canela faz me espirrar!
Tambem conheço um cafezinho um bocadinho acima dos Restauradores onde me costumo perder.
Acho que um pastel de nata (agora, forçadamente, sem cafe...) cura muito mais coisas do que um psicologo, especialmente se for na companhia de um Amigo. Com "A".

Beijinhos da capital para o meu/teu Oeste