terça-feira, novembro 21, 2006

Chiado


" Rua por onde todos, ou quase todos, os Lisboetas já passaram... mas apenas alguns a conhecem...
Rua perpendicular aos Armazéns do Chiado..
Rua onde ‘habita’ uma das ‘Brasileiras’..
Foi nessa... exactamente nessa rua, que passei uma das tardes mais marcantes da minha existência..
...
Era de manhã, o sol tinha dado as suas primeiras ‘espreguiçadelas’ matinais, poucos ruídos urbanos... Eu (e o meu mim) estava nessa manhã, como em quase todas as outras,.. mórbido... anestesiado.. e... mórbido... inevitavelmente mórbido.
Caminhava por ali às voltas...uma esferográfica num bolso.. no outro um maço de cigarros... noutro alguns trocos...
Precisa nessa manhã em particular de um café.. tomava café todos os dias e a todos os horas... mantinha-me fisicamente acordado e minimamente ‘consciente’... ou pelo menos serviria para os demais acreditarem que assim o estava.
Mas... nessa manhã o simples facto de beber um café sozinho, deixou-me mais que nostálgico... triste... sim... triste... É como na tal ilha que um dia vos falei...
........
Às voltas... às voltas... às voltas...
Andava por ali... às voltas...
Como que à espera de alguém ... Não , não estava à espera de ninguém.
Não estava... eu disse.. não estava... Mas imaginem, alguém chegou.
Psst psst psst
Não fiz caso algum... não esperava ninguém.. nem ninguém me esperava.
Ouvi de novo: Psst psst psst
Curiosidade... olhei.
Casaco, calças, laço e chapéu preto, camisa branca... conhecia aquela ‘figura’ de qualquer lado, mas não me lembrava de onde. Fez-me sinal para que me sentasse na mesma esplanada... na mesma mesa.
Ainda pensei em continuar ás voltas e voltas e mais voltas, mas precisava de um café... e também de uma companhia.
Pedi um café.. curto e forte.
Silêncio.
Estivemos assim em silêncio a manhã toda... sim.. a manhã toda. Eu não falei de nada e a figura ao meu lado também não. Porquê esse silêncio numa esplanada do chiado? ... Por vezes mais que a necessidade de partilhar palavras, gestos, linhas... impera a necessidade de partilhar o que mais de nosso temos... o silêncio… o olhar.
E nessa manhã partilhei......

Ele tal como o nosso choro.. tal como o nosso sorriso.. ou tal como o nosso olhar, diz todo o nosso caminho ou ‘não caminho’... ser ou ‘não-ser’... Revela nele mesmo o nosso olhar... o nosso espelho.
Passaram-se várias e várias horas....
Chegou o entardecer...
As mesmas pessoas que passaram naquela rua de manhã... passavam agora também...
E nós... Silêncio....
Na mesa algumas chávenas de café...
Nas mãos... Silêncio...
No olhar.... Silêncio...
Na alma... Silêncio...
No coração... Silêncio...
Silêncio...
Mas...
Partilhado...partilhado...
...

Nos últimos gestos do pôr-de-sol... tirou o chapéu, desapertou o laço... fez um gesto com a mão... deduzi que queria uma esferográfica, tirei a minha do meu bolso......
E num pequeno pacote de açúcar escreveu:

“Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada ‘speres que em ti já não exista.
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.”

.....

Apertou novamente o laço, pôs o chapéu...alinhou os óculos... pegou no pequeno pacote de açúcar... entregou-me... fez-me uma festa no cabelo... e ... pela primeira e única vez ouvi a sua voz... – “ ... mais que te tentares encontrar... faz com que alguém te encontre... “
.....

Quem assinou o pequeno pacote de açúcar naquele entardecer ?
Pessoa..... Fernando Pessoa. "

In Antecâmara cap XXV

37 comentários:

.*.Magia.*. disse...

Bom dia Estranha...

Lindo!
Enternecedor!
E fico sem palavreado para deixar...!
Apenas te digo que em tempos fiz colecção de pacotes de açucar...e que gostava de ter esse pacote na minha colecção!

Cheers

(sinto falta dos Bobis, mas prontesssss, foi o Clife que te desconcentrou, ou terá sido o cão do Fazuma?
Tenho para mim que fui eu própria que te desconcentrei...o meu ressonar tirou-te do sério ;))

Isabel disse...

Tambem gostava de ter partilhado o silêncio com Fernando Pessoa.
Tambem gostava que depois dessa partilha ele me oferecesse um pacote de açucar com um poema.
Mas sabes partilhaste esse momento comigo e foi lindo, quase quase como se tivesse lá estado.

Hei-de lá ir e sentar-me um pouco e quem sabe ele vem e se deixa ficar por ali partilhando silêncios comigo.

Estou encantada...

Até breve.

Isabel

rui disse...

Olá Estranha Pessoa
Hoje sem quereres, atingiste-me com dois golpes profundos, primeiro pelo teu comentário no meu espaço e, agora com o teu post.
Vou duas vezes por ano a Lisboa, por questões profissionais e, quando me despacho dos meus afazeres, há dois sítios que visito sempre e que me ficam à mão: a livraria Bertrand e o café Brasileira, onde aí me sento por vezes a fazer tempo de tomar o avião.
Hoje, debato-me com um problema familiar, de futuro verei o que fazer.
Beijinhos
O senhor do mar

ps. Pensei que fosse fácil desligar-me de tudo, mas está custando muito.

Pierrot disse...

Psssst
Psssst

Nãão, não é o Pessoa, olha para cá!

Sou eu, vês!

Afinal fizeste o que ele sugeriu...
Fizeste com que alguém te encontrasse...e eu encontrei-te hoje.

Vá lá, não precisas de te sentir só. Já sabes que estou sempre à distância deste teclado :-)

Post grandioso Estranha.
Bjos daqui
Eugénio

Tit disse...

[Fico também em silêncio... saboreando as palavras escritas... o aroma do café... o doce do açúcar. Saboreando a cumplicidade do silêncio.
Excelente.]

Maria P. disse...

Grata pelas surpreendentes visitas à Casa de Maio.

Beijinho:)

Louco de Lisboa disse...

Já tive instantes desses, ou pensas que só te tinha acontecido a ti? ;)

(Adorei...)

Até outro momento

Louco de Lisboa disse...

(Ahhh.... e saborei a musica...)

Giorgia disse...

trago o chiado no coração... e fernando pessoa na alma... quisera eu...

beijinhos

Tino disse...

:) Eu estudei ali ««-------- um bocadinho mais acima...na Rua das Chagas...que raio, estudar no Bairro Alto... Bebi muitos cafézinhos desses, comecei a namorar naquelas escadinhas mais ali --------»» uma recordação? Não! Muitas! :) algumas tão bonitas como a tua!

Um beijinho grande :)

divergente disse...

MAIS UM CAFÉ

Bela disse...

Fiquei enternecida...
Gostei tanto!
Trago Pessoa no coração...

Um abraço grande :)

amazing disse...

Desta vez gostei mesmo!

melena disse...

o grande fernando

Miudaaa disse...

Simplesmente Genial!!!
Já li uma, duas, tres vezes.
Ameiii...
Sabes, tenho a certeza que o Fernando Pessoa ía AMAR ler-te.

Estranha estás de Parabéns... e eu completamente rendida aos teus encantos da escrita.

Um beijo e Um Xi da miudaaa

EMN disse...

L I N D O !

emn***

Estranha pessoa esta disse...

Como é que se fica corada num blog ?? :P


:) *************

Miudaaa disse...

... é fácil, pintas na foto umas rosetas vermelhuscas!!!

Miudaaa disse...

precisas de Blush???
é que se precisas, não me peças porque eu não tenho, não uso e não gosto :-)

Estranha pessoa esta disse...

lol
Eu não uso maquilhagem.
E pelos visto tu tb não.

Gostei do não uso e não gosto! :P

Estranha pessoa esta disse...

Linhas, entrelinhas e derivados de Maio/2000

Isabel disse...

Vim deixar-te um olá de uma estranha pessoa para outra estranha pessoa.
E como me sinto estranha hoje!

Um beijo e atá breve.

Isabel

as velas ardem ate ao fim disse...

Sublime.Não consigo dizer mais nada...

bjinhos

Mel disse...

Estranha pessoa ...

Em tempos idos, quando o Fundo Social Europeu financiava cursos (?) de ... e de ... aos pobres enteados da Comunidade (nós, os Portugueses), dizia, em tempos idos, depois de um dia de trabalho, eis-me que senão quando, me atrevia a sentar na Brasileira.

Nesse tempo, o Sonho comandava a vida, eu ainda acreditava que o Sol haveria de brilhar todos os dias ... e, para mim, o simples facto de partilhar aqueles minutos com Pessoa, valiam por tudo o resto ... pela corrida de autocarro em autocarro, pelo dia de trabalho seguido de 4 horas de formação e, de novo os autocarros ...etc.

Foram momentos inolvidáveis ... pena que não tenha tido a sorte de que me assina-se um pacotinho de açucar ...

Um abraço grande,

Belíssima crónica!!

Mel disse...

Estranha pessoa ...

Em tempos idos, quando o Fundo Social Europeu financiava cursos (?) de ... e de ... aos pobres enteados da Comunidade (nós, os Portugueses), dizia, em tempos idos, depois de um dia de trabalho, eis-me que senão quando, me atrevia a sentar na Brasileira.

Nesse tempo, o Sonho comandava a vida, eu ainda acreditava que o Sol haveria de brilhar todos os dias ... e, para mim, o simples facto de partilhar aqueles minutos com Pessoa, valiam por tudo o resto ... pela corrida de autocarro em autocarro, pelo dia de trabalho seguido de 4 horas de formação e, de novo os autocarros ...etc.

Foram momentos inolvidáveis ... pena que não tenha tido a sorte de que me assina-se um pacotinho de açucar ...

Um abraço grande,

Belíssima crónica!!

vida de vidro disse...

Esse encontro, também eu gostava de ter. Só que tinha uma enorme quantidade de perguntas para fazer a esse senhor. :)
A sério: o texto está muito, mas mesmo muito bom! **

Lee disse...

Há um F.P. em cada um de nós quando nos apercebemos das pequenas coisas que queremos deixar em branco nas idas e vindas dos sítios em que buscamos a nossa imagem no espelho da vida.
Encontramos o nosso poeta quando exteriorizamos o que artisticamente o nosso sonho criou. Deixamos de sonhar quando nos abanam e constrangem. Abracemos em paz a liberdade com que cada qual nasceu de se expressar.
Apeteceu-me dar um berro para dizer que estou vivo...
E dei!

Pirum disse...

Tá espetacular nao so por falar de um dos sitios mais... nem sei que adjetivo utilizar talves mítico de lisboa mas tambem pela mensagem! beijo**

Miudaaa disse...

“Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista.
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.”

O que eu AMOOO esta forma real de ver o que é para ser visto, sentido e pensado.

Passei por aqui. Um Xi da miudaaa.

Estranha pessoa esta disse...

" Se faço estas análises de um modo lasso e casual, não é senão porque assim retrato mais o que sou. De uma análise propriamente profunda não só sou incapaz, mas sou também artista demais para a pensar em fazer; pensar em fazê-la seria pensar em dar de mim a ideia de que sou uma criatura disciplinada e coerente, quando o que sou é um analisador disperso e subtilmente desconcentrado. A minha arte é ser eu. Eu sou muitos. Mas, com o ser muitos, sou muitos em fluidez e imprecisão. "

Pessoa... Fernando Pessoa

APC disse...

Ei, ei, ei!!!... Tu!... Sim tu!
Tu escreves buéda bem, pá!
E o que é lá isso de Antecâmara, hum?
Então a menina tá a escrever um livro e eu nem imaginava? Mas tinha mais era que ser, isso é bem verdade!, que não se escreve assim para se deixar perder.
Eu adorei!!! E algumas passagens curtas (como "Curiosidade... Olhei!) assombraram de estilo a continuidade de uma narrativa muito interessante, original e agradabilíssima.
Eu apenas ocultaria o derradeiro parágrafo. Porque me parece que enriqueceria muito o facto de conhecermos o desfecho com ele implícito; ele acontece-nos na sequência de tudo o resto, que o obvia. E assim seríamos - escritora e leitores - ainda mais cúmplices.
5 estrelas! :-)))

Estranha pessoa esta disse...

hheehehe
Sua camuflada já tinha saudadecas...
Ouve lá uma coisa.. estás a ser muito cusca :P

Isto da Antecâmara é... como direi umas linhas desalinhadas que estão algures no fundo de uma gaveta.. gaveta esta com seis anos .. mas, um dia destes sentias.. e resolvi partilhar.
:)
****

Carla disse...

Adoro Fernando P. ,ler e sentir e o chiado no inverno,os cheiros,as luzes,a recordaçao...

Estranha pessoa esta disse...

...a saudade!!

APC disse...

Beijos da cusca camuflada, que vem aqui dizer que fazer notar que estás estranhamente caladita! :-)

APC disse...

Bolas... Vem "dizer que" ou "fazer notar que"!, as duas é que não, enganei-me. Bom fim-de-semana temporalesco! :-)

Estranha pessoa esta disse...

Estou mais que calada...
Estou mesmo muda.....
..
Ahhhh