segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Sombras II

Sombras I Aqui


Neste dia ele saiu mais cedo.
Era Inverno, daqueles Invernos secos e húmidos, suaves e gelados...
Daqueles frios que arregaçam as veias até ao tutano,
ao ponto da 'medula do ser' ficar completamente tripartida em manhãs, tardes e noites.
Corria calçada abaixo, não porque estivesse atrasado mas,
porque tinha medo que o 'Medo' aparecesse.
Ele costumava aparecer assim naquelas tardes frias.
Ainda ecoava naquelas paredes aquele último bater de asas que se queria arrojado,
coabitava naquela rua um grito nunca dado.
E ele corria
corria corria
Hoje ele queria escrever tudo.
Dantes só escrevia o que podia.
Hoje queria escrever tudo o que podia e queria!
E corria antes que o tal bater de asas se ausentasse.
E pegou no pequeno lápis, o tal que estava sempre no alpendre da mercearia.
E sem estremecer, escreveu.
Escreveu:
"Se num qualquer anoitecer me vires de chapéu de chuva, e não estiver a chover..
É porque me esqueci de mim e estou a lembrar-me de ti."
E tirou o único atacador que tinha.
Pegou no pequeno papel e no pombo de nome Medo, atou no tornozelo do 'Medo' o manuscrito.
Atou.
E soltou.





Não chovia.
E ele tinha o chapéu de chuva.

Viste?



"Que importa se viste,
devolveste o que tinha escrito."
Escreveu ele no degrau do prédio de porta entreaberta.

7 comentários:

arritmico-mano disse...

e na volta encontra-lo nas palavras escritas no degrau do prédio da porta entreaberta.



na volta onde tudo (re)nasce e se transforma...

david santos disse...

Olá!
Bom trabalho.
Obrigado

Ela disse...

Chovam palavras....como as tuas...sublimes!

Um beijooo

as velas ardem ate ao fim disse...

Não ter medo de ter medo!

bjinhos

MiguelGomes disse...

Yap... É preciso coragem.

Fica bem,
Miguel

Carracinha linda! disse...

Esquecer que o medo existe...não recear ter medo...Não sentir medo...É díficil...

Beijocas

sem-comentarios disse...

Gostei da ansiedade pela escrita do personagem :)


*****:)