segunda-feira, novembro 27, 2006

Frente

Podia começar isto com um ‘Era de noite’.
Que por acaso até era.
Podia começar isto com um ‘Era de noite e chovia’.
Que por acaso até chovia.
Podia começar isto com um ‘Era de noite, chovia e a calçada estava gasta.’
Que por acaso até estava.
Podia começar isto com um ‘Era de noite, chovia, a calçada estava gasta e a brisa ensolarada.”
Que por acaso nem estava.
Eu podia começar isto com isto.
Com um ‘nem estava’.
Mas, estava.
Ora, começo então com um ‘Nem estava’.

Nem estava naquela rua.
Aquela noite era de chuva. Uma chuva miudinha, daquela que teima em fazer-se notar sem ser vista.
Caminhava nessa rua apressadamente.
Passos largos, pesados até.
[Lembrem-se que ‘Nem estava naquela rua’]
Um candeeiro ou outro. Pouca luz.
Deserta.
A rua e a luz.
Caminhava cada vez mais depressa.
A calçada cada vez mais gasta, corroída, esquecida.
Íngreme.
Prédios antigos, ouvia-se ao longe um ou outro sussurrar.
Não me recordo o tom desse sussurrar.
Mas, era do tom das paredes dessa rua.
Sentiu-se um vento forte.
E os passos já não eram tão pesados..
Caminha calmamente.
Chovia.
Parou.
Pararam?
Não sei.
Eu nem estava naquela rua.


Já voltaste?





Ainda não!


Chovia, então.
E parou.
Não tu!
A chuva.
Parou, assim de repente.
Sussurravam que era uma qualquer frente.
Frente fria.
Frente quente.
Era uma frente.
E tu não paraste.
E olhaste de soslaio.
E seguiste.
E nem viste..
Que a calçada estava gasta.
Que era de noite.
E que simplesmente a chuva é miudinha, daquela que teima em fazer-se notar sem ser vista.






Paraste?
Não sei.
Nem sequer estava naquela rua.


18 comentários:

APC disse...

Mas se X por lá tivesse passado, e se tivesse parado, não gostarias de lá estar, fazendo-te notar e sendo vista? Fazendo-o ver, e avançando p'la calçada gasta, naquela noite chuvosa, véspera sonhada de uma brisa ensolarada?
Deixa...
Eu até nem estava a perguntar-te nada. Apenas à espera... De acabar de sentir a chuva miudinha que as palavras soltaram sobre mim.
E a foto é linda; espelho de água sobre um chão que se pisa.
Gostei muito! :-)

vida de vidro disse...

Olha, tu é que me fizeste parar, ler-te e reler-te. E garanto-te que eu também não estava naquela rua! :)**

.*.Magia.*. disse...

Estranha...
Eu nem parei, nem vi, nem chovi...

Eu nem sequer vim aqui, nem sequer te li...nem sei do que falas!

Acho que vou ver ver melhor a calçada...tenho para mim que perdi lá umas pegadas e uma notinha de 10 Euros !

Dizes que não estavas lá...
Tenho para mim que estavas...
Estavas escondida entre as pedras da calçada...
Eu não estava lá, mas vi-te!

Abraço de vicio!!!!!

.*.Magia.*. disse...

Vi, vi!!!!!

Cheers

Tino disse...

A Magia tem razão! Eu estava lá...tu não me viste mas eu vi-te...mentes, enganas e enganas as mentes mas a mim não porque eu vi com estes dois que a terra há-de comer! E não estava a chover!!!

Beijo desirmanado perdido e vadio ;)

Miudaaa disse...

A rua estava deserta.

E porquê é que a rua estava deserta?

A chuva miudinha nunca fez mal a ninguém, bem pelo contrário, refresca e não encharca.

Já sei... as batidas do miocárdio "obrigavam" todos... a estarem no interior das casas que não havia naquela rua.

Ou havia casas... naquela rua???

Miudaaa disse...

*haviam (ai o pertuguês)

(L)oca disse...

eu não estava naquela rua...
se não teria dado conta da chuva,
da calçada gasta, dos sussuros, dos passos largos...
mas tb eu não estava lá.

Giorgia disse...

dei por mim a seguir o teu percurso passo a passo... eu, que tal como tu nem sequer estava naquela rua!

beijinhos

Giorgia disse...

Posso deixar um PS pra a miudaaa??? Não é por nada e por favor, n leve ma mal, mas escreveste bem á 1º, ou seja HAVIA, e não HAVIAM.
Empregue no sentido de "existir" o verbo HAVER é impessoal, permanece invariável, por exemplo, “Havia policias disfarçados no salão” e “Haverá muitas pessoas que reclamarão”...

beijokas

Pierrot disse...

Que giro...
Pareces tu a falar de ti para contigo própria.

Curioso, eu parei lá e era capaz de jurar que te vi...ou seria a tua sombra de quem lá queria estar, por um momento?

Gostei e nem estavas lá, fará se estivesses.
Bjos daqui, onde também estás
Eugénio

Bela disse...

Lá fui seguindo os teus passos...
Que foram dar onde não estavas...
Gostei. :)*

as velas ardem ate ao fim disse...

Olha Amiga não sei o que te diga para além de que és GENIAL!

Gosto muito de ti!

Foi um prazer segui te a lado nenhum.

Bjinhos

sem-comentarios disse...

Isto é a tua fase introspectiva !

excelente :)**

Maria P. disse...

Depois de ler pensei: como esta Estranha Pessoa brinca com as letras!

E mais pensei: como aqueles miúdos que faltavam a todas as aulas, mas sabiam todos os truques no jogo de berlinde, e brincavam e ganhavam, ganhavam sempre...

És excelente.

Estranha pessoa esta disse...

Não estive aqui.
Mas, sentivos a todos.

CM disse...

Podia comentar, mas a luz do meu raciocínio está fraca, até parece noite, os dedos não estão firmes escorregam, a chuva molho-os, as teclas estão gastas, não consigo tocar-lhes, e a brisa que me toca é de admiração pelo que acabei de ler...
Podia comentar, ao sentir este estranho desassossego... mas nem o senti!

Marina disse...

Estranha pessoa, desculpa andar pouco por aqui nos ultimos dias. Mas a questao e que a minha placa (que e ultra mega potente - o estilo ja era meu antes de existir a Floribella), que ate acho que e igual a tua, tem andado a boicotar me os passeios nocturnos...

Quanto ao texto, isto ate podia ter saido um comentario inteligente.
Mas este, por acaso (espero que seja por acaso!), nao e, que o meu cerebro hoje nao da para mais!

Beijitos e bom fim de semana!