domingo, Outubro 19, 2014

segunda-feira, Maio 12, 2014


Ao longo da vida fui aconselhada a não fazer nada do que fiz até agora.

O que não deixa de ser engraçado. Porque o que sou hoje, gosto.

E esses sujeitos, não mudaram. E não gostam.

quinta-feira, Abril 24, 2014

Ás vezes perguntam-me
como é que tenho tempo para tanta coisa.

Ao que eu respondo:
É fácil teres tempo para a tua vida.
Basta não perderes tempo com a vida dos outros.

quinta-feira, Abril 17, 2014


Revolta-te

Revolta-te pelos ‘nãos’ que não disseste.

E pelos ‘sins’ que bocejaste.

Revolta a tua preguiça. O teu assim-assim.

Manda o ‘assim-assim’  bardamija.

Revolta o teu medo. A tua indeterminação.

Manda a tua hesitação ir dar uma grande volta ao bilhar grande.

Manda-para  p*ta que a pariu. Que cá merdas da hesitação está o mundo apinhado.

Revolta-te. Mas revolta-te à séria.

Que brincadeirinhas da treta não entram na Revolta.

Revolta-te à grande e à Portuguesa. Como naquele  25 do mês de Abril.

Revolta-te à séria. Sem adornos. Efeitos. Revolta-te a nu.

Porque só a nu vence a Revolta.

Eu cá gosto tanto de revoltar-me.

Bardamija ao ‘assim-assim’.

Revolto-me. E. Gosto.

 

segunda-feira, Abril 14, 2014

terça-feira, Abril 01, 2014

Existem gentes.
Existem pessoas.
E depois existem os seres humanos. Aqueles.
Aqueles que por onde passam deixam marca. Daquela marca tão boa...
De vida.
Da verdadeira vida.
A Sá é assim.
Recuso-me a sentir no passado.
Tu és assim. Um ser humano tão bonito.
Vais deixar tantas tantas saudades.
Quero deixar a tua marca no pernas, foste das primeiras leitoras.
És das primeiras leitoras.
Tento tanto orgulho em ti.
Já tenho tantas saudades....

Até logo.
Amanhã vai até ao oceano.... deixo-te lá uns malmequeres.
Daqueles parecidos com os da nossa serra.

Até logo.

sexta-feira, Março 21, 2014

domingo, Março 09, 2014


Despe-te perante ti mesmo. De tudo. De passados. De presentes. De futuros. De pessoas. De lugares. De tudo. E só quando conseguires fazer isso, aí sim. Quando deres por ti, estás a ir na rua e a sorrir para ti mesmo, sem razão nenhuma e a dizeres... foda-se ... sou um ser humano do caralho. E para isso só é preciso uma coisa, não teres medo de ti, do que vais ver depois de te despires até ao âmago. Tens tomates para isso?

terça-feira, Fevereiro 18, 2014

Se te disserem que a tua vontade é insana.
Sorri. É sinal que tens tomates. Só os loucos os têm.

sexta-feira, Fevereiro 14, 2014

Nobel? Nobel é a distração!


Conta a lenda que num certo dia um bacano matemático apaixonou-se pela mulher do Alfred.

Passados uns anos, o Alfred que se dizia de Nobel, inventou uns prémios. Mas como ainda sentia os cornos na testa, resolveu não atribuir à matemática, nenhum dos prémios.

À ‘pála’ disso decretou-se que nenhum matemático podia-se apaixonar. Salvo uma rara excepção, quando estivesse distraído.

Distrai-te!

terça-feira, Janeiro 28, 2014

Sinal Vermelho


Há quem passe uma vida inteira a passar sinais verdes.
Que maçada, que aborrecimento.
Uma vidinha de sinais verdes deve ser uma chatice. Uma treta, portanto.
Isto é como tudo. Há quem tenha tomates. E há quem não tenha.
Passar um sinal vermelho. Sem saber o que está do outro lado. Como senão houvesse amanhã. Há lá sinal verde que faça a vida orgástica?
Não me parece.

segunda-feira, Janeiro 20, 2014

Ménière.. Oh Ménière.

O Síndrome de Ménière não tem cura. Há que aprender a viver com ele, há dias melhores, dias menos melhores. Ontem fui um desses dias… daqueles em que só apetece desligar a tomada. Ontem o Ménière ia vencendo, porque há dias em que simplesmente estamos tão cansados dele que só apetece baixar os braços. São muitas as pessoas que não sabem, nem entendem o quanto é difícil esta doença, e ta...mbém são muitas as pessoas que perdem a paciência connosco. O que é compreensível, se nós próprios perdemos tantas vezes a paciência com este não convidado. Foi num dia como ontem que tive a ideia de juntar meia dúzia de pessoas que sofrem deste Síndrome, na altura pareceu-me descabido, mas depois do dia de ontem quero realmente fazer isso. Juntar meia dúzia de pessoas que sofrem do Ménière, para fazermos uma curta-metragem com a ardósia, de sensibilização à comunidade/sociedade de um modo positivo. Se és da zona de Lisboa e conheces alguém que sofra de Ménière e queira participar nesta curta-metragem, indica-lhe deste projecto. Pequenos gestos, podem fazer toda a diferença. Muito obrigada.

Abraço daqui de mim, Estranha Pessoa Esta.

No último domingo saiu à rua a IV curta-metragem Numa Rua. Aqui--> http://www.youtube.com/watch?v=ljWjjES465Q&feature=youtu.be

segunda-feira, Dezembro 02, 2013

quarta-feira, Novembro 27, 2013

Contigo aprendi a confiar menos.
Nos outros.
Mas foi também contigo que aprendi. A confiar.
Tudo. Em. Mim.

A amar-me. Portanto!

É. Foi bom. Viveste.
Vives|te-me.
Mas ainda bem que já morreste-me.

quinta-feira, Novembro 21, 2013


Às vezes a aorta entra em decadência intelectual.
Oh Maravilha.
De juízos de valores estandardizados
As sensações não se regem de faces pálidas.
De peixes amórficos. De botelhas entulhadas numa qualquer varanda.
As sensações, essas são como os gargalos.
De beiços em bico. Sedentos. De gargantas.
Que vos chamem de vadios. Que se fodam.

 

sexta-feira, Novembro 08, 2013


Margarida Rebelo Pinto,

Houve uma vez, aqui há uns anos, alguém vira-se para mim, e diz que sou uma ignorante porque nunca ter lido um livro seu. Afirmou ainda, que mulher para ser mulher, tinha que ler os seus livros.
Note-se porém, que a trato por você, não como sinal de respeito, mas de distância. Porque de si e de mulheres como a senhora, quero é distância.
Nunca li um livro seu. E veja lá você bem, que sou uma mulher inteira. Não é fantástico?
Mas sabe o que é ainda mais fantástico? O seu humor.
Gosto tanto. Então quando a senhora chamou a todos nós portugueses de… treinadores de bancada. Ri-me a valer.
É. Realmente a senhora é uma humorista nata.
Já pensou em ir brincar aos pobrezinhos para a Comporta? Pense lá nisso. E se possível vá a banhos. E já agora à pesca.
É que mulheres como a senhora, não devem saber nadar e muito menos pescar.
Pessoas como a senhora, gostam de comprar o peixe no supermercado. Nem se dão ao trabalho de ir ao mercado e muito menos sabem o que é uma lota. Pessoas como a senhora, não sabem o que é pescar. E ainda têm a lata de dizer e mais, o atrevimento de vir ensinar a pescar.
Tenha juízo. Pegue em si, vá ao Ikea, compre um banco. Pegue nele e vá até às Berlengas ser treinadora de gaivotas.
Tivesse eu idade para ser sua mãe, e dava-lhe uma valente bofetada nessa cara.
E desculpe senão entendeu a metáfora da pesca, é que tal como a senhora diz... nós portugueses devemos muito à inteligência.

Cumprimentos,
A mulher que nunca leu Margarida Rebelo Pinto

segunda-feira, Novembro 04, 2013


Escada de tábuas.
Não. Era granito. O corrimão, sim. Era de madeira.
Colaterais. Glaciais. Austeros. Degrau. Um. Degrau. Três. Degrau. Cinco.
E enquanto subia. Nos ímpares. Que eram os dias. Mirava pelo ombro.
Não pela quina da retina. Por cima. Do. Ombro. De alça fina. Comedida. Centrada.
E é assim que se governa uma alma. Focada nos dias pares. Distraída nos dias ímpares. Porque são assim as distracções. Reles. De tão boas que são.
A escada toma forma. A nossa. A tua. A minha. Alma. Densa. Sem corrimão. De braços abertos. Espreguiçados. Escada acima.
E entre andares. Dança.
Despe-te se for preciso. Vá. Dança, porra!
É dever dos arquitectos fazerem alpendres para dançares. Dança. Dança contigo. Espreguiça-te à vontade. Para lá das assimptotas.
Arrebenta com cada osso. Vá. Foda-se. Arrebenta com todos os ossos.
Deixa ficar só a Alma. No alpendre a dançar. Sem música. Sem nada. A. Nu.
Eu disse a nu.
Despe-te. A dança é tua. Que se foda se estão a ver.
Corre. Corre. Corre. Atrás de ti mesmo.
Deixa a roupa. Ficou lá atrás. Continua a correr. Sente cada osso.
Ainda sentes os ossos? Eu disse-te para rebentares com todos.
Continua a correr. Sente a sola do pé. É pó. É alcatrão. É calçada.
Pára. Pára agora!
E dança outra vez. Que importa se é ré sustenido ou si bemol. Não há música.
És só tu.
E o alpendre.
E é tão bom não é?

E é assim que se governa uma alma. Focada nos dias pares. Distraída nos dias ímpares. Porque são assim as distracções. Reles.
De tão boas que são.

terça-feira, Outubro 15, 2013

Lamentavelmente não tenho saudades tuas.
O que é lamentável para ti.
Agora coloca esta frase no pretérito imperfeito.
E terás o meu sorriso rematado.

terça-feira, Agosto 13, 2013

Seja por oxigénio. Por aquela pedra da calçada. E aquela viagem que nunca fizeste. Por aquele vizinho que assobia à janela. Pelo teu irmão. Pelo trabalho. O oceano. A areia que não foi parar à duna. O caminho que parece não ter canada certa.... Aquela bebida ao fim do dia. O entardecer do deserto. O amanhecer na ilha. E aquele abraço sem agenda. Um quadro. Uma lágrima pela tela abaixo, deixa que escorra pela parede. É tua. Apaixona-te. Mas apaixona-te a sério. Como se querem as paixões. Inteiras. Com o coração todo. E segue. Segue. Segue. Seja o que for, se te faz sorrir, não é pecado. E se for, que seja. Há pecados tão bons, é ou não é? Ah pois é! Segue. Segue-o sempre. Porque ele é teu. Só teu. Teu. Teu. Teu. Até ao limiar de cada célula. De cada veia. De cada batimento. Segue-o. Pára. Ouve. E depois segue. Segue como se não houvesse amanhã. Dança ao som de cada pulsação. Abana a anca. E Segue-o. E ri. Mas ri a bom gargalhar, às vezes ele precisa disso. Distrai-TE. Mas não percas o autocarro!
 
 

domingo, Agosto 04, 2013

Às vezes temos sonhos. E ninguém acredita neles.
É como ir à Lua. Era absurdo, e foram.
Gosto muito quando são absurdos. Gosto tanto!
Só os cobardes acham os sonhos absurdos.
Se os tens. Sonha.
E se os tens com eles bem no sítio. Então. Acredita e Faz !

quarta-feira, Julho 17, 2013

Hannah




Não gosto de me guiar por mapas.
Nem por agendas. Nem ponteiros. Tic tac’s só no miocárdio.
Também não gosto de gestos previamente ensaiados. Arquitectados.
Gosto de impulsos.
Do imprevisto. O que eu gosto do imprevisto. Junto com impulsos.... Gosto tanto.
Foi num desses impulsos do imprevisto, ou ao contrário também dá, que conheci Hannah.
Senhora de um quê de dissemelhante. Sentada num banco de madeira, lia o jornal sobe os graus negativos que se faziam sentir. Retina grande. Antiga actriz de teatro dos anos 60.
Nos sapatos de sola fina, a imagem da maschera nobile. Curiosos aqueles sapatos. Como curioso era tudo em Hannah.
Chamou-me para dentro da sua loja. Trajes e mais trajes do outro século e ainda do outro. Parecia que estava dentro duma máquina do tempo. Sublime, verdadeiramente sublime aquela loja no meio daquele beco perdido com aquela senhora de conversa agradável.
Conversamos sobre a Grécia antiga, sobre filosofia e também sobre sentimentos.
Curiosa esta vida de pessoas qua ainda vão tendo a coragem de serem diferentes, de terem aquele charme tão eloquente do que é intenso e bonito.
Hannah conhece Lisboa, e o que mais gostou foi da ladra, que se diz feira. E da vista. E do Tejo. E do mar.
Combinamos a ausência de informática para a troca de partilha do clicar. Este segue por carta, assim como uma concha, deste mar que é tão nosso.
Hannah foi de um enorme prazer conversar contigo e partilhar um pouco da minha estranheza.
E é por isto e por outras tantas coisas, que uma pessoa mesmo que viaje sozinha, nunca está sozinha. Existem pessoas fantásticas em cada esquina.
À nossa espera.
No imprevisto.
E eu gosto tanto disso.
Improvisa

[Na ardósia | https://www.facebook.com/numarua | uma citação de Rumi, filósofo preferido de Hannah | Amesterdão ]

quinta-feira, Julho 11, 2013

Pisca Pisca


De vez em quando, há que dizer: Que se f*da. Ou para os mais tímidos que se lixe.
Que se lixe, dá liberdade.
A liberdade. Insanidade.

E às vezes. Tão meticulosamente. Às vezes. É o que basta.

Insanidade. Bem ou mal, tudo o que vale realmente a pena. Tem aquele doce e salgado toque de insanidade. Há quem chame de sensualidade, atreve-te. E pisca o olho à vida ;)


Ou já morreste?

segunda-feira, Julho 08, 2013

Eleições


Já era de noite em São João dos Angolares, na costa leste da ilha de São Tomé, distrito de Caué.
Noite cerrada, quase sem lusco-fusco. Eu vinha do lado da capital, Cristopher do interior, da mata, esteve todo o dia a fotografar insectos, e nem se apercebeu que naquele domingo tinha sido as eleições. Mas sobre Cristopher, filósofo Holandês, partilho noutra altura.
As eleições em África é qualquer coisa de não descritível. É ir lá. E ver. Os cidadãos são premiados com dinheiro... ou até motos, pelo voto. E quando vão votar levam um carimbo na mão, para que os apoiantes dos partidos saibam que aquela pessoa já votou e assim fazerem o que têm a fazer das piores maneiras.
É impressionante o quanto o iletrismo, é um factor importante para estes políticos, já dizia não sei quem, que o pior inimigo de um político é a sabedoria do povo. Fora da capital reina o iletrismo e todas as más consequências deste.
À medida que fui descendo aquela canada cor da terra que só África sabe ter… várias crianças vieram ao meu encontro, só queriam um abraço, um colo. É. Só queriam um colo. Passei o centro da vila com onze crianças. Uma em cada dedo da minha mão, e ainda uma outra agarrada à minha cintura. É provavelmente uma das melhores imagens e sentimentos que tenho das minhas viagens, e também, das minhas memórias. Porque são daqueles sentimentos que não se descrevem. Não há adjectivos. Léxico que chegue. Sente-se. E pronto. E basta.
Quando paramos na praça, um homem dos seus trinta anos, encostou uma arma à minha cintura e diz: “Só passas desta praça com vida, porque estás com as nossas crianças. Uma branca, sozinha aqui em dia de eleições. Ou não sabes o que se passa, ou estás a armar-te em valente.”
Eu sabia exactamente o que se passava. Mas arrisquei. Confesso, quando senti o cano da arma na cintura, tremi. Suei. Mas sorri e só disse. Estou na paz, só vim dar uns quantos abraços às crianças. Ele retirou a arma da minha cintura, colocou-a em cima do ombro e disse, tens uma hora para sair daqui. E eu tive mais um dia. Quem me deu almoço no dia seguinte? A família desse homem. A vida tem coisas fantásticas. Não tem?

[ No clicar, algumas das onze crianças]



segunda-feira, Julho 01, 2013

Disse

Aproxima-te.

Foi o que ele disse. Encostado ao armário de madeira. Pernas cruzadas, o corpo virado para leste. Dizia que era como as corujas. Sempre pousadas para Leste. Onde há iluminação. E sim, disse ele. E lá ao fundo da sala. No canto leste. Aquele canto, o mesmo que tantos silêncios já ouviu. Partilhados. Fundos.

Aproxima-te.
E ela na poltrona. Encostada ao manto vermelho. Ligas pretas, o corpo virado para Norte. Dizia que era como as serpentes. De nortadas. Ousadas. Onde há talvez a escuridão. E sim, disse ela. E lá do outro lado da sala. Do canto Norte. Aquele canto, o mesmo que tantos gemidos já ouviu. Partilhados. Fundos.

Eu disse, aproxima-te. Não ouviste?
Cruzou os braços. Acendeu um cigarro. Tirou os olhos do chão, olhou a poltrona. E ela de costas. No vermelho. Do pecado. O corpo apenas com aquelas ligas pretas.

Entre luz de Outono. Da janela do canto sul. Fim de tarde. De dourados.

Aproxima-te.
Disse ela. Descruzando as pernas. Aliviando a liga.
Tocava um piano. Lá fora. Tinha cauda. Sem músico. De pautas.

Tocou-lhe na face.
E não se aproximou. Disse ele.
Com ela.

quarta-feira, Junho 19, 2013

Números

Senhor Ministro Crato

Sou muito sincera… pouco ou nada percebo de política, mas uma coisa sei, o senhor e todo o seu ministério, colocam dia após dia, em causa o amor e o respeito que alguns professores têm pela profissão.

... Em nenhum dos seus discursos oiço, que é preciso acreditar na inovação, nos professores, nos alunos e no ensino enquanto veículo de crescimento pessoal, intelectual e humano.
Desculpe, mas o que o senhor está a fazer não é inovação, é parvoíce. A roçar a desumanidade.

Todos somos humanos, todos devemos um terno e eterno respeito, pelo que nos rodeia. E assim como temos devemos respeito, também o merecemos. Nunca em nenhum dos seus discursos, ouvi a palavra amor. Ou acha que com nove anos de ensino senão fosse por amor que continuava? O seu motorista ganha muito mais que eu, tenha juízo. E já agora senão for pedir muito… tenha coração.

O senhor é matemático. Mas também é estatístico. Sabe, houve uma vez que ouvi um grande matemático da nossa praça, afirmar que a estatística não é considerada matemática. Concordo. Porque a matemática é bonita… e o senhor só quer saber de estatísticas… de teorias probabilísticas….de.. algumas incertezas para que alguns pensem que você é a própria certeza.
Num dia destes, vi-o. Tinha um ar altivo, olhar vazio, sempre de mãos fechadas. Não fosse eu saber que o senhor era o senhor, e nunca diria que você é professor.
Oh... desculpe. Afinal era mesmo você. O politico.
Espero de coração, que num destes entardeceres, abra as mãos, sinta humildade... e encha a retina.
É que eu se estiver de ar altivo, olhar vazio e mãos fechadas... afecto mais de uma centena de alunos... você afecta milhares deles.
E nem que afectasse apenas um. Esse ‘um’ não é um número. É um ser humano.

Cumprimentos
Estranha Pessoa Esta

sábado, Maio 25, 2013

Convite

Houve uma vez que casei-me.
Fiz convites. Convidei a malta e foi um tal churrasco a tarde toda. Até prendas recebi. Calçava ténis.
Hoje descalça. Pensei. Porque raio é que a malta atura aqueles estupores que vão para os funerais chorar e aiii e tal e coiso que era tão boa pessoa. E depois vai-se a ver parava na mercearia da esquina a falar do dito cujo que era isto e aquilo e o mais que fosse. Mas...
hoje? Ahhhh hoje que morreu, já era tão boa pessoa.
Pois eu quero que esses choros insípidos todos se f*dam. Como tal, no meu funeral só vai quem me apetecer.

E se de repente aparecer na tua caixa de correio um convite para um funeral. Não estranhes. Foi a estranha que faleceu. Sorri. É sinal que tens tomates.

Obs.: Aparece descalço.

sexta-feira, Maio 17, 2013

Linha



No próximo apeadeiro deita a mala fora. Não esperes pela estação, ela pode não chegar.
Tira a gravata. Tira tudo. Tudo o que te sufoca. Que te prende. Que não te abrace.
Tira. Fica a nu. Completamente a nu. Sem medos. Eriça-te.
Abate o que...
te estrangula. Tau. Mata isso. Enterra e faz cócó em cima.
Caga de alto para as recordações menos boas. Ou então pega nelas apenas
solidificar a tua ‘coluna’ e dares valor… aquele valor... ao que merece realmente a pena.
Aquelas recordações, mala cheia de autocolantes, sítios, pessoas, passagens, ora metade cheio, ora metade vazio. Se tinhas uma destas com um cinto castanho, e apertavas o cinto conforme as sensações, e um dia apertaste tanto tanto mas, tanto… que esqueces-te de sentir, guardavas tudo e no fim não vivias nada. Hoje, sim hoje orienta-te e fica sem mala. Arranja antes um bolso… Eu cá gosto de bolsos, daqueles pequenos como eu… guardo o necessário para respirar..
E o resto dou ao vento..
Saio na próxima estação.
Gosto de estações… as malas grandes só servem para apeadeiros.

terça-feira, Maio 14, 2013

Manda a vida à real merda

Manda a vida à merda. Como se manda no teatro. Manda a vida à merda, como quem corre desenfreadamente pela rua à procura de uma qualquer taberna aberta para arreares daquilo que estás à rasca. Manda realmente a vida à merda. De joelhos serrados contra a parede de um qualquer cais do Sodré. Mas é que manda mesmo. A vida. À real merda. Antes que ela te mande a ti.
Bate a porta. Estende o tapete. Dei...ta-te nele e a seguir levanta-te. Olha-a nos olhos, essa puta que finamente se diz prostituta. A vida. Encara. Vá, porra. Não ouviste. Encara-a. Puxa-a por um braço, encosta-a contra a parede e manda-a à merda.
E a seguir até podes morrer. Mas deixa-te de ‘paneleirices’, e estendidelas no sofá. Levanta-te e renasce. Ou nasce. Ou inventa-te. E a seguir, bebe uma cachaça se preferires. Bate com o copo. No balcão, na calçada quero lá saber. Desde que a mandes à merda. Mas manda.
A valer. Não vale meias medidas, contidas. Tímidas espreguiçadelas. Quem tem medo compra um cão. E quem não tem manda a vida à merda.
Porque só depois disso. Dessa real gana orgástica, se pode viver. Até lá caga. Mas caga bem. Na morte do insípido. Dos quase tudo e assins assins.
Que raio é isso do assim assim?
Ou é ou não é, agora cá merdas.

domingo, Maio 05, 2013



Há quem diga que o certo, é o usual.
Meus amigos, permitem-me discordar.
Não sei se é certo… mas, que o inesperado é bom!
Lá isso é!
Se é certo ou errado… eu não sei!
Mas, na próxima vez que cruzares comigo na rua.
Faz-te Rua!
Que é como quem diz.. faz-te inesperado!
É que eu cá gosto, é das coisas erradas…
Nada usuais, portanto!
‘Inespera’!
… Que é só assim, que me vais fazer nada usual…
E eu sei, que também não gostas das coisas banais..
Faz-te Rua!

Aqui para nós… andas um pouco banal, não andas?

É que eu ‘conheço-te’ errado…
Faz-te um favor, e Apalpa-me os Sentidos!

domingo, Abril 07, 2013

Sacrista

Sacrista.
Era assim que o meu avô me chamava quando eu fazia perguntas… daquelas.
Quando eu estou assim, sem saber se sigo para bombordo ou para estibordo. Sento-me junto do oceano, e tento sentir essas nossas conversas.
Houve uma vez numa corrida entre o Baleal e Peniche, em que páramos para descansar à beira-mar, daquelas marés baixas que deixam todo o areal a descoberto.
Entre um sorriso e um ...
olhar, disse-me:
Sacrista, quando não souberes para onde seguir, quando não souberes se deves correr devagar ou de pressa, ou de parar. Quando não souberes se é certo ou é errado. Chora. Mas chora tudo, e depois levantas-te e sente o teu coração. Na dúvida escolhe o risco, a vida não tem graça apenas com certezas. Na dúvida entre a cabeça e o coração, escolhe sempre o coração. Porque depois mais tarde, quando parares. Podes desculpar-te tudo a ti mesma, menos o que não fizeste com medo de ser errado. A tua cabeça pode desculpar-te, mas o teu coração não. E tu, o que tu és, o que é uma pessoa é coração.
Hoje. Sentei-me na maré. Fechei os olhos, senti o sal. E decidi. O coração.
E aposto, que o meu avó, fez aquele sorriso de esguelha e disse…. Sacrista… Sacrista… tu não escolheste o mais fácil.
E aposto que ele ouviu-me a responder…. E quem disse que o coração era fácil? Por isso é que vale a pena, não é ‘vô?

terça-feira, Fevereiro 26, 2013

domingo, Fevereiro 24, 2013

Esperança


Estava cansada. Naquele dia não tinha conseguido boleia, estava no interior da ilha e queria chegar antes de anoitecer à capital. Depois de uma longa caminhada, cheguei à cidade pelo entardecer. Deambulava pela marginal, sentia aquele por de sol…. Aquele que só África sabe ter.
Zezito estava sentado sobre uma embarcação. De pernas cruzadas, olhar no horizonte. À sua direita a irmã. Na areia dois amigos, faziam malabarismos e sobre o areal. Pinos e mais pinos. Sentei-me perto... do Zezito. Perguntou-me o que eu fazia ali sozinha. Disse-lhe que tentava respirar. Sorrir. Viver.
Zezito tem dez anos, mas um discurso coerente, pausado. A mãe, Esmeralda, vende tecidos no largo do mercado. Se viermos de norte, fica do lado esquerdo, no muro perpendicular ao mercado.
Pergunto-lhe do país, do seu país… o que ele gostaria de mudar. Zezito responde, a escola. Uma escola para todos e não apenas para os que são amigos dos políticos. Foram as suas palavras. Assim. A seco.
Depois da escola e em muitos dias, na hora da escola. Zezito pega num carrinho de fazer pipocas e vai vender para o tal largo do mercado.
Sempre que falava comigo, não descuidava dos movimentos da irmã. Chamando quando a menina ia para a beira da estrada, ou se tentava ir para o mar. Diz-me que é assim, que ele tem que cuidar da irmã, porque a mãe é meio… descuidada e que às vezes esquecia-se um bocadinho deles.
Zezito pergunta-me o que tenho dentro da mochila, digo-lhe que tenho alguma roupa, uma ardósia e uma máquina de tirar fotografias.
Gostava de escrever uma mensagem para Portugal na tua ardósia, deixas-me? E eu deixei.
“Pai eu quero que você venha a S.T. por favor eu quero te conhecer e você quando me conhecer vai ficar feliz. Tu és bem vindo a S.T.” Zezito Frota
Aquando a gravidez de Esmeralda, o pai de Zézito rumou a Portugal. Quando conheci o Zézito estas foram as suas palavras: "Filipa quando fores a Portugal, olhas para todos os homens e o que tiver a minha cara é o meu pai, e o que tiver a minha cara é o meu pai, e mostras esta fotografia." E num sorriso ainda diz "Quando ele me conhecer vai ser feliz".
Pelo bonito ser humano que Zezito é, merecia mais que um grande abraço meu. Convidei-o para almoçar no outro dia. Zezito aceitou mas com uma condição, que o almoço tinha que ser também para a irmã.
Digo-lhe que tenho pouco dinheiro, expliquei-lhe que não consigo levantar dinheiro no país, que só existe uma caixa multibanco no hotel grande da cidade, e que estes não me deixaram entrar.
Zézito diz que não quer que eu gaste dinheiro com eles. Explico-lhe que faço todo o gosto em levar-lhe a um restaurante, a ele e à sua mana. Zezito sugeriu que pedíssemos apenas um prato e que dividíssemos a comida por nós três.
No outro dia, a meio da manhã encontrei o Zezito no mesmo sítio, na mesma embarcação. Tornou-me a lembrar para não me esquecer da fotografia, e do pai. E que gostava que o pai fosse feliz.
Zezito, és tão grande meu amigo. Tão grande, e às vezes nós somos tão pequeninos. Como pequeninos foram as pessoas que estavam no restaurante. Não queriam o Zezito e a mana no restaurante. Porque estavam sujos, e porque não sabiam comer com talheres. Respondi-lhes qual era a diferença entre mim e as crianças. Visto eu nesse dia, ter dormido na rua, não ter tomado banho, e que se me apetecesse comer com as mãos, comia. Lá cederam. O Zezito não queria entrar, quase a chorar disse-me que não queria que eu ralhasse com as pessoas por causa deles.
Expliquei-lhe que às vezes uma pessoa tem que ralhar com as outras, para as outras relembrarem que somos todos iguais. Todos com o sangue vermelho e um coração.
Foi mais difícil de convencer Zezito a entrar no restaurante do que convencer as pessoas que o Zezito e a irmã tinham todo o direito de estar ali.
Zezito nunca tinha ido a um restaurante.
Sentou-se. Levantou-se de seguida, pegou a irmã pela mão, e dirigiu-se à casa de banho. Esteve largos minutos a lavar a cara e as mãos. Dele e da irmã.
Pedimos carne grelhada. Arroz e batatas fritas. Dividi por nós os três. Disse-lhes que podiam comer à mão, ou se quisessem eu ensinava-os a comer de talheres. Mas o frango meus amigos, sabe mesmo bem é mão. Seja na Europa, em África, em casa ou num restaurante.
Antes de comer, Zezito pegou nas nossas mãos e pediu-me se podia fazer uma oração. Acenei que sim: “Deus obrigada por esta comida, e pela Filipa.” E eu, confesso que chorei. Com o coração todo.
Obrigada eu, Zezito. Por existires. Por seres quem és. Por teres esse coração do tamanho deste e do outro mundo.
Partilhem a fotografia do Zezito. Façam-na correr este mundo e o outro.
O sonho desta criança é conhecer o pai que nunca viu.
E num sorriso ainda diz: "Quando ele me conhecer vai ser feliz".
O impossível às vezes acontece.
E quando acontece, é tão bonito.

segunda-feira, Fevereiro 11, 2013

Abraço|s


Já era de noite em  São João dos Angolares, na costa leste da ilha de São Tomé, distrito de Caué.

Noite cerrada, quase sem lusco-fusco. Eu vinha do lado da capital, Cristopher do interior, da mata, esteve todo o dia a fotografar insectos, e nem se apercebeu que naquele domingo tinha sido as eleições. Mas sobre Cristopher, filósofo Holandês, partilho noutra altura.

As eleições em África é qualquer coisa de não descritível. É ir lá. E ver. Os cidadãos são premiados com dinheiro ou até motos, pelo voto. E quando vão votar levam um carimbo na mão, para que os apoiantes dos partidos saibam que aquela pessoa já votou e assim fazerem o que têm a fazer das piores maneiras.

É impressionante o quanto o iletrismo, é um factor importante para estes políticos, já dizia não sei quem, que o pior inimigo de um político é a sabedoria do povo. Fora da capital reina o iletrismo e todas as más consequências deste.

À medida que fui descendo aquela canada cor da terra que só África sabe ter… várias crianças vieram ao meu encontro, só queriam um abraço, um colo. É. Só queriam um colo. Passei o centro da vila com onze crianças. Uma em cada dedo da minha mão, e ainda uma outra agarrada à minha cintura. É provavelmente uma das melhores imagens e sentimentos que tenho das minhas viagens, e também, das minhas memórias. Porque são daqueles sentimentos que não se descrevem. Não há adjectivos. Léxico que chegue. Sente-se. E pronto. E basta.

Quando paramos na praça, um homem dos seus trinta anos, encostou uma arma à minha cintura e diz: “Só passas desta praça com vida, porque estás com as nossas crianças. Uma branca, sozinha aqui em dia de eleições. Ou não sabes o que se passa, ou estás a armar-te em valente.”

Eu sabia exactamente o que se passava. Mas arrisquei. Confesso, quando senti o cano da arma na cintura, tremi. Suei. Mas sorri e só disse. Estou na paz, só vim dar uns quantos abraços às crianças. Ele retirou a arma da minha cintura, colocou-a em cima do ombro e disse, tens uma hora para sair daqui. E eu tive mais um dia. Quem me deu almoço no dia seguinte? A família desse homem. A vida tem coisas fantásticas. Não tem?

[ No clicar, algumas das onze crianças]

[Mãe, se leste este post, desculpa qualquer coisa, mas eu gosto é de viver assim]

terça-feira, Janeiro 29, 2013

Senhores Doutores



Carta a todos os fidalgos que mandam e mandaram, e que de certa forma continuam a mandar, nesta vossa, que deveria ser nossa nação.

Caríssimos,

Falemos de recordações, falemos da infância. O meu avó tinha a segunda classe, se tanto. Descascava pêssegos como ninguém. No verão, após o almoço, ia até ao pomar e trazia-me o melhor pêssego da árvore, pegava na navalha que religiosamente colocava todos os dias no bolso das calças, no outro bolso tinha um lenço, daqueles de caris...ma. Do tempo.
E enquanto descascava o pêssego, contava-me da importância de nós próprios sabermos descascar um pêssego, assim como de o plantar. E cuidar. É como aquela história, é mais importante ensinar a pescar, do que dar o peixe.
O meu avô ensinou-me entre outras coisas, a importância do trabalho, da humildade, e do aprender a fazer. De lutar sem passar por cima dos seres-humanos.
E vejam vocês lá bem. Que o António não completou a instrução primária. Não é magnífico?
Vocês que completaram a instrução primária, que fizeram o ensino básico e secundário. Foram para a universidade tirar Doutoramentos e isto e mais aquilo, e não aprenderam o respeito, a humildade, o civismo.
E depois com uma cara de pau, ainda exigem serem tratados por Senhores Doutores.
Doutores há nos hospitais, e vocês deviam era trabalhar no ferro velho. Tamanha é a lata com que andam para aí a existir dia após dia. Sim, existir. Porque isso meus amigos, não é viver. É limitarmo-nos a existir.
Como é que vocês podem mandar num país, quando não conhecem a realidade do país, quando não sentem o povo no seu conjunto como sendo cada cidadão um ser humano, e não um número. Isto é como tudo, um patrão não pode descer as escadas do escritório e ver o que se passa com os empregados só na altura de exigir horas extras. Quem não sabe trabalhar, não pode mandar. Esta por acaso não foi o meu avô que me ensinou, foi o filho dele.
Politiquice é diferente de Política, e vocês, meus senhores o que fazem são politiquices. Uma semi-política a roçar o ridículo. A roçar. Atenção, não toca. Porque o ridículo, quando usado com um certo charme, até tem muita graça. E os senhores não têm gracinha nenhuma, lamento.
Mas não lamento por vocês. Lamento pelos adolescentes que têm de trabalhar à noite porque os pais têm quarenta anos e já estão velhos para trabalhar, lamento pelos idosos, que ou têm dinheiro para a comida ou para a farmácia. Lamento por todas as famílias que não têm euros para pagar as contas da água, da luz, da mercearia. Lamento por todos os seres humanos que são boas pessoas e que têm que passar por dificuldades. E pela mãe que vi hoje a chorar porque não tinha como colocar comida para os três filhos que tem em casa. Lamento por todos as mães deste país. Lamento todos os meses descontar para vocês andarem a fazer sabe-se lá o quê. É que se eu descontasse para haver melhor educação, melhores hospitais, cantinas socias…. Era uma coisa e até sorria ao dar-vos os euros. Agora isto?
De coração, e sem qualquer tipo de sarcasmo, lamento pelos vossos avôs. Porque aqui bem dentro do meu miocárdio, acredito que vocês também tiveram um avô que descascava pêssegos como ninguém, e que vos transmitiu certos valores. Aqueles que não se vêm. Mas valem tudo.
Falemos de infância. E de recordações. E daquela vez que o meu avô disse para nunca me apaixonar por um político. Que era a pior raça de homens que existe. O que ele se esqueceu de dizer, é que mesmo que não esteja apaixonada por nenhum político, que tinha que sustentar não sei quantos deles, todos os meses. 



Cumprimentos aqui da vossa namorada,


 Estranha pessoa esta

terça-feira, Dezembro 04, 2012

Roer


A minha avó foi educada assim, a aguentar tudo, até a fome. Fome de alimento, fome de vida, fome de alma….  E, mesmo assim exigiu o divórcio, tinha mais de seis décadas de vida.
O machismo existe. Ponto. E toda a gente fala dele. E qualquer mulher em qualquer lugar do mundo já o sentiu. Na pele, na alma, nas entranhas.
Existe, porque tem que existir…. Faz parte, dizem todos.
Existe, porque efectivamente nós mulheres deixamos a coisa andar porque temos mais que fazer à vida, e somos fortes, e aguentamos tudo.
Nós mulheres, não temos que aguentar tudo, temos sim, que aguentar apenas o que queremos aguentar.
Nós mulheres, com éme daqueles grandes, daqueles émes de tomates até ao chão, podemos aguentar muita coisa, mas não o machismo.
Aquele machismo estúpido, arrogante, iletrado… completamente ignorante de todas as leis cívicas.
Porque fomos aclimatadas a que o homem se sente no topo da mesa, porque fomos costumadas, a que o homem desse a última palavra, porque fomos habituadas a que os homens violentassem as mulheres, e nós caladas. Na dor. Porque sim! Porque parece mal dizer aos seres humanos do nosso metro quadrado, que fomos violentadas. Humilhadas. E às vezes, existem as mulheres que têm coragem, e assumem. ‘Fui violentada’. Consequência do metro quadrado, o abandono.
E depois é um ciclo, uma bola de neve. E calam-se. Com medo. Daquele medo que nenhum vocábulo ocidental nem oriental sabe transmitir. Que nenhuma lágrima sabe espelhar. Porque é uma dor muito nossa. Que rói e rói. E mesmo depois de tudo ruido, torna a roer.
A minha avó pediu o divórcio tinha se calhar perto de sete décadas.

E foi aí. Que passou a roer. A vida.

 

terça-feira, Novembro 27, 2012

Comunicado à população em geral e em ninguém em particular

No outro dia a puxar para a madrugada, publiquei aqui no estaminé um texto cujo título dizia qualquer coisa como 'Maldita Cocaína, pôs-me o sangue cor de rosa'. Ponto um, este estaminé é da estranha pessoa esta. Só - Estranha pessoa esta. Mulher, ser humano. Ponto final. Parágrafo. Não é um estaminé educacional nem tão pouco científico....
Ponto dois, escrevo desde 2006 em vários blog's, tendo textos publicados não só em formato digital como em ... como se diz, papel. Porque me apetece, porque gosto, porque me dá prazer. Escrevo das entranhas, da alma, do miocárdio, escrevo o que me dá na real gana e a saltar a aorta. Se levam a mal ou a bem, pouco me interessa, nem tenho nada a ver com isso. Se a malta leva a mal, só tem dois trabalhos, levar a mal e deixar de levar. Ponto três, existe umas coisas que se chamam 'figuras de estilos' entre essas figuras, existe uma coisa engraçada de nome 'metáfora'. No texto a cocaína é meramente metafórica. Ponto quatro, o que interessa mesmo é o sangue. Ponto cinco, não me macem com merdas que isto e aquilo e vens para o facecoiso dizer de cocaínas. Por amor à santa.... não me lixem a paciência que ela já é tão pouca. Último ponto e não menos importante, drogo-me de insanidade, com muitos gramas de emoção. Há que prazer dos diabos é esta ressaca de diferença. Este orgasmo de demência.
Bom dia e até logo. Se a cocaína deixar e o sangue cor-de-rosa quiser.

terça-feira, Novembro 20, 2012

Bom|bordo

Um dia o meu avô disse-me para nunca confiar em pessoas que jogam às cartas sem bater com o punho na mesa. Metaforicamente falando, nunca se deve confiar em ninguém que não tenha pelos nas ventas.
Ordinariamente falando, quem muito manso é, poucos tomates tem.
Gosto de hortas com classe. Daquelas de canas espetadas na terra sem espantalhos de faz de conta.
A vida é curta. E o meu guarda-redes não tem linhas de baliza.
O que tudo isto quer dizer? Está o Bugio a estibordo. Que se lixe o bombordo.
Uma coisa é ter colete salva-vidas. Outra é nadar a cru. A. Nu. E isso… bem, isso tem a modos que muito mais graça.

quinta-feira, Novembro 01, 2012

iogurte

Hoje lembrei-me do deserto turco. Porque ontem foi daqueles dias que apetece mandar tudo para a p*ta que pariu, pegar na mochila, ir até a um qualquer porto ou aeroporto e meter-me na real. Na real alheta. Que porra de saudades tenho eu disso. Chega a doer cada entranha de cada ossinho do meu organismo.
Porque às vezes uma pessoa tem que fazer esse exercício. Ir buscar lá ao fundo da memória bon...
s lugares, bons cheiros, bons sabores, boas vivências para seguir em frente. E hoje em particular, o que fui buscar…. foi o deserto.
Aquela imensidão de nada do lado esquerdo, e aquelas montanhas cheias de neve , naquelas cumes que tocavam o céu. E depois… bem depois é aquele entardecer de cores ora mansas ora a transbordar de laranjas, amarelos, roxos azulados que passavam pelo deserto a fora e só paravam na neve. E era Páscoa. Num domingo. Daquele da ressurreição. Metáforas interessantes que a vida nos dá, portanto.
No meio da estrada que atravessa esse deserto, estava lá um dia… um puto franzino, de cabelos negros e olhos colossais, a vender iogurte de sementes de papoila. Há coisas estupendas na vida. E comer iogurte de papoila no meio de um deserto é sem dúvida uma delas. Isso e comer tremoços na tasca do Ti Alberto da Ajuda, daqueles mesmo cheios de sal que faz um qualquer tec tec na ponta da língua.
E a vida tem que ser mesmo isto. Tec’s tec’s . Saborear cada iogurte de papoila, cada deserto, cada entardecer… e no meio disto tudo colocar na ponta da língua cada sal e pimenta ao exagero. Daquelas malaguetas bem picantes. Que até fazem saltar a retina. Porque cá de merdas insonsas já nos basta tanta e tanta coisa. E se os outros querem ser insonsos, desistentes. Que sejam. Quero lá eu saber. A escolha, é deles. A minha é seguir. Saborear. E siga. Siga. Siga. Sigaaaaa. A uivar. O risco. Porque sem risco, não há bom tempero. E sem bom tempero a comida fica a modos que mal amanhada. Como diriam lá na ilha: Áquela não sejas discreta e segue a canada. A tua canada.
E se passares por mim. Dá-me a mão. E. Traz sal. E piri-piri. Que do iogurte trato eu.

quarta-feira, Outubro 17, 2012

Cais do Sodré


Manda a vida à merda. Como se manda no teatro. Manda a vida à merda, como quem corre desenfreadamente pela rua à procura de uma qualquer taberna aberta para arreares daquilo que estás à rasca. Manda realmente a vida à merda. De joelhos serrados contra a parede de um qualquer cais do Sodré. Mas é que manda mesmo. A vida. À real merda. Antes que ela te mande a ti.

Bate a porta. Estende o tapete. Deita-te nele e a seguir levanta-te. Olha-a nos olhos, essa puta que finamente se diz prostituta. A vida. Encara. Vá, porra. Não ouviste. Encara-a. Puxa-a por um braço, encosta-a contra a parede e manda-a à merda.

E a seguir até podes morrer. Mas deixa-te de ‘paneleirices’, e estendidelas no sofá. Levanta-te e renasce. Ou nasce. Ou inventa-te. E a seguir, bebe uma cachaça se preferires. Bate com o copo. No balcão, na calçada quero lá saber. Desde que a mandes à merda. Mas manda.

A valer. Não vale meias medidas, contidas. Tímidas espreguiçadelas. Quem tem medo compra um cão. E quem não tem manda a vida à merda.

Porque só depois disso. Dessa real gana orgástica, se pode viver. Até lá caga. Mas caga bem. Na morte do insípido. Dos quase tudo e assins assins.

Que raio é isso do assim assim?

Ou é ou não é, agora cá merdas.

quinta-feira, Outubro 11, 2012

Des|alinhamentos

Secou a terra num ano, minto. Foram em dois.
Ou três. Não interessa.
Por necessidade. Por maldade. Por sei lá o quê.
Não me perguntes a mim, que apenas estou a contar.
Pergunta antes a ele. Se o encontrares.
Matou-se.
Ouviste? Ouviram?
Foi a corda a estalar.
Inutilmente a instalar.
Infantilidades. Sólidas. Facilidades.
Exigentes, estes afectos?
Não senhores.
Meticulosos os gestos, porque simples é o coração.
Beija a alma, o saber abraça.
Como quem baila ao domingo que foi feriado.
Folgado de ambições. Paixões. Tudo acabado. Em ões.
Ironia os embriões de sentimentos. É? Ou não é?
Se calhar não é.
Mas eu apenas estou a contar. Se ‘o’ vires, virem, pergunta, perguntem a ele.
Ontem não era assim. Hoje, madrugada já é.
Porque estala. Estala a corda neste tecto de venetas barrentas, ensanguentadas, asfixiadas de mecanismos.
Roldanas baratas.
A alma quer-se cara e de fuças lavadas.
A alma quer-se assim sem tectos, lares, amparos de rendas fáceis.
Empresta-me o teu sorriso, disse ele.
Banco de juros altos, empréstimos de valores acrescentados.
Prefiro o internamento.
Depois. Atrevi-me. Atrevo-me a tudo.
Não foram topologias. Pois não existiam vizinhanças.
Quando se remexe o estômago prepara-se a próxima refeição.
Mas quando se remexe as vísceras todas, de parede a parede, a raspar cada grelha, brecha, greta, racha, prepara-se a asma.
Porque quem morre respira. Quem vive é asmático.
Profundamente asmático de si mesmo.
Não falo de gentes, sim de heterónimos. Os nossos.
Esgotos. Mas são veias, como se entrássemos dentro de cada uma delas, nus de tudo.
De sensações,impressões e tocássemos com as costas da mão nesses tabiques. De mergulho. Sem palmas. Mas sem arrancar nada. Passar só. Sem fazer comichão.
Sem desesperos. Melancolias.
Sem nos habituarmo-nos a nada. Porque queremos logo tudo.
E chega-se lá acima. À serenidade.
Mas cansa. Esta serenidade, não cansa?
Não que não cansa, ah pois cansa.
Desconforme o teu o teu bombordo, alinhas o meu bombordo. E fica-se pelo cais.
É essa a serenidade, que cansa.
O alinhamento cansa. Fatiga. Morre-se. É. Pode-se morrer no alinhamento, sabiam?
Mais que nas trincheiras.
Não sou mulher de guerras civilizadas.
Gosto mais de garras, de anarquias sem votos.
Vetos de criaturas sistematicamente alinhadas… cansam-me.
Resta a dureza.
Esta que ficou entre o lençol e o cobertor.
Durmo nua.
Chove. E. Descalcei-me.

sexta-feira, Setembro 14, 2012

Yasmim



E levemente… sem que ninguém desse por isso… Yasmim tirou o lenço para a minha câmara.

Yasmim, tinha um lenço na cabeça, vestido até ao chão. Estava sentado sob um tear, de seda.
A Yasmim é nova, muito nova. Mas já com um filho e marido. O pai e o marido o deixaram-na estudar, trabalha naquela fábrica de tapetes há tempo suficiente para se ter esquecido de como era a sua vida, antes disso
 

Na Turquia, como em quase todos os povos muçulmanos, as mulheres são vistas assim. Como tapetes. Servem para tudo, mas essencialmente servem para limpar os pés dos seus maridos, dos seus irmãos, dos seus pais. A Yasmim tinha um olhar doce, resignado pelo seu destino. Disse-me para me sentar ali com ela, e enquanto ela fazia o tapete e falava sobre tudo o que nunca poderia ter, eu pensava de como nós somos tão egoístas. Tão egoístas ao ponto de nos lastimarmo-nos com tretas. A Yasmim não sabe por exemplo o que é isto que eu estou a fazer, sentada nesta esplanada à beira do mar, em pleno Setembro sem ninguém, só com um gin tónico, uma câmara fotográfica e este bloco de notas. A Yasmim não sabe, porque lá na aldeia do interior da Turquia não se vê o mar, as mulheres não podem beber e nem sequer entrar num café. Porque na porta alguém escreveu em papel pardo “Proibida a entrada a mulheres.” E o café tem janelas grandes, e são eles lá dentro a beber, a fumar e as mulheres em casa a servirem de tapetes.

 A Yasmim aprendeu às escondidas do marido e do irmão, a falar Inglês. E quando eu lhe conto ‘coisas’ do mundo ocidental , a Yasmim dá uma gargalhada.
Foi numa dessas gargalhadas que a nossa conversa teve que acabar, a Yasmim riu tão alto que veio a sua cunhada, ralhou-me por lhe estar a contar coisas do Ocidente. E para não arranjar problemas à Yiasmim tive que abandonar o tear de seda.

 Permitem-me que lhes conte uma dessas gargalhadas. Yasmim perguntou-me a idade, os seus olhos fizeram um olhar de espanto, perguntou-me como é que o meu marido e filhos me deixavam andar num país estrangeiro sozinha. Expliquei-lhe que não tinha marido nem filhos. Deixou o tear, pousou a sua mão no meu ombro, e disse-me ‘Olha Estranha, é muito triste eu dizer-te isto, mas tu aqui na Turquia nunca vais arranjar marido.’ Ao que lhe respondi, ‘Deixa lá Yiasmim, não é só na Turquia, em Portugal também não arranjo, já estou habituada.’
Gargalhamos as duas. Foi das melhores gargalhadas além fronteiras que eu partilhei. E foi tão bonita e genuína que ainda hoje a recordo com um sorriso.

Lembro-me muitas vezes da Yasmim, um dia gostava de recebe-la aqui no Ocidente, com a mesma alegria que fui recebida lá no Oriente. De partilhar este oceano e esta esplanada. Eu sei que a Yasmim tem liberdade interior. Mas também sei que chora todos os dias… é que os tapetes da yasmim cheiram a sal. E ela nunca viu o mar.