
Naquela altura ainda não havia semáforos, passadeiras, filas, buzinas.
Os poucos automóveis andavam ao sabor de uma qualquer brisa da capital.
Daquelas brisas raras, com sabor a Tejo.
As damas passeavam de sombrinha, os cavalheiros de bengala.
Os fatos eram pretos, e os colares de cristal.
Lá no fundo avistasse fumo.
É Outono. Cheira a castanhas.
Ele vinha de mansinho meio amarelo, como a folha da gazeta.
Ela corada, como a castanha embrulhada.
Subiram a Antero de Quental ainda meio ensonados.
Diziam eles, para se desculparem.
Na janela, a vizinha. De lenço vermelho.
Fumava uma cigarrilha. Cheirava a verniz.
Ela corada, pensava no que não foi.
Ele tímido, nunca chegou a mudar de passeio.
E a vizinha que largou o lenço, ainda hoje pensa nesse desdito.
De pensar o que se sente.
E de sentir o que não se diz.
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Apeteceu-me!
7 comentários:
O SINAL VERMELHO
A torrente tormentosa do trânsito a correr nas artérias estranguladas da cidade. Desenhando cotovelos agudos entre os quarteirões históricos da baixa.
Atravessar cada rua é uma aventura de desfecho imprevisível. Imprevisível é, ao fim e ao cabo, o resultado de qualquer travessia. Já o sabiam os antigos marinheiros. Do outro lado está sempre o desconhecido, ainda que ele seja tão visível quanto aqueles prédios do outro lado da rua, ou tão distantes quanto a mais longínqua ilha deserta do outro lado do mar. O mistério não está na distância; está na opacidade do desconhecido e na imaginação com que o povoamos. Com que procuramos lê-lo para lá das paredes e das janelas semi-cerradas; para lá das neblinas marítimas que nos ocultam continentes imensos, densos de monstros ou inóspitos de desertos. O mesmo sucede quando olhamos o céu por cima do trânsito. Azul ou nublado só é verdadeiramente permeável à distância e à lonjura do nosso olhar.
Para quem tente atravessar a rua, atravessar o mar, aventurar-se para lá do céu, é a mesma a dificuldade. Porque o difícil é sairmos de onde estamos; impossível libertarmo-nos do lastro pegajoso da nossa própria sombra. A não ser no escuro, onde irremediavelmente nos perdemos, sem farol que nos guie.
Neste vazio de direcções plausíveis, a única saída é rodopiarmos em torno de nós próprios, sem nunca no entanto nos alcançarmos verdadeiramente, sem nunca nos ausentarmos da matéria, sem nunca nos desprendermos das nossas pequenas convicções, porque é de matéria que somos, porque é de convicções que formamos os caminhos em que rodopiamos, animados da força centrípeta que nos dá coesão e impulso...
Nisto, um cláxon mais veemente sacode-me, e vejo que o sinal vermelho já mudou.
Jorge Casimiro
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De uma outra forma, a uma distância tão curta sem ser medido no tempo, o gesto do que se sente e não se diz persiste.
:) estive lá pelas tuas palavras.
a nha pernas ca tá munte anrebitáda e acim munte descaráda...
atão quiste é fotogarfia pámostráre?
a nha maria quia dando um xelique e cáxa o retráto munte lindo e só quere vêre tude ó pormenóre... do nosso tempo quéra tude tapáde e co lence éra pá cabêça...
ai nha pernas as indéias que tu métes á nha maria cagóra diz ca vai cupiáre a modos de tár mais muderna queu já disse qué só cá dentre de cáza né?
vô tár a páu na vá ela amostráre á vezenhança a nuvidáde!
pa ti um raminhe dalecrim
E...
Apeteceu-te MUITO BEM!
É apenas o que te digo.
Um BEIJO meu.
ó nha pernas queu axo quesse cansemiro tá co beice descaíde co gaijo ca screve assim munte bém !
adonde é quele vái cupiáre ?
ai nha filha tu tráta bem o rapáz quele é leterádo.
dagente uma pétala de rósa .
ainda bem que te apeteceu...
foi bom viajar contigo...
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