segunda-feira, julho 01, 2013

Disse

Aproxima-te.

Foi o que ele disse. Encostado ao armário de madeira. Pernas cruzadas, o corpo virado para leste. Dizia que era como as corujas. Sempre pousadas para Leste. Onde há iluminação. E sim, disse ele. E lá ao fundo da sala. No canto leste. Aquele canto, o mesmo que tantos silêncios já ouviu. Partilhados. Fundos.

Aproxima-te.
E ela na poltrona. Encostada ao manto vermelho. Ligas pretas, o corpo virado para Norte. Dizia que era como as serpentes. De nortadas. Ousadas. Onde há talvez a escuridão. E sim, disse ela. E lá do outro lado da sala. Do canto Norte. Aquele canto, o mesmo que tantos gemidos já ouviu. Partilhados. Fundos.

Eu disse, aproxima-te. Não ouviste?
Cruzou os braços. Acendeu um cigarro. Tirou os olhos do chão, olhou a poltrona. E ela de costas. No vermelho. Do pecado. O corpo apenas com aquelas ligas pretas.

Entre luz de Outono. Da janela do canto sul. Fim de tarde. De dourados.

Aproxima-te.
Disse ela. Descruzando as pernas. Aliviando a liga.
Tocava um piano. Lá fora. Tinha cauda. Sem músico. De pautas.

Tocou-lhe na face.
E não se aproximou. Disse ele.
Com ela.

quarta-feira, junho 19, 2013

Números

Senhor Ministro Crato

Sou muito sincera… pouco ou nada percebo de política, mas uma coisa sei, o senhor e todo o seu ministério, colocam dia após dia, em causa o amor e o respeito que alguns professores têm pela profissão.

... Em nenhum dos seus discursos oiço, que é preciso acreditar na inovação, nos professores, nos alunos e no ensino enquanto veículo de crescimento pessoal, intelectual e humano.
Desculpe, mas o que o senhor está a fazer não é inovação, é parvoíce. A roçar a desumanidade.

Todos somos humanos, todos devemos um terno e eterno respeito, pelo que nos rodeia. E assim como temos devemos respeito, também o merecemos. Nunca em nenhum dos seus discursos, ouvi a palavra amor. Ou acha que com nove anos de ensino senão fosse por amor que continuava? O seu motorista ganha muito mais que eu, tenha juízo. E já agora senão for pedir muito… tenha coração.

O senhor é matemático. Mas também é estatístico. Sabe, houve uma vez que ouvi um grande matemático da nossa praça, afirmar que a estatística não é considerada matemática. Concordo. Porque a matemática é bonita… e o senhor só quer saber de estatísticas… de teorias probabilísticas….de.. algumas incertezas para que alguns pensem que você é a própria certeza.
Num dia destes, vi-o. Tinha um ar altivo, olhar vazio, sempre de mãos fechadas. Não fosse eu saber que o senhor era o senhor, e nunca diria que você é professor.
Oh... desculpe. Afinal era mesmo você. O politico.
Espero de coração, que num destes entardeceres, abra as mãos, sinta humildade... e encha a retina.
É que eu se estiver de ar altivo, olhar vazio e mãos fechadas... afecto mais de uma centena de alunos... você afecta milhares deles.
E nem que afectasse apenas um. Esse ‘um’ não é um número. É um ser humano.

Cumprimentos
Estranha Pessoa Esta

sábado, maio 25, 2013

Convite

Houve uma vez que casei-me.
Fiz convites. Convidei a malta e foi um tal churrasco a tarde toda. Até prendas recebi. Calçava ténis.
Hoje descalça. Pensei. Porque raio é que a malta atura aqueles estupores que vão para os funerais chorar e aiii e tal e coiso que era tão boa pessoa. E depois vai-se a ver parava na mercearia da esquina a falar do dito cujo que era isto e aquilo e o mais que fosse. Mas...
hoje? Ahhhh hoje que morreu, já era tão boa pessoa.
Pois eu quero que esses choros insípidos todos se f*dam. Como tal, no meu funeral só vai quem me apetecer.

E se de repente aparecer na tua caixa de correio um convite para um funeral. Não estranhes. Foi a estranha que faleceu. Sorri. É sinal que tens tomates.

Obs.: Aparece descalço.

sexta-feira, maio 17, 2013

Linha



No próximo apeadeiro deita a mala fora. Não esperes pela estação, ela pode não chegar.
Tira a gravata. Tira tudo. Tudo o que te sufoca. Que te prende. Que não te abrace.
Tira. Fica a nu. Completamente a nu. Sem medos. Eriça-te.
Abate o que...
te estrangula. Tau. Mata isso. Enterra e faz cócó em cima.
Caga de alto para as recordações menos boas. Ou então pega nelas apenas
solidificar a tua ‘coluna’ e dares valor… aquele valor... ao que merece realmente a pena.
Aquelas recordações, mala cheia de autocolantes, sítios, pessoas, passagens, ora metade cheio, ora metade vazio. Se tinhas uma destas com um cinto castanho, e apertavas o cinto conforme as sensações, e um dia apertaste tanto tanto mas, tanto… que esqueces-te de sentir, guardavas tudo e no fim não vivias nada. Hoje, sim hoje orienta-te e fica sem mala. Arranja antes um bolso… Eu cá gosto de bolsos, daqueles pequenos como eu… guardo o necessário para respirar..
E o resto dou ao vento..
Saio na próxima estação.
Gosto de estações… as malas grandes só servem para apeadeiros.

terça-feira, maio 14, 2013

Manda a vida à real merda

Manda a vida à merda. Como se manda no teatro. Manda a vida à merda, como quem corre desenfreadamente pela rua à procura de uma qualquer taberna aberta para arreares daquilo que estás à rasca. Manda realmente a vida à merda. De joelhos serrados contra a parede de um qualquer cais do Sodré. Mas é que manda mesmo. A vida. À real merda. Antes que ela te mande a ti.
Bate a porta. Estende o tapete. Dei...ta-te nele e a seguir levanta-te. Olha-a nos olhos, essa puta que finamente se diz prostituta. A vida. Encara. Vá, porra. Não ouviste. Encara-a. Puxa-a por um braço, encosta-a contra a parede e manda-a à merda.
E a seguir até podes morrer. Mas deixa-te de ‘paneleirices’, e estendidelas no sofá. Levanta-te e renasce. Ou nasce. Ou inventa-te. E a seguir, bebe uma cachaça se preferires. Bate com o copo. No balcão, na calçada quero lá saber. Desde que a mandes à merda. Mas manda.
A valer. Não vale meias medidas, contidas. Tímidas espreguiçadelas. Quem tem medo compra um cão. E quem não tem manda a vida à merda.
Porque só depois disso. Dessa real gana orgástica, se pode viver. Até lá caga. Mas caga bem. Na morte do insípido. Dos quase tudo e assins assins.
Que raio é isso do assim assim?
Ou é ou não é, agora cá merdas.

domingo, maio 05, 2013



Há quem diga que o certo, é o usual.
Meus amigos, permitem-me discordar.
Não sei se é certo… mas, que o inesperado é bom!
Lá isso é!
Se é certo ou errado… eu não sei!
Mas, na próxima vez que cruzares comigo na rua.
Faz-te Rua!
Que é como quem diz.. faz-te inesperado!
É que eu cá gosto, é das coisas erradas…
Nada usuais, portanto!
‘Inespera’!
… Que é só assim, que me vais fazer nada usual…
E eu sei, que também não gostas das coisas banais..
Faz-te Rua!

Aqui para nós… andas um pouco banal, não andas?

É que eu ‘conheço-te’ errado…
Faz-te um favor, e Apalpa-me os Sentidos!

domingo, abril 07, 2013

Sacrista

Sacrista.
Era assim que o meu avô me chamava quando eu fazia perguntas… daquelas.
Quando eu estou assim, sem saber se sigo para bombordo ou para estibordo. Sento-me junto do oceano, e tento sentir essas nossas conversas.
Houve uma vez numa corrida entre o Baleal e Peniche, em que páramos para descansar à beira-mar, daquelas marés baixas que deixam todo o areal a descoberto.
Entre um sorriso e um ...
olhar, disse-me:
Sacrista, quando não souberes para onde seguir, quando não souberes se deves correr devagar ou de pressa, ou de parar. Quando não souberes se é certo ou é errado. Chora. Mas chora tudo, e depois levantas-te e sente o teu coração. Na dúvida escolhe o risco, a vida não tem graça apenas com certezas. Na dúvida entre a cabeça e o coração, escolhe sempre o coração. Porque depois mais tarde, quando parares. Podes desculpar-te tudo a ti mesma, menos o que não fizeste com medo de ser errado. A tua cabeça pode desculpar-te, mas o teu coração não. E tu, o que tu és, o que é uma pessoa é coração.
Hoje. Sentei-me na maré. Fechei os olhos, senti o sal. E decidi. O coração.
E aposto, que o meu avó, fez aquele sorriso de esguelha e disse…. Sacrista… Sacrista… tu não escolheste o mais fácil.
E aposto que ele ouviu-me a responder…. E quem disse que o coração era fácil? Por isso é que vale a pena, não é ‘vô?

terça-feira, fevereiro 26, 2013

domingo, fevereiro 24, 2013

Esperança



Estava cansada. Naquele dia não tinha conseguido boleia, estava no interior da ilha e queria chegar antes de anoitecer à capital. Depois de uma longa caminhada, cheguei à cidade pelo entardecer. Deambulava pela marginal, sentia aquele por de sol…. Aquele que só África sabe ter.
Zezito estava sentado sobre uma embarcação. De pernas cruzadas, olhar no horizonte. À sua direita a irmã. Na areia dois amigos, faziam malabarismos e sobre o areal. Pinos e mais pinos. Sentei-me perto... do Zezito. Perguntou-me o que eu fazia ali sozinha. Disse-lhe que tentava respirar. Sorrir. Viver.
Zezito tem dez anos, mas um discurso coerente, pausado. A mãe, Esmeralda, vende tecidos no largo do mercado. Se viermos de norte, fica do lado esquerdo, no muro perpendicular ao mercado.
Pergunto-lhe do país, do seu país… o que ele gostaria de mudar. Zezito responde, a escola. Uma escola para todos e não apenas para os que são amigos dos políticos. Foram as suas palavras. Assim. A seco.
Depois da escola e em muitos dias, na hora da escola. Zezito pega num carrinho de fazer pipocas e vai vender para o tal largo do mercado.
Sempre que falava comigo, não descuidava dos movimentos da irmã. Chamando quando a menina ia para a beira da estrada, ou se tentava ir para o mar. Diz-me que é assim, que ele tem que cuidar da irmã, porque a mãe é meio… descuidada e que às vezes esquecia-se um bocadinho deles.
Zezito pergunta-me o que tenho dentro da mochila, digo-lhe que tenho alguma roupa, uma ardósia e uma máquina de tirar fotografias.
Gostava de escrever uma mensagem para Portugal na tua ardósia, deixas-me? E eu deixei.
“Pai eu quero que você venha a S.T. por favor eu quero te conhecer e você quando me conhecer vai ficar feliz. Tu és bem vindo a S.T.” Zezito Frota
Aquando a gravidez de Esmeralda, o pai de Zézito rumou a Portugal. Quando conheci o Zézito estas foram as suas palavras: "Filipa quando fores a Portugal, olhas para todos os homens e o que tiver a minha cara é o meu pai, e o que tiver a minha cara é o meu pai, e mostras esta fotografia." E num sorriso ainda diz "Quando ele me conhecer vai ser feliz".
Pelo bonito ser humano que Zezito é, merecia mais que um grande abraço meu. Convidei-o para almoçar no outro dia. Zezito aceitou mas com uma condição, que o almoço tinha que ser também para a irmã.
Digo-lhe que tenho pouco dinheiro, expliquei-lhe que não consigo levantar dinheiro no país, que só existe uma caixa multibanco no hotel grande da cidade, e que estes não me deixaram entrar.
Zézito diz que não quer que eu gaste dinheiro com eles. Explico-lhe que faço todo o gosto em levar-lhe a um restaurante, a ele e à sua mana. Zezito sugeriu que pedíssemos apenas um prato e que dividíssemos a comida por nós três.
No outro dia, a meio da manhã encontrei o Zezito no mesmo sítio, na mesma embarcação. Tornou-me a lembrar para não me esquecer da fotografia, e do pai. E que gostava que o pai fosse feliz.
Zezito, és tão grande meu amigo. Tão grande, e às vezes nós somos tão pequeninos. Como pequeninos foram as pessoas que estavam no restaurante. Não queriam o Zezito e a mana no restaurante. Porque estavam sujos, e porque não sabiam comer com talheres. Respondi-lhes qual era a diferença entre mim e as crianças. Visto eu nesse dia, ter dormido na rua, não ter tomado banho, e que se me apetecesse comer com as mãos, comia. Lá cederam. O Zezito não queria entrar, quase a chorar disse-me que não queria que eu ralhasse com as pessoas por causa deles.
Expliquei-lhe que às vezes uma pessoa tem que ralhar com as outras, para as outras relembrarem que somos todos iguais. Todos com o sangue vermelho e um coração.
Foi mais difícil de convencer Zezito a entrar no restaurante do que convencer as pessoas que o Zezito e a irmã tinham todo o direito de estar ali.
Zezito nunca tinha ido a um restaurante.
Sentou-se. Levantou-se de seguida, pegou a irmã pela mão, e dirigiu-se à casa de banho. Esteve largos minutos a lavar a cara e as mãos. Dele e da irmã.
Pedimos carne grelhada. Arroz e batatas fritas. Dividi por nós os três. Disse-lhes que podiam comer à mão, ou se quisessem eu ensinava-os a comer de talheres. Mas o frango meus amigos, sabe mesmo bem é mão. Seja na Europa, em África, em casa ou num restaurante.
Antes de comer, Zezito pegou nas nossas mãos e pediu-me se podia fazer uma oração. Acenei que sim: “Deus obrigada por esta comida, e pela Filipa.” E eu, confesso que chorei. Com o coração todo.
Obrigada eu, Zezito. Por existires. Por seres quem és. Por teres esse coração do tamanho deste e do outro mundo.
Partilhem a fotografia do Zezito. Façam-na correr este mundo e o outro.
O sonho desta criança é conhecer o pai que nunca viu.
E num sorriso ainda diz: "Quando ele me conhecer vai ser feliz".
O impossível às vezes acontece.
E quando acontece, é tão bonito.


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Hoje, 27 de Novembro de 2016 reli esta partilha.  E chorei. Contigo.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Abraço|s


Já era de noite em  São João dos Angolares, na costa leste da ilha de São Tomé, distrito de Caué.

Noite cerrada, quase sem lusco-fusco. Eu vinha do lado da capital, Cristopher do interior, da mata, esteve todo o dia a fotografar insectos, e nem se apercebeu que naquele domingo tinha sido as eleições. Mas sobre Cristopher, filósofo Holandês, partilho noutra altura.

As eleições em África é qualquer coisa de não descritível. É ir lá. E ver. Os cidadãos são premiados com dinheiro ou até motos, pelo voto. E quando vão votar levam um carimbo na mão, para que os apoiantes dos partidos saibam que aquela pessoa já votou e assim fazerem o que têm a fazer das piores maneiras.

É impressionante o quanto o iletrismo, é um factor importante para estes políticos, já dizia não sei quem, que o pior inimigo de um político é a sabedoria do povo. Fora da capital reina o iletrismo e todas as más consequências deste.

À medida que fui descendo aquela canada cor da terra que só África sabe ter… várias crianças vieram ao meu encontro, só queriam um abraço, um colo. É. Só queriam um colo. Passei o centro da vila com onze crianças. Uma em cada dedo da minha mão, e ainda uma outra agarrada à minha cintura. É provavelmente uma das melhores imagens e sentimentos que tenho das minhas viagens, e também, das minhas memórias. Porque são daqueles sentimentos que não se descrevem. Não há adjectivos. Léxico que chegue. Sente-se. E pronto. E basta.

Quando paramos na praça, um homem dos seus trinta anos, encostou uma arma à minha cintura e diz: “Só passas desta praça com vida, porque estás com as nossas crianças. Uma branca, sozinha aqui em dia de eleições. Ou não sabes o que se passa, ou estás a armar-te em valente.”

Eu sabia exactamente o que se passava. Mas arrisquei. Confesso, quando senti o cano da arma na cintura, tremi. Suei. Mas sorri e só disse. Estou na paz, só vim dar uns quantos abraços às crianças. Ele retirou a arma da minha cintura, colocou-a em cima do ombro e disse, tens uma hora para sair daqui. E eu tive mais um dia. Quem me deu almoço no dia seguinte? A família desse homem. A vida tem coisas fantásticas. Não tem?

[ No clicar, algumas das onze crianças]

[Mãe, se leste este post, desculpa qualquer coisa, mas eu gosto é de viver assim]

terça-feira, janeiro 29, 2013

Senhores Doutores



Carta a todos os fidalgos que mandam e mandaram, e que de certa forma continuam a mandar, nesta vossa, que deveria ser nossa nação.

Caríssimos,

Falemos de recordações, falemos da infância. O meu avó tinha a segunda classe, se tanto. Descascava pêssegos como ninguém. No verão, após o almoço, ia até ao pomar e trazia-me o melhor pêssego da árvore, pegava na navalha que religiosamente colocava todos os dias no bolso das calças, no outro bolso tinha um lenço, daqueles de caris...ma. Do tempo.
E enquanto descascava o pêssego, contava-me da importância de nós próprios sabermos descascar um pêssego, assim como de o plantar. E cuidar. É como aquela história, é mais importante ensinar a pescar, do que dar o peixe.
O meu avô ensinou-me entre outras coisas, a importância do trabalho, da humildade, e do aprender a fazer. De lutar sem passar por cima dos seres-humanos.
E vejam vocês lá bem. Que o António não completou a instrução primária. Não é magnífico?
Vocês que completaram a instrução primária, que fizeram o ensino básico e secundário. Foram para a universidade tirar Doutoramentos e isto e mais aquilo, e não aprenderam o respeito, a humildade, o civismo.
E depois com uma cara de pau, ainda exigem serem tratados por Senhores Doutores.
Doutores há nos hospitais, e vocês deviam era trabalhar no ferro velho. Tamanha é a lata com que andam para aí a existir dia após dia. Sim, existir. Porque isso meus amigos, não é viver. É limitarmo-nos a existir.
Como é que vocês podem mandar num país, quando não conhecem a realidade do país, quando não sentem o povo no seu conjunto como sendo cada cidadão um ser humano, e não um número. Isto é como tudo, um patrão não pode descer as escadas do escritório e ver o que se passa com os empregados só na altura de exigir horas extras. Quem não sabe trabalhar, não pode mandar. Esta por acaso não foi o meu avô que me ensinou, foi o filho dele.
Politiquice é diferente de Política, e vocês, meus senhores o que fazem são politiquices. Uma semi-política a roçar o ridículo. A roçar. Atenção, não toca. Porque o ridículo, quando usado com um certo charme, até tem muita graça. E os senhores não têm gracinha nenhuma, lamento.
Mas não lamento por vocês. Lamento pelos adolescentes que têm de trabalhar à noite porque os pais têm quarenta anos e já estão velhos para trabalhar, lamento pelos idosos, que ou têm dinheiro para a comida ou para a farmácia. Lamento por todas as famílias que não têm euros para pagar as contas da água, da luz, da mercearia. Lamento por todos os seres humanos que são boas pessoas e que têm que passar por dificuldades. E pela mãe que vi hoje a chorar porque não tinha como colocar comida para os três filhos que tem em casa. Lamento por todos as mães deste país. Lamento todos os meses descontar para vocês andarem a fazer sabe-se lá o quê. É que se eu descontasse para haver melhor educação, melhores hospitais, cantinas socias…. Era uma coisa e até sorria ao dar-vos os euros. Agora isto?
De coração, e sem qualquer tipo de sarcasmo, lamento pelos vossos avôs. Porque aqui bem dentro do meu miocárdio, acredito que vocês também tiveram um avô que descascava pêssegos como ninguém, e que vos transmitiu certos valores. Aqueles que não se vêm. Mas valem tudo.
Falemos de infância. E de recordações. E daquela vez que o meu avô disse para nunca me apaixonar por um político. Que era a pior raça de homens que existe. O que ele se esqueceu de dizer, é que mesmo que não esteja apaixonada por nenhum político, que tinha que sustentar não sei quantos deles, todos os meses. 



Cumprimentos aqui da vossa namorada,


 Estranha pessoa esta

terça-feira, dezembro 04, 2012

Roer


A minha avó foi educada assim, a aguentar tudo, até a fome. Fome de alimento, fome de vida, fome de alma….  E, mesmo assim exigiu o divórcio, tinha mais de seis décadas de vida.
O machismo existe. Ponto. E toda a gente fala dele. E qualquer mulher em qualquer lugar do mundo já o sentiu. Na pele, na alma, nas entranhas.
Existe, porque tem que existir…. Faz parte, dizem todos.
Existe, porque efectivamente nós mulheres deixamos a coisa andar porque temos mais que fazer à vida, e somos fortes, e aguentamos tudo.
Nós mulheres, não temos que aguentar tudo, temos sim, que aguentar apenas o que queremos aguentar.
Nós mulheres, com éme daqueles grandes, daqueles émes de tomates até ao chão, podemos aguentar muita coisa, mas não o machismo.
Aquele machismo estúpido, arrogante, iletrado… completamente ignorante de todas as leis cívicas.
Porque fomos aclimatadas a que o homem se sente no topo da mesa, porque fomos costumadas, a que o homem desse a última palavra, porque fomos habituadas a que os homens violentassem as mulheres, e nós caladas. Na dor. Porque sim! Porque parece mal dizer aos seres humanos do nosso metro quadrado, que fomos violentadas. Humilhadas. E às vezes, existem as mulheres que têm coragem, e assumem. ‘Fui violentada’. Consequência do metro quadrado, o abandono.
E depois é um ciclo, uma bola de neve. E calam-se. Com medo. Daquele medo que nenhum vocábulo ocidental nem oriental sabe transmitir. Que nenhuma lágrima sabe espelhar. Porque é uma dor muito nossa. Que rói e rói. E mesmo depois de tudo ruido, torna a roer.
A minha avó pediu o divórcio tinha se calhar perto de sete décadas.

E foi aí. Que passou a roer. A vida.

 

terça-feira, novembro 27, 2012

Comunicado à população em geral e em ninguém em particular

No outro dia a puxar para a madrugada, publiquei aqui no estaminé um texto cujo título dizia qualquer coisa como 'Maldita Cocaína, pôs-me o sangue cor de rosa'. Ponto um, este estaminé é da estranha pessoa esta. Só - Estranha pessoa esta. Mulher, ser humano. Ponto final. Parágrafo. Não é um estaminé educacional nem tão pouco científico....
Ponto dois, escrevo desde 2006 em vários blog's, tendo textos publicados não só em formato digital como em ... como se diz, papel. Porque me apetece, porque gosto, porque me dá prazer. Escrevo das entranhas, da alma, do miocárdio, escrevo o que me dá na real gana e a saltar a aorta. Se levam a mal ou a bem, pouco me interessa, nem tenho nada a ver com isso. Se a malta leva a mal, só tem dois trabalhos, levar a mal e deixar de levar. Ponto três, existe umas coisas que se chamam 'figuras de estilos' entre essas figuras, existe uma coisa engraçada de nome 'metáfora'. No texto a cocaína é meramente metafórica. Ponto quatro, o que interessa mesmo é o sangue. Ponto cinco, não me macem com merdas que isto e aquilo e vens para o facecoiso dizer de cocaínas. Por amor à santa.... não me lixem a paciência que ela já é tão pouca. Último ponto e não menos importante, drogo-me de insanidade, com muitos gramas de emoção. Há que prazer dos diabos é esta ressaca de diferença. Este orgasmo de demência.
Bom dia e até logo. Se a cocaína deixar e o sangue cor-de-rosa quiser.

terça-feira, novembro 20, 2012

Bom|bordo

Um dia o meu avô disse-me para nunca confiar em pessoas que jogam às cartas sem bater com o punho na mesa. Metaforicamente falando, nunca se deve confiar em ninguém que não tenha pelos nas ventas.
Ordinariamente falando, quem muito manso é, poucos tomates tem.
Gosto de hortas com classe. Daquelas de canas espetadas na terra sem espantalhos de faz de conta.
A vida é curta. E o meu guarda-redes não tem linhas de baliza.
O que tudo isto quer dizer? Está o Bugio a estibordo. Que se lixe o bombordo.
Uma coisa é ter colete salva-vidas. Outra é nadar a cru. A. Nu. E isso… bem, isso tem a modos que muito mais graça.

quinta-feira, novembro 01, 2012

iogurte

Hoje lembrei-me do deserto turco. Porque ontem foi daqueles dias que apetece mandar tudo para a p*ta que pariu, pegar na mochila, ir até a um qualquer porto ou aeroporto e meter-me na real. Na real alheta. Que porra de saudades tenho eu disso. Chega a doer cada entranha de cada ossinho do meu organismo.
Porque às vezes uma pessoa tem que fazer esse exercício. Ir buscar lá ao fundo da memória bon...
s lugares, bons cheiros, bons sabores, boas vivências para seguir em frente. E hoje em particular, o que fui buscar…. foi o deserto.
Aquela imensidão de nada do lado esquerdo, e aquelas montanhas cheias de neve , naquelas cumes que tocavam o céu. E depois… bem depois é aquele entardecer de cores ora mansas ora a transbordar de laranjas, amarelos, roxos azulados que passavam pelo deserto a fora e só paravam na neve. E era Páscoa. Num domingo. Daquele da ressurreição. Metáforas interessantes que a vida nos dá, portanto.
No meio da estrada que atravessa esse deserto, estava lá um dia… um puto franzino, de cabelos negros e olhos colossais, a vender iogurte de sementes de papoila. Há coisas estupendas na vida. E comer iogurte de papoila no meio de um deserto é sem dúvida uma delas. Isso e comer tremoços na tasca do Ti Alberto da Ajuda, daqueles mesmo cheios de sal que faz um qualquer tec tec na ponta da língua.
E a vida tem que ser mesmo isto. Tec’s tec’s . Saborear cada iogurte de papoila, cada deserto, cada entardecer… e no meio disto tudo colocar na ponta da língua cada sal e pimenta ao exagero. Daquelas malaguetas bem picantes. Que até fazem saltar a retina. Porque cá de merdas insonsas já nos basta tanta e tanta coisa. E se os outros querem ser insonsos, desistentes. Que sejam. Quero lá eu saber. A escolha, é deles. A minha é seguir. Saborear. E siga. Siga. Siga. Sigaaaaa. A uivar. O risco. Porque sem risco, não há bom tempero. E sem bom tempero a comida fica a modos que mal amanhada. Como diriam lá na ilha: Áquela não sejas discreta e segue a canada. A tua canada.
E se passares por mim. Dá-me a mão. E. Traz sal. E piri-piri. Que do iogurte trato eu.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Cais do Sodré


Manda a vida à merda. Como se manda no teatro. Manda a vida à merda, como quem corre desenfreadamente pela rua à procura de uma qualquer taberna aberta para arreares daquilo que estás à rasca. Manda realmente a vida à merda. De joelhos serrados contra a parede de um qualquer cais do Sodré. Mas é que manda mesmo. A vida. À real merda. Antes que ela te mande a ti.

Bate a porta. Estende o tapete. Deita-te nele e a seguir levanta-te. Olha-a nos olhos, essa puta que finamente se diz prostituta. A vida. Encara. Vá, porra. Não ouviste. Encara-a. Puxa-a por um braço, encosta-a contra a parede e manda-a à merda.

E a seguir até podes morrer. Mas deixa-te de ‘paneleirices’, e estendidelas no sofá. Levanta-te e renasce. Ou nasce. Ou inventa-te. E a seguir, bebe uma cachaça se preferires. Bate com o copo. No balcão, na calçada quero lá saber. Desde que a mandes à merda. Mas manda.

A valer. Não vale meias medidas, contidas. Tímidas espreguiçadelas. Quem tem medo compra um cão. E quem não tem manda a vida à merda.

Porque só depois disso. Dessa real gana orgástica, se pode viver. Até lá caga. Mas caga bem. Na morte do insípido. Dos quase tudo e assins assins.

Que raio é isso do assim assim?

Ou é ou não é, agora cá merdas.

quinta-feira, outubro 11, 2012

Des|alinhamentos

Secou a terra num ano, minto. Foram em dois.
Ou três. Não interessa.
Por necessidade. Por maldade. Por sei lá o quê.
Não me perguntes a mim, que apenas estou a contar.
Pergunta antes a ele. Se o encontrares.
Matou-se.
Ouviste? Ouviram?
Foi a corda a estalar.
Inutilmente a instalar.
Infantilidades. Sólidas. Facilidades.
Exigentes, estes afectos?
Não senhores.
Meticulosos os gestos, porque simples é o coração.
Beija a alma, o saber abraça.
Como quem baila ao domingo que foi feriado.
Folgado de ambições. Paixões. Tudo acabado. Em ões.
Ironia os embriões de sentimentos. É? Ou não é?
Se calhar não é.
Mas eu apenas estou a contar. Se ‘o’ vires, virem, pergunta, perguntem a ele.
Ontem não era assim. Hoje, madrugada já é.
Porque estala. Estala a corda neste tecto de venetas barrentas, ensanguentadas, asfixiadas de mecanismos.
Roldanas baratas.
A alma quer-se cara e de fuças lavadas.
A alma quer-se assim sem tectos, lares, amparos de rendas fáceis.
Empresta-me o teu sorriso, disse ele.
Banco de juros altos, empréstimos de valores acrescentados.
Prefiro o internamento.
Depois. Atrevi-me. Atrevo-me a tudo.
Não foram topologias. Pois não existiam vizinhanças.
Quando se remexe o estômago prepara-se a próxima refeição.
Mas quando se remexe as vísceras todas, de parede a parede, a raspar cada grelha, brecha, greta, racha, prepara-se a asma.
Porque quem morre respira. Quem vive é asmático.
Profundamente asmático de si mesmo.
Não falo de gentes, sim de heterónimos. Os nossos.
Esgotos. Mas são veias, como se entrássemos dentro de cada uma delas, nus de tudo.
De sensações,impressões e tocássemos com as costas da mão nesses tabiques. De mergulho. Sem palmas. Mas sem arrancar nada. Passar só. Sem fazer comichão.
Sem desesperos. Melancolias.
Sem nos habituarmo-nos a nada. Porque queremos logo tudo.
E chega-se lá acima. À serenidade.
Mas cansa. Esta serenidade, não cansa?
Não que não cansa, ah pois cansa.
Desconforme o teu o teu bombordo, alinhas o meu bombordo. E fica-se pelo cais.
É essa a serenidade, que cansa.
O alinhamento cansa. Fatiga. Morre-se. É. Pode-se morrer no alinhamento, sabiam?
Mais que nas trincheiras.
Não sou mulher de guerras civilizadas.
Gosto mais de garras, de anarquias sem votos.
Vetos de criaturas sistematicamente alinhadas… cansam-me.
Resta a dureza.
Esta que ficou entre o lençol e o cobertor.
Durmo nua.
Chove. E. Descalcei-me.

sexta-feira, setembro 14, 2012

Yasmim



E levemente… sem que ninguém desse por isso… Yasmim tirou o lenço para a minha câmara.

Yasmim, tinha um lenço na cabeça, vestido até ao chão. Estava sentado sob um tear, de seda.
A Yasmim é nova, muito nova. Mas já com um filho e marido. O pai e o marido o deixaram-na estudar, trabalha naquela fábrica de tapetes há tempo suficiente para se ter esquecido de como era a sua vida, antes disso
 

Na Turquia, como em quase todos os povos muçulmanos, as mulheres são vistas assim. Como tapetes. Servem para tudo, mas essencialmente servem para limpar os pés dos seus maridos, dos seus irmãos, dos seus pais. A Yasmim tinha um olhar doce, resignado pelo seu destino. Disse-me para me sentar ali com ela, e enquanto ela fazia o tapete e falava sobre tudo o que nunca poderia ter, eu pensava de como nós somos tão egoístas. Tão egoístas ao ponto de nos lastimarmo-nos com tretas. A Yasmim não sabe por exemplo o que é isto que eu estou a fazer, sentada nesta esplanada à beira do mar, em pleno Setembro sem ninguém, só com um gin tónico, uma câmara fotográfica e este bloco de notas. A Yasmim não sabe, porque lá na aldeia do interior da Turquia não se vê o mar, as mulheres não podem beber e nem sequer entrar num café. Porque na porta alguém escreveu em papel pardo “Proibida a entrada a mulheres.” E o café tem janelas grandes, e são eles lá dentro a beber, a fumar e as mulheres em casa a servirem de tapetes.

 A Yasmim aprendeu às escondidas do marido e do irmão, a falar Inglês. E quando eu lhe conto ‘coisas’ do mundo ocidental , a Yasmim dá uma gargalhada.
Foi numa dessas gargalhadas que a nossa conversa teve que acabar, a Yasmim riu tão alto que veio a sua cunhada, ralhou-me por lhe estar a contar coisas do Ocidente. E para não arranjar problemas à Yiasmim tive que abandonar o tear de seda.

 Permitem-me que lhes conte uma dessas gargalhadas. Yasmim perguntou-me a idade, os seus olhos fizeram um olhar de espanto, perguntou-me como é que o meu marido e filhos me deixavam andar num país estrangeiro sozinha. Expliquei-lhe que não tinha marido nem filhos. Deixou o tear, pousou a sua mão no meu ombro, e disse-me ‘Olha Estranha, é muito triste eu dizer-te isto, mas tu aqui na Turquia nunca vais arranjar marido.’ Ao que lhe respondi, ‘Deixa lá Yiasmim, não é só na Turquia, em Portugal também não arranjo, já estou habituada.’
Gargalhamos as duas. Foi das melhores gargalhadas além fronteiras que eu partilhei. E foi tão bonita e genuína que ainda hoje a recordo com um sorriso.

Lembro-me muitas vezes da Yasmim, um dia gostava de recebe-la aqui no Ocidente, com a mesma alegria que fui recebida lá no Oriente. De partilhar este oceano e esta esplanada. Eu sei que a Yasmim tem liberdade interior. Mas também sei que chora todos os dias… é que os tapetes da yasmim cheiram a sal. E ela nunca viu o mar.




quarta-feira, maio 16, 2012

Sacrifícios. O caralho.

Sejamos concretos e concisos. Sem lamúrias de vãos de escadas, que farta dessa m*rda toda ando eu. E tu. E nós. E o resto da malta que ainda tem a p*rra de amor próprio, e inteligência suficiente para, mais que dizer, afirmar que... não quer, que não gosta, que rejeita qualquer tipo de inveracidade.
 A sociedade anda atolada dela. Da doutora inveracidade. Ela é no estado. Ela é nas famílias. Ela é na identidade empregadora. Ela é nas relações. Em cada esquina que viras. Tau. F*deu-se. Ela está lá, a olhar para ti... prontinha a consumir-te mesmo ali. Contra a parede. E nem sequer tens tempo para tirar as cuecas.
Porque a senhora dona sociedade em que vivemos nem nos dá segundos para isso.
E não venham com ilusãozinhas da treta. Que ah e tal pardais ao ninho, temos que ir de acordo com as ideias da manada, senão somos rejeitados.
Cornos mansos. É o que eu chamo a isso. Uma cambada de cornos mansos. Que são encornados, sabem que são encornados e ainda por cima dão palmadinhas nas costas do que encornou.
 Meus amigos, não lamento. Pois tal como eu disse inicialmente, não me venham com lamúrias.
Não me venham com medo da individualidade, da verdade, da personalidade.
Não me venham com medo do que é belo, do que é bom, do que faz bem. E o que faz bem, é viver. E viver implica respirar sem manadas, sem hipocrisia, sem 'pareceres bem'... eu quero que o 'parecer bem' se f*da.
Quero que as gentes das gravatas se enforquem no seu próprio nó. Mas longe de mim. Que não tenho tempo, nem pachorra para nós.
Que queiram viver em manada. Por mim tudo bem. Tudo óptimo. Tudo cinco estrelas.
Mas. Eu. Tenho a opção de dizer não quero, não gosto, e rejeito qualquer tipo de inveracidade.
Uma pessoa faz sacrifícios no que toca a muita coisa.
 Mas sacrifícios da treta... Só porque sim, porque a manada exige, porque parece bem, e porque é mais fácil.
Não, muito obrigada.
Como diz um amigo meu, o que importa é desnatar, tirar a nata, deixá-la de lado, porque engolir certas merdas dá dores intestinais. Daquelas que sentimos a goela lixada durante horas.
E decididamente, ter a goela lixada durante horas... não dá mesmo com nada. Estiveram focados? Ora, ainda bem. Obrigadinha.

segunda-feira, maio 07, 2012

Turistas

Há quem seja viajante. E há quem seja turista. Um viajante vive. Um turista existe. A vida é o presente. O agora. Um turista passa pela vida como quem passa por hotéis de cinco estrelas. Um viajante quer a vida descalça. Sentir a terra molhada. Os cheiros. O carisma de um céu estrelado. Há quem seja viajante. E há quem seja turista. Um viajante usa os dois pulmões. O turista deixa-os em casa, com ...medo da constipação. A vida quer-se constipada, a fungar do nariz. É sinal de atrevimento.

De risco. De noites ao relento. Num qualquer banco de jardim desse mundo fora. Há quem seja viajante. Há quem seja turista. Há quem não viva com medo de sentir. E há quem sinta tudo. Tem noção do medo. E mesmo assim continua a sentir. Arreganhados. Até ao tutano. É. Quero que os turistas da vida se f*dam.

domingo, abril 29, 2012

Na vida é imperativo duas coisas, ser e estar. E que estas sejam perpendiculares quando tem que ser. E paralelas quando a realidade assim o exige. Depois disso todos os dias são pulmões. Porque conseguimos estar. E mais que isso. Ser.

segunda-feira, abril 16, 2012

Manel

Hoje. Na Rua da Alfândega. Ali para os lados de Alfama. O Manel. Chamemos-lhe assim. Transportava uma mala com rosas. Ofereceu-me uma rosa.
Não aceitei, porque eram de plástico. E eu ainda não morri.
Aceitei antes o sorriso. Sentou-se ao meu lado no banco de jardim.
O Manel é sem abrigo.
Daqueles com uma longa barba, com as mãos sujas de sangue. E o casaco até ao chão.

Hoje na capital estava sol. Daquele sol meio tímido mas que vai até à epiderme.
Aquela funda. Porque a vida quer-se assim.
Funda. Nua. E. Crua.
O Manel tem uns sessenta e qualquer coisa anos.

Falava com precisão, utilizava um vocabulário cirúrgico.
Esteve a trabalhar na Alemanha. A filha que é engenheira usou todos os seus euros em obras mal resolvidas. E o Manel que trabalha com o coração, ficou com o miocárdio em ruínas.
A meio do diálogo, colocou a mão no peito e disse...


"Sabes Filipa, o problema de Portugal é a ausência de diálogo. Isto que estamos aqui a fazer, eu raramento o posso fazer. As pessoas já não conversam. E não é porque sou sem abrigo. Simplesmente as pessoas já não conversam. Andam de um lado para o outro, encontram centenas de pessoas no seu caminho... e não param para converar.
As pessoas são mal amadas. Não é a crise que afecta este Portugal. É o amor.
EU estou na rua. Todos os dias. Todas as noites. E observo. Estes casais de agora. já não passeiam. Já não riem juntos. Nem dançam. Nem cantam. Nem partilham a refeição. Nem jogam às cartas. O amor da minha vida morreu aos 44 anos. De cancro no útero. Desde aí perdi o rumo, porque perdi o amor.
E agora quando vejo estes casais, penso que perdi tudo muito cedo, mas arrisquei. Agora já ninguém arrisca. Porque arriscar o coração não é para todos."


... Levantou-se. Sacudiu o casaco. Deixou o saco com as rosas. Talvez como urna, para aqueles tais casais que já não arriscam. Nem dançam. Nem jogam às cartas.

Obrigada Manel. Foi uma agradável conversa. Daquelas que ficam.

terça-feira, março 13, 2012

Tomates

O que faz falta ao ser humano é.... expressar-se.
Gritar. Barafustar. Bater com o punho na mesa.
Sem medos. Opressões.
Ainda existe quem confunda. Carácter... com falta dele.
Há quem tenha o punho. E há quem tenha a mesa.
E depois existem [perdoem-me a expressão, ou então não perdoem, quero lá saber] aquelas pessoas com tomates.
De convicções. De batidas secas. Até rachar a mesa. Até partir o punho.
De mortos-vivos nunca se fez história.

sexta-feira, novembro 18, 2011

i|marginal

Quando uma estrada vai pela pelo mar adentro. Dizem que é marginal.
É paralela. Como o coração e a razão.
Não se tocam. Dizem eles.
Erram. Digo eu.
Um organismo é um organismo.
Pele. Franja. Braço. Dedo. Mão.
Joelho. E é às vezes no joelho, que o coração toma a razão.
Toma atenção.
Do tremer.
Ou de tremer. Como preferirem.
Às vezes o ser humano não tem a sapiência de saber que as articulações do joelho titubeiam no cruzamento.
Naquele. Naquele mesmo cruzamento onde a marginal cruza o mar.
Onde o alcatrão toma cada grão de areia como dele.
Ou o contrário, também é válido.
O que não é saudável, para a alma, quem a tenha. É o recíproco.
A areia tomar o alcatrão. Aí, não é o joelho que treme.
É o calcanhar. O queixo. O lábio inferior.
Porque o superior é mais rijo.
Como o cérebro que se diz adulto.
Que de tão adulto que parece, treme.
Como uma criança. Nervosa. Nos primeiros dias de escola.
Á chuva. Aquele tilintar no trigo à beira. Do nada.
Naquela recta, de luar à orla mar.
Naquela delinquente alma que toca o pavimento.
Porque os dias não podem ser iguais.
Porque as noites engolem toda e qualquer saliva.
Daquela que vai pelo queixo abaixo. Rugosa. Impetuosa.
Até o alcatrão dar cabo daquilo tudo. Do princípio ao fim.
Mas ao contrário é que tem mesmo graça.
Do fim até ao princípio. Aquele princípio tão nosso.
Tão nu. Tão íntimo. Que faz chorar.
Aquele choro, grosso. Salgado. Que ao passar deixa crateras.
Fundas. Ao erijo epiderme.
Com cada membro.
Membrana, se quiserem. Mas se não quiserem, não faz mal.
Que me importa a mim.
Nada.
Que a pele é minha. A marginal é esta.
É paralela se eu quiser. E eu não quero.
A perpendicularidade tem muito mais charme.
Treme? Ainda bem.
É sinal que vivem. Que sabem distinguir coisa nenhuma.
Quem é que disse?
Eu não fui.
Que passei no código sem saber as regras de trânsito.
Prefiro o roçar da areia, a mazelas ‘alcatronais’.
Deixem-me. E agarrem-me.
Por mim. Nunca para mim.
Que de ‘cirenaísmos’ nunca se fizeram erotismos.
Evaporem-se, como cargas de pilhas. Húmidas do inverno.
Está rigoroso.
Mantas de retalhos. Laranjas. Da cor do mato.
Não chove. Não dorme. Não troveja.
Morreu.
Sorrio. Porque há óbitos assim.
Bons. Mesmo bons. Que de tão libertadores, ganem.
Até partir. Maldito caixão.
Foi na procissão, de barco.
É época de regozijo. Na ‘i|marginal’. Os semáforos abertos.
As linhas descontínuas.
O porta-bagagem vazio. De passados.
É presente.
O mau que se foda.
Sim que se foda.
Podia dizer que se lixe. Mas não me apetece.
É mesmo que se foda.
Fode-te e morre.
Porque é ao renascer que se chora. Que se gane.
Que tudo o que é lúcido toma aquela leve nitidez do que é anormal.
E o que é anormal é tão bom. Quase orgástico.
Já venho.








domingo, outubro 23, 2011

Metro Photo Challenge

Maltinha aqui a estranha gostava mesmo muito de ver um dos seus clicares na página do Jornal Metro. Oh faxavor cliquem no link e votem :) Muito obrigada. Abraço de carpediem


http://metrophotochallenge.com/pt2011/galleries/user/137255

quarta-feira, setembro 28, 2011

Paralelismos

Às vezes parece uma República.
Outras a Monarquia.
E outras tantas a 'Alegoria da caverna'.
Locomoções da alma, sem urnas.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Eslavos

Afinar o miocárdio.
Ladeiras. Daquelas que tanto dá subir, como descer. A embalagem por ali acima, por ali a baixo é a mesma. São ladeiras. Como lareiras. Quentes. De ramos secos. E às vezes verdes, demora mais. A queima, o estalar. O ruído. Daquele... afinamento da alma.
Às vezes apetece-me pegar numa corda e afogar a alma. Sim, porra. Afogar a alma numa corda. E enforcar a aorta no oceano. Porque uma coisa é uma coisa quando de dia, e outra coisa é bem diferente quando de madrugada.
As mãos. As mãos ditam tudo. Como chaves na ranhura que se diz fechadura. São assim, as mãos. Linhas, palmas, pele... tau. O encaixe. São afogamentos e enforcamentos pelas veias acima do pescoço.
Começa naqueles ossos 'semi-agudos' dos ombros. Aqueles de vincos decisivos. Veementemente corruídos pelos 'restos'. Como se fossem restos de nada, que de ter tudo... pega na gargante e vomita.
Sabem O Irene? É parecido. Mas ao contrário.
Se eu soubesse ao certo a idade da minha loucura. Ou os metros quadrados da minha insanidade. Mas não tenho a alma compacta. Inutilizada pelas horas. Minutos de trazer por casa.
Porque casa nunca tive. E é na rua que respiro.
Enlouqueci... não me lembro muito bem onde. Mas.. Enlouqueci.
Alerta. Alerta que ela é doida. De nortadas intensas. De semanas graves. Luas cheias, que de tão novas se fazem velhas.
Rápido. Que de nervos se fazem destinos, e o destino é de regime. Esquerda. Direita. Pouco me importa. Sou terrorista de mim mesma. Ligo e desligo a máquina, tic tac tic e a aorta em coma. Na cama esticada. Esperneia à vontade, alma vil.
Livro-me. Porque às vezes sou judia. Dos outros. Passos hebraicos.
E muçulmana de mim mesma.
Entretanto agarrei o cascalho. Ficou breve o concerto, tilintar dos tais ossos do pescoço.
As retinas não são poses.
Não são, não senhora. São mestrinas daquilo que não é confuso.
Xiu. Calem-se. Porra.
Quero silêncio.

segunda-feira, junho 27, 2011

Há velas que não passam de meros co[u]tos.

E quando o morto está vivo.
E o vivo está morto.
O funeral foi assim. O vivo estava morto.
E ninguém chorou. E veio a banda filarmónica.
E a terra. E o pico. E há quem chame de bico.
Ah a vela. A vela.
Foram sustenidos e bemóis. E o mestre de batuta.
E aquela pedra, do quarto poste a contar da esquerda.
Debaixo da pedra.
Que cá coisas de direita sempre dentro mau resultado.
A escrita sai muito perfeita, e coisas perfeitas parem coisas tortas.
E de tortas já temos os nós.
Que se fazem nos pulsos. Em formas de pulseiras.
Disse ele que era o botão das calças. Verde da cor do mato.
Serrano, trigo, vento, amarelo… de tão seco.
Que pariu ventos do sul. Mente.
Mente sua besta. Mente.
Há-de alguém ouvir as tuas lamúrias. Os teus excrementos.
E as penhas que não choram, gritam, refugiam-se.
Da bandeira de cor de sangue. Coloca gelo e pudor.
Sempre foste bom nisso. Lembraste? No pudor?
Já eu. Gosto das salinas, a escorrerem sal por todos os lados. Cantos.
Tectos. Chão. E naqueles filamentos que ninguém nota.
Estou eu lá, a gritar de prazer.
Ah milho. São como pipocas a saltitar.
Sabes lá tu o que isso é. Que de coisas cruas nunca quiseste saber.
E de nuas nem vê-las.
Miopias da tua pele.
Não sou oftalmologista. E o único Tenente que conheço é o meu, este meu.
Meu miocárdio de terra batida sem asfalto.
Que de alcatrão está a assembleia feita, e eu não funciono de votos.
E aquelas reuniões tardias. De mães loiras, de netos desvanecidos.
Ah funeral de trinta e quantos graus.
Prazer orgástico, obrigada. Pele minha.
E tu, lá em cima na bandeira que, não é tua.
No canto que nunca foi teu.
Com uma barba muçulmana. Calça-te.
Que o meu chão. Nunca foram os teus passos.
Adeus.

Gostaste do teu funeral?
Foi bom. Não foi? Não, que não foi!

quinta-feira, junho 23, 2011

Há pessoas parvas. E depois há o meu senhorio.

As escadas eram de madeira, cheiravam a mofo e a vizinha de baixo era prostituta. Nada de anormal, não fosse a jovem do quarto ao lado do meu ser viciada naquelas batatas fritas, cujo nome não me recordo. Aqueles de pacote cilíndrico. E guardava todos os pacotes em cima do guarda fato, e o guarda fato tinha as mais recentes criações da Fátima Lopes. Nada de anormal, não fosse a sua preferência para vestir bem, do que para comer bem, que isto dos euros não chega para tudo, não senhora.

Numa outra casa, também no bairro da Ajuda, o anterior inquilino e dono da casa, tinha ganho o Euromilhões. Fez uma casa na quinta da Marinha e alugou aquele apartamento à frente do Pingo Doce só porque precisava de pagar o motorista. Muito bem, dantes nem carro tinha, agora o senhor precisa de motorista. São os euros meus amigos, são os euros.
Nessa casa, no quarto em frente ao meu, dormia uma moça que não sabia cozinhar, mas coincidência das coincidências também era viciada em batatas fritas, mas mesmo batatas. E a moça quando lá se lembrava do vício, tal era o maneio da coisa que toda a cozinha ficava suada de óleo, em todos os cantos, no tecto, nas paredes era óleo que dava para encher o depósito da limusina do nosso senhorio.

Houve outra vez, numa outra casa que era um sótão dividido em dois, a senhora do sótão ao lado coleccionava bonecos de porcelana. Tinha uma figura parecida com aquela bruxa da branca de neve, sinceramente a mulher fazia-me confusão. O tal sótão já era pequeno, mas dividido em dois era mais que pequeno, era minúsculo. Quando ia lá alguém jantar, era em pé. Era mais chique. Buffet, portanto. Tudo normal, não fosse um dia a tal senhora ter enchido por completo a parte dela com bonecos, e um belo dia chego ao meu estamine e tenho a cozinha cheia daquelas miniaturas de porcelana. Era dentro das panelas, em cima da frigideira, até dentro do aquário. O xico, o peixe mais velho, bateu com os cornos num dos bonecos e andava a boiar no grande oceano.

Também em Lisboa, ali para os lados do palácio do Senhor Presidente, a casa era fantástica, um último andar com vista para a Igreja da Memória, tinha casa de banho privativa, quando chovia muito a malta tinha que mudar o rumo da cama, para não gramar com um chuveiro matinal antes do previsto.

Ou na ilha, em que o senhorio pensava que a juventude de trinta anos não precisa de um duche quentinho no Inverno húmido Açoreano. Esquentadores para quê? Os euros são caros, e a malta pode muito bem pegar em panelas e aquecer as suas doses de duche diário.

Tudo normal. Tudo muito normal. No outro dia contei oito, mas depois lembrei-me de mais duas. São ao todo dez. Dez casas por onde já passei. E outros tantos senhorios.

Contemporaneamente a grande moda de sacar uns dinheiros à geração dita à rasca é o aluguer de quartos. E não falo de aluguer de quartos de estudantes. Falo da maltinha de trinta, ou como eu gosto de chamar - Da maltinha verde. Verde de recibos, portanto. A modos que os senhorios viram em nós, malta que tem trinta anos, sem família, e com trabalhos de curta duração um bom negócio de chulice.
Não passam recibos, são bestas quadradas, e falam para nós por cima dos óculos. Naqueles preparos de ‘vê lá se amochas que aqui a precária és tu’.

Em frente aos meus aposentos dorme um Espanhol, e no outro quarto uma moça que só ouvi falar uma vez. Adiante.
O Espanhol vende tectos falsos. Numa destas madrugadas era um ver que te avias de barulho, pensava eu que o bacano estava a experimentar os ditos tectos falsos na sala. Sim, eu sei que é uma coisa parva de se pensar, mas foi o que eu pensei. O gajo tem a mania das dietas, e com a falta de açúcar, o cérebro podia ter-lhe dado para aí.

De manhã não havia sala. Haver até havia. Mas ao contrário. O senhorio que é uma pessoa tão simpática e bem formada, achou que a sala era demasiadamente grande para nós os três. Vai daí entrou à ‘má fila’ em casa e… dividiu a sala em dois. Sendo que numa das partes, não cabe mais que uma cama. E não é que a cama também já lá estava? Porreiro pah, uma pessoa acorda de manhã e tem mais um quarto em casa. Divido da sala com um armário. E isto tudo numa madrugada.

E ainda dizem que neste país tudo funciona a reboque. ‘tá bem tá.

Há pessoas parvas. E depois… bem depois… existem os senhorios.

P.S.: Maltinha dos trinta barra verde se me estão a ler, fé na vida companheiros.


segunda-feira, maio 23, 2011

In|rituais

Se uma convulsão durasse três segundos.
Qualquer uma que seja.
Espasmo. Êxtase. Arroubo.
Haveria uma qualquer função. Talvez quadrática.
Que expresse tal distância.
E aí faríamos uma subtracção, seguindo de uma divisão.
E ficaria o encantamento convertido a um qualquer metro por segundo.
Mas não dura.
Dura mais. E mais. E mais.
Parece que todos os ossos do esqueleto perfuram a pele. Salta as unhas.
Unhas, não! Casco. Sim, casco. Porque os ‘pseudo-sentimentos’ são tantos, que são cascos.
Agarrados ao chão. À terra. À areia. Solo.
Apetece partir tudo. Estorvos afligidos. Engelhados.
Sem tempo para papéis de parede.
É um absurdo. Um total absurdo esta raiva que sinto bem aqui. Na ponta da Alma.
Como se a Alma tivesse ponta. A minha tem. E é dessa ponta que falo.
Às vezes o que me apetece mesmo é arrancar essa ponta à dentada.

Com os dentes lá detrás.
E roer. Roer. ROER. Até à exaustão.
E ficar com a Alma escancarada, sentada. A rir. Da ponta mordida.
Agressiva esta minha vontade. Como rochas estancadas do Espichel.
Querem-me omissa. Respondo à dentada.
Querem-me calma. Não posso. E não lamento. Tenho ganas a subir por mim acima.
Querem-me alheia. Observo.
Querem-me de ríspidas normas dietistas. Como. Devoro. Arroto. Se for preciso.
À escala de Sol. Gramam com a Clave de Fá.
Dói-me tudo. Sem nunca ter querido nada.
Calem-se. Mas calem-se agora. É que de bestas quadradas, já me basta esta.
Esta ponta aqui bem no fundo da Alma.
Arroto.
E não. Não ando doida. Mas lúcida.
E é isso que me lixa.
Isso. E os rituais.